Capítulo 84: Por que motivo fui alvo de tudo isso?
Bichir pensou que aquele maldito caçador de recompensas fugiria como um coelho.
No entanto, para sua surpresa, o aviso de caça que ele mesmo colocou mostrava que o caçador havia parado num acampamento de vagabundos na orla das planícies de Lancelot.
Ele conhecia aquele acampamento; muitos ali compravam mercadorias roubadas de piratas para revender e lucrar com a diferença. Os negócios de feno e peles eram apenas fachada.
Cavalgando sozinho, Bichir sentia-se um herói solitário, envolto em melancolia e tragédia.
Não havia o que fazer – seus capangas tinham sido eliminados, e mesmo que quisesse fazer alarde, não conseguiria.
Ele precisava mostrar a esse caçador de recompensas por que as flores do campo são tão vermelhas.
Abaixando a aba do chapéu, seus olhos vermelhos por acaso captaram uma silhueta veloz como um raio na planície; com o olho aguçado, reconheceu um lobo.
À distância, viu outro lobo gigante descendo lentamente de uma colina, ainda maior e mais imponente.
Não se lembrava de ter se envolvido com a alcateia em algum momento.
Bichir resmungou. Se não temia homens, por que teria medo de feras? Feras, afinal, continuam sendo feras — não entendem o valor de atacar em grupo.
Ao pensar em ataque em grupo, sentiu uma pontada no peito — agora não havia mais ninguém para lutar ao seu lado.
Humpf, melhor acabar logo com o pequeno à frente e depois enfrentar o grandalhão que se aproximava devagar.
Lai Fu recordava os romances: os mestres, mesmo ao caminhar, exalavam um charme indescritível, como se caminhassem impulsionados pelo vento, fundindo-se com o mundo, e bastava um olhar para fulminar o adversário.
À sua frente, o Texugo destemido finalmente encontrou Bichir.
Bichir saltou do cavalo e armou o arco longo que trazia nas costas. Uma flecha disparou como um meteoro, mirando diretamente o olho esquerdo do Texugo.
Que flecha!
Su Mo não pôde deixar de admitir que Bichir realmente era habilidoso — ou melhor, tinha pelo menos vinte truques na manga.
As profissões disponíveis aos jogadores tinham cada uma seu mestre supremo, e para os guardiões das trilhas, o ápice era o Rei dos Piratas; por isso, piratas de elite eram, em geral, dessa classe, mestres em arco e lança.
O pano de fundo de “Novo Mundo” mesclava magia e tecnologia avançada; as armas de fogo eram potentes e bem protegidas contra água.
Contudo, para manter o jogo equilibrado, não permitiam o uso desmedido de metralhadoras.
Entre os magos, destacava-se o lendário Sagra, entre os assassinos, o Rei dos Elfos de Madeira, Alfredo; entre os guerreiros, o Grão-Chefe dos Minotauros da Montanha de Raios, e entre os bruxos, o Manto Branco, Rudolph...
Claro, os personagens representativos de cada profissão não eram necessariamente os mais poderosos, apenas os mais famosos.
Su Mo, com humildade, sabia que um dia enfrentaria o Rei dos Piratas, o ápice de sua classe, e então seria o momento de matar deuses e firmar seu próprio caminho.
Na verdade, um duelo entre chefes nunca era belo de se ver.
Quando se aproximaram, o Lobo Cinzento, Piz, e Bichir rolaram juntos pelo chão, fazendo a relva voar e os uivos ecoarem.
“Solte! Solte! Não acha nojento? Onde está mordendo?” Os gritos não vinham do lobo, mas de Bichir, que havia subestimado o Texugo, pensando que fosse apenas um capanga de Lai Fu.
Mas fora pego de surpresa — e, quando o Texugo mordia, não largava de jeito nenhum.
E ainda havia outro inimigo, aparentemente mais perigoso, aproximando-se lentamente. Supôs que o estranho não era lento por senilidade, mas por confiar no companheiro, certo de que o outro resolveria sozinho.
Bichir ficou ansioso.
Queria fugir, mas seu cavalo, assustado, já tinha escapado e estava longe.
Com duas pernas, jamais alcançaria a velocidade de quatro — e ainda por cima, uma estava presa na mandíbula do maldito Lobo Cinzento.
Bichir finalmente entendeu por que aquele lobo tinha tantas cicatrizes; golpeou-o com a faca mais de uma dezena de vezes e, mesmo assim, o animal não soltou, tamanha teimosia como nunca vira antes.
Na verdade, o Texugo não era tolo; sua defesa era sólida, e a maioria dos golpes só arranhava o pelo, evitando com perfeição olhos ou pontos vitais.
“Quebrou, quebrou!” Bichir gritou, apavorado.
Queria chorar, mas chorar não traria compaixão. Restava-lhe suportar a dor e continuar lutando, mas o fracasso era certo.
A dor e o medo lhe faziam errar todas as flechas.
Depois de arrancar-lhe uma perna, o Lobo Cinzento Piz não deu trégua, circundando Bichir e atacando sem cessar, até que o chefe pirata parecia ter sido mergulhado em sangue.
Uma das garras atingiu-lhe as entranhas, levando Bichir a gritar de dor.
Alguns jogadores que descansavam no acampamento ouviram a confusão e pensaram em se aproximar para ver se conseguiam alguma vantagem.
Mas, ao ouvirem aquele grito, refugiaram-se imediatamente em suas tendas.
Alguns mais medrosos até desconectaram — afinal, mesmo se alguém aparecesse, o corpo torturado seria apenas um avatar sem sensação, que dez minutos depois ressurgia, curado das feridas ou ressuscitado, fim de papo.
Lai Fu já estava próximo; ousava aproximar-se por dois motivos.
Primeiro, porque a luta estava concentrada numa área pequena, sem destruição generalizada, e segundo, porque o Texugo já levava vantagem.
Podia garantir: entre todos ali, ninguém derrotaria ele e o Texugo juntos.
“Por que não termina logo com ele?” Lai Fu indagou.
Para Bichir, isso soou apenas como uivos — ele não era um Apóstolo das Feras, não compreendia o que diziam entre si.
“Quero brincar um pouco. Percebi que lidar com criaturas humanoides é mais fácil; têm muitos pontos fracos,” respondeu Piz, certo de que Bichir já não tinha como escapar, um rato sob as garras de um gato.
“Não subestime os humanos. Eles são traiçoeiros — podem armar armadilhas no seu caminho...”
Droga, não conseguia controlar a língua; o envolvimento era tanto que até esquecia que era, originalmente, um humano.
“Já caí em algumas armadilhas, mas nunca consigo ver onde estão. Lai Fu, tem alguma dica?” Piz lembrou-se de como todos no grupo admiravam Lai Fu, mas perguntou sem muita esperança.
Afinal, Lai Fu era fraco — um golpe seu e ele estaria morto.
Ainda bem que, como todos eram Apóstolos das Feras, de certa maneira já estavam além das classificações comuns de força; caso contrário, o Texugo nem lhe daria atenção.
“É simples: pise onde os jogadores pisam. Eles não vão se jogar nas próprias armadilhas. E, mortos, não jogue fora: cubra-os com farinha de ovo, quer dizer, esquece — apenas jogue no chão e passe por cima deles, assim nunca ativará uma armadilha.”
Na ânsia de conquistar o respeito do Texugo, Lai Fu traiu, entre lágrimas, os semelhantes de Su Mo.