Capítulo 0074 - Nem Galinha, Nem Cão Restarão
Depois de imobilizar Fu Jiafeng no chão pela enésima vez, Su Mo já estava ofegante de tanto esforço; afinal, ele já havia testado vários aparelhos de ginástica.
— Mais... mais uma vez! Hoje, se eu não te deixar procurando os dentes pelo chão, eu nem me chamo Fu Jiafeng — o jovem, suando em bicas, mal conseguia se manter em pé.
— E se não se chamar Fu Jiafeng, vai se chamar o quê?
— Vou te chamar de papai! — Fu Jiafeng respondeu com uma risadinha.
Su Mo ficou sem saber se estava saindo no prejuízo ou levando vantagem, mas no fundo não fazia diferença: o importante era continuar batendo.
Foi então que, de repente, um grupo de jovens coloridos invadiu o local e começou a chutar e socar Fu Jiafeng, que acabara de ser novamente nocauteado, arrancando-lhe gritos de dor.
A surra deles era diferente da de Su Mo: embora os golpes de Su Mo doessem um pouco, ele nunca machucava de verdade, caso contrário Fu Jiafeng viveria com hematomas. Já aqueles de cabelos amarelo, verde, roxo e branco batiam para valer.
Enquanto batiam, ainda gritavam: — Seu traidor! Juramos juntos que dividiríamos a boa e a má sorte, mas você nos traiu e saiu da organização! Hoje vamos fazer justiça!
Que confusão era aquela? Su Mo correu para apartar a briga.
Eram quatro jovens e, sem querer machucar ninguém gravemente, a solução de Su Mo foi simplesmente obrigá-los a deitar no chão. Quem tentasse levantar, apanhava de novo. Depois de algumas tentativas frustradas, os jovens aceitaram conversar com Su Mo deitados.
— De onde vocês saíram? — Su Mo perguntou, intrigado.
— Esses são meus irmãos de juramento. Pode me bater à vontade, mas se tocar em um fio de cabelo deles, Su, eu juro que você vai passar o resto da vida aleijado! — Fu Jiafeng, já todo roxo, esforçou-se para se levantar.
— Você também deita aí. Se são irmãos, que fiquem todos juntinhos — disse Su Mo, dando-lhe um leve tapa, e Fu Jiafeng imediatamente encostou o rosto no chão.
— Fu, quem é esse cara? — um dos jovens perguntou, quase chorando.
O estranho era que, apesar dos golpes de Su Mo parecerem leves, todo o corpo deles doía, e o pior: mesmo juntos, quatro contra um, não tinham chance.
— Esse aí é Su Mo, conhecido como o Velho Demônio Su. Não se deixem enganar pela cara feia dele; já teve até uma namorada que era a mais bonita do colégio. Ainda bem que terminaram, senão seria mesmo um desperdício de flor em esterco — disse Fu Jiafeng, animando-se deitado no chão.
Su Mo lhe deu um chute no traseiro, arrancando novo gemido.
Com aquela confusão, os frequentadores da academia logo se reuniram, curiosos.
— Não é aquele o instrutor? Como pode sair batendo nos outros assim? — Alguém que não conhecia Su Mo comparou o próprio porte físico com o dele. Embora fosse um pouco inferior, ainda achava que talvez pudesse fazer justiça.
— Deixa pra lá, só assiste — aconselhou outro.
— O instrutor sabe o que faz. Fu Jiafeng apanha dele todo dia e nunca aconteceu nada sério — avisou um conhecedor àquele novato.
— Meu Deus, apanhando desse jeito e ainda provocando... Tem certeza de que aquele rapaz não levou um golpe na cabeça?
— Bem...
— Ei, olhinho pequeno, tá dizendo que quem tem problema na cabeça? Olha direito, será que não enxerga direito por causa dos olhos pequenos?
Um potencial aliado se perdeu ali mesmo.
— Todo mundo pro seu canto! Nunca viram adulto batendo em criança? — Su Mo lançou um olhar e os fortões voltaram rapidinho para seus exercícios.
— Su, é melhor nos soltar. Vou avisando, minha irmã...
— Sua irmã mandou eu bater em você à vontade!
— O quê? Ela disse isso mesmo? Não pode ser! Ela sempre dizia que se orgulhava de ter um irmão como eu!
— Quando foi isso?
— Acho que faz uns sete, oito anos... foi na quarta série, acho — Fu Jiafeng tentou lembrar, mas não conseguiu.
— Aposto que sua irmã se