Capítulo 102: Eu simplesmente não sou humano
Há alguns anos, a lan house ainda contava com vários computadores de ponta; depois, como a maioria dos usuários vinha apenas para jogar jogos virtuais, as mesas foram gradualmente removidas e substituídas por cabines de jogos em formato de cápsula, que alinhadas uma ao lado da outra não ocupavam muito espaço.
Sem as mesas, cadeiras de computador eram inúteis.
Su Mo e Fu Jiafeng estavam agachados nos corredores, de frente um para o outro, comendo uma tigela de miojo, sugando um fio de macarrão e mordendo uma salsicha de presunto.
Embora Su Mo fosse um filho de família rica no passado e, sem perceber, tivesse adquirido alguns hábitos de jovens abastados, os anos de serviço militar mudaram muita coisa. Ele já havia comido não só miojo, mas também insetos, cobras venenosas e escorpiões.
Portanto, para ele, o miojo não era nada difícil de engolir.
Já Fu Jiafeng, ultimamente, tinha mesmo a aparência de alguém muito pobre, às vezes até mais do que ele, um filho de família falida.
— Vocês criaram um grupo fixo ou um grupo de mercenários no jogo? — perguntou Su Mo.
— Agora é um grupo de mercenários. Quando conseguirmos o título de guilda, vamos criar uma. Daí para frente, queremos transformá-la num clube. Eu e o Deus Divino já decidimos que vamos fazer algo grande — respondeu Fu Jiafeng com convicção.
— Então, seu idiota, você gastou todo o dinheiro para criar esse grupo? Por que não faz algo melhor? Aprender a registrar um grupo de mercenários? Mil yuans foram todos usados nisso? Vive malcomendo, não vai crescer nada assim.
— Na verdade, não foi só eu que paguei mil yuans, juntamos entre nós — disse Fu Jiafeng, parecendo meio envergonhado ao lembrar disso.
— Não gaste dinheiro à toa, espere até conseguir ganhar dinheiro de verdade — Su Mo falou sério, mas sem ser ríspido.
— Ah... Su Velho Demônio, que tal adicionarmos no WeChat? — Fu Jiafeng ficou em silêncio por um momento, tomou um gole da sopa do miojo e depois fez o pedido.
— Pra quê? — Su Mo virou a cabeça com cautela.
— A gente se conhece há tanto tempo, adicionar no WeChat não é nada demais. Eu não te desprezo, que olhar é esse? — O jovem se sentiu magoado, achando que aquele olhar era de desprezo.
— Tá, adiciona então — surpreendentemente, Su Mo tirou o celular do bolso, segurando a tigela de miojo com uma mão e o aparelho com a outra, enquanto ainda mordia metade da salsicha.
Após adicioná-lo, Fu Jiafeng colocou a tigela no chão e mexeu no celular.
Então Su Mo ficou chocado:
— Caramba, moleque, o que você está fazendo? De onde tirou dinheiro para me mandar isso?
O contato recém-adicionado enviou uma transferência, e era de cinco mil yuans!
Se não estivesse enganado, poucos minutos antes Su Mo havia dado uma surra nele alegando estar ensinando boxe.
— Isso é um presente do seu irmão mais velho, aceita tranquilo — Fu Jiafeng respondeu balançando a cabeça, achando-se o máximo, sem perceber que ao mexer os cabelos meio longos, uma nuvem de caspa se espalhava pelo ar.
— Você roubou dinheiro de casa? — Su Mo achou aquilo absurdo.
Cinco mil yuans não era pouca coisa. Antes de entrar no grupo de chat dos monstros, Su Mo mal conseguia pagar suas contas trabalhando em vários empregos, ganhando só uns dez mil yuans por mês.
Mesmo agora com sua grande vantagem, ele não tinha coragem de dizer que cinco mil yuans era pouco.
Muitas vezes, ele disputava com outros até para conseguir trabalhos de poucas centenas no salão de mercenários.
Fu Jiafeng era um ex-estudante rebelde e brigão; se não roubava de casa, provavelmente estava envolvido em coisas erradas pela rua.
— Como eu ia roubar dinheiro da minha família? Tudo que eu tenho, ganhei por mim mesmo. Para de encher o saco com essas coisas pequenas — o jovem disse impaciente, virando a cabeça.
— Por que está me dando dinheiro? — Su Mo conteve o impulso de dar um soco.
— Ah? Você não tem noção, né? É porque você é pobre, senão por que ia te dar dinheiro? Use para pagar dívidas, não precisa agradecer — Fu Jiafeng sorriu maliciosamente.
— Fica com ele, eu não quero — Su Mo balançou a cabeça; uma transferência não aceita retorna automaticamente.
— Ei, você está doido? Recusar dinheiro? Não me dá valor? É isso? Você me despreza? — Na rua, ninguém gosta de ser desprezado. Se você me despreza, somos inimigos.
Para surpresa dele, Su Mo respondeu sinceramente:
— É, eu te desprezo. Do jeito que você é, como ia conseguir cinco mil yuans?
— Hehe, é a pobreza que limita sua imaginação. Su Velho Demônio, você não ficou pobre por mais de meio ano para virar um miserável de verdade, né? — Fu Jiafeng deu uma risada fria e bebeu toda a sopa do miojo: — Eu ganho pelo menos quinhentos yuans de mesada por mês. Faço recados para minha irmã, lavo louça para minha mãe, passeio com o cachorro do meu pai, tudo isso me rende dinheiro. Cinco mil yuans para mim é só um número.
Su Mo o olhou por vários segundos, então estendeu a mão e ajeitou os cabelos bagunçados do jovem, espalhando ainda mais a caspa pelo ar.
Todo mês ele guardava um pouco da mesada e procurava formas de ganhar mais, por isso conseguiu juntar os cinco mil yuans para fazer a transferência.
Mudou da área VIP da lan house para a comum, trocou táxi por bicicleta, passou a comer arroz frito com ovo e miojo — não era de se estranhar que Su Mo achasse que Fu Jiafeng estava mais pobre, pensando que a família tinha cortado a mesada, mas na verdade ele estava juntando para pagar dívidas para ele.
Su Mo se sentiu quase desumano; como podia alguém tão bom ser tratado assim?
— Ei, sua cabeça está cheia d’água? Meus cabelos não são para você ficar mexendo à vontade! Nem lavei as mãos depois de comer miojo, não acha nojento? — Fu Jiafeng escapou da mão de Su Mo e se afastou um pouco.
— Hehe — Su Mo sorriu, tinha que sorrir.
— Eu te dou dinheiro, não me importo se você aceita ou não, mas não fica tão sem vergonha assim de chegar colado. Se você fosse uma garota, eu até consideraria te dar uma chance, mas você é homem, feio para caramba e, pelo que lembro, já tem mais de vinte anos.
— Hm — Su Mo levou a mão do lado da coxa e continuou sorrindo: — Velho Fu, na verdade eu não preciso de dinheiro.
— Só tenho esses cinco mil, não tenho mais nada. Os próximos dois meses já antecipei a mesada com meu pai — Fu Jiafeng olhava Su Mo desconfiado, achando o sorriso dele sinistro demais.
— Chega aqui, vou te mostrar meu saldo — Su Mo fez um gesto cansado.
Se era a comunicação dele ruim demais, ou Fu Jiafeng com um raciocínio estranho, não entendia por que cada conversa entre eles parecia uma tortura.
Fu Jiafeng, apesar da mente meio confusa, tinha curiosidade, então se aproximou e viu que o saldo de Su Mo tinha dezenas de milhares de yuans. Contou os zeros várias vezes antes de acreditar.
— Su Velho Demônio, você não está fazendo bicos à noite, como o Wang Shuo disse? — A voz dele tremia, cheia de pena.
— Wang... Wang Shuo!