Capítulo 0070 - O acordo mais obscuro da história
— Tem mais um?
Os dois que já tinham concluído suas tarefas trocaram olhares e correram direto para a barraca. O Ovo Cozido ficou completamente confuso com aquele clima, mas como já estava ao lado da barraca, foi mais rápido que os outros que vinham correndo e comprou o item sem hesitar.
— Ah, foi vendido! — exclamaram os dois, batendo a testa em desespero antes de darem meia-volta e irem embora.
Su Mo recolheu a barraca, avisou que no dia seguinte voltaria cedo, e se retirou imediatamente, deixando para trás um Ovo Cozido com cara de quem não entendeu nada.
Encontrando um lugar mais discreto, Su Mo negociou um Coração de Laranja Rubra para cada um dos outros dois. Tinha a intenção de dar dois para Su Xiaojiu, mas ela recusou.
Su Xiaojiu não era obcecada por subir de nível; seu objetivo era encantar os fãs durante as transmissões ao vivo do jogo e incentivá-los a enviar presentes. Para ela, subir de nível não fazia diferença.
Su Mo pensou então em dar os dois restantes para seus companheiros de batalha, mas também foi recusado.
— Não precisa, seria um desperdício gastar milhares de moedas numa coisa dessas. Prefiro subir de nível por conta própria, faz parte do processo e só aumentar o nível não adianta muito — disse Tian Dachuang.
Diante da insistência deles, Su Mo não forçou a situação.
Ele já havia decidido que, ao atingir o nível vinte e oito, não usaria mais itens raros comprados para evoluir.
— Ah! Maldição, cadê ele? Sumiu! Como ousa me enganar, seu...! — a voz furiosa do Ovo Cozido ecoou.
— O que aconteceu? — Tian Dachuang espiou e viu o Ovo Cozido em fúria.
— Nada demais, ele só comprou um Coração de Laranja Rubra por mil moedas de ouro. Eu marquei o preço errado sem querer — respondeu Su Mo, com muita tranquilidade, sem admitir que foi de propósito.
Ao colocar itens à venda, o preço era digitado manualmente. Da primeira vez, Su Mo colocou oitenta moedas, que Yun Fei comprou. Na segunda, cem moedas, que Tian Dachuang pegou. Na terceira vez, mil moedas, e o Ovo Cozido comprou sem nem conferir.
— Que golpe! — Tian Dachuang começou a calcular quanto valiam mil moedas de ouro.
— Esse é o nosso Mo, sempre brilhando! — elogiou Yun Fei, mostrando seu apoio.
— Não sei se foi certo. Mil moedas de ouro não são pouca coisa para ninguém, e ele deve ser só um trabalhador como nós. Errado tem nome e endereço... — comentou Luo Xia, sempre íntegro e um tanto obstinado.
Mas sua integridade não era daquelas hipócritas nem paternalistas. Tinha princípios e convicções próprias. Por vezes, Su Mo achava que ele lembrava o Capitão América das lendas.
— Fica tranquilo, irmão. Investiguei esse sujeito, é detestado nos fóruns por extorsão, trapaça, ameaças, sempre se aproveitando dos outros. Sem falar que já me ameaçou — explicou Su Mo, que depois da ameaça foi buscar informações tanto sobre o Templo dos Deuses quanto sobre o tal Ovo Cozido.
O mais revoltante era o fato de que ele havia ameaçado uma garotinha, pressionando-a com um grupo para que vendesse a baixo preço uma roupa rara que tirou num sorteio, só porque um figurão da guilda queria. O preço era baixo, mas o Ovo Cozido queria lucrar ainda mais, oferecendo um valor absurdo. Quando ela se recusou, começaram a importuná-la até que, indignada, ela expôs tudo nos fóruns, mas nada mudou. O Ovo Cozido continuou a explorar jogadores em toda a Cidade de Luo.
— Se você já investigou, está resolvido — Luo Xia não falou mais nada.
Entre eles, Luo Xia respeitava mais Su Mo, o mais jovem do grupo, do que o sempre gentil Tian Dachuang.
— Vamos marcar uma comemoração, afinal foi nossa primeira vitória! Um dia ainda vamos derrotá-los de vez! — Su Mo já queria animar o grupo há tempos e, finalmente, conseguiu.
Diante de um adversário poderoso, será que algumas formiguinhas tinham chance? Agora ele mostrava que, com planejamento, até o Templo dos Deuses não passava de uma multidão.
Na vida real, só podiam se defender, proteger a si e às famílias com as próprias habilidades; no jogo, podiam atacar quando quisessem.
— O Mo está certo, vamos encarar como uma missão cumprida — Tian Dachuang concordou.
Mil moedas de ouro equivaliam a mais de cinquenta mil reais. Com isso, Su Mo já acumulava cento e sessenta mil em poupança. Mas não sacaria tudo; tirando essas mil moedas, restavam poucas moedas no jogo, e ele precisava guardar duzentas para emergências.
Quitar dívidas, fortalecer sua influência no jogo, acumular capital, até o dia em que se tornaria um grande magnata capaz de esmagar o Grupo Qi Cheng tanto no jogo quanto na vida real.
Nessa hora, uma cena surgia em sua mente: um jovem sonhador declarando com convicção que um dia seria um senhor absoluto.
Su Mo não era tão fantasioso, mas sentia algo começar a germinar em seu íntimo.
Não havia chance de reconciliação: de um lado, o ódio pelo assassinato do filho; de outro, a destruição de uma família.
Os ex-soldados de elite não queriam mais viver sob o medo de ameaças. Tornar-se forte para causar esse medo nos inimigos era o único caminho.
Procurar apoio da organização não resolveria tudo. Sem provas suficientes, com as esferas militares e civis separadas, seu alcance era limitado e poderia apenas alertar o inimigo.
O Grupo Qi Cheng não teria chegado tão longe sem proteção. Ainda assim, Su Mo pretendia contatar antigos superiores, pedindo que a organização ao menos se posicionasse: “Grupo Qi Cheng, estou de olho em vocês. Não se atrevam a passar dos limites!”
Assim, evitariam medidas extremas que deixassem rastros. Além disso, durante o período de guerra, era impossível que não tivessem deixado vestígios; Su Mo precisava encontrar novas provas. Pelo modo brutal de expulsar pessoas e provocar mortes, o Grupo Qi Cheng devia ter sido ainda mais impiedoso naquela época.
Su Mo entrou em contato com Cang Jia, do Crepúsculo dos Deuses, para vender os catorze Corações de Laranja Rubra restantes. Guardar esses itens só os desvalorizaria e ele não queria vendê-los ao Ovo Cozido, fortalecendo o inimigo. Cang Jia, por estar em oposição ao Templo dos Deuses, era a escolha óbvia.
Como já haviam negociado antes, desta vez Cang Jia não precisou de intermediário.
Provavelmente ocupava uma boa posição no Crepúsculo dos Deuses, pois estava com uma nova roupa rara, de aparência cara, e trazia uma bela garota pelo braço, ambos rindo e conversando com intimidade.
— Olha só, irmão, você está elegante — Cang Jia elogiou Su Mo, admirando seu visual.
Homens sempre têm um fascínio pelo Velho Oeste: cavalgar, chapéu de cowboy, enfrentar ventos e poeira em busca de fortuna e aventura.
— Ganhei de presente, não teria como comprar — respondeu Su Mo, meio sério, meio brincalhão.
Essa discrição só deixava Cang Jia sem palavras. Ontem, Su Mo lhe vendeu dez Corações de Laranja Rubra e lucrou trinta mil em um dia, mas dizia que não podia comprar uma roupa rara?
— Tem mais Corações de Laranja Rubra à venda? — perguntou Su Mo.
— Claro! Se não, pra que eu teria vindo? — respondeu Cang Jia.
— São quatorze. Aguenta comprar tudo? — Su Mo insistiu.
— Ontem você já me vendeu dez, e hoje traz mais quatorze? Por acaso matou o Rei dos Elfos de Madeira? — Cang Jia ficou surpreso com a quantidade, achando que seriam só dois ou três, já que ontem já tinham negociado dez.
Ele pensava que aqueles dez eram fruto de um acúmulo de Su Mo, que agora aparecia com ainda mais.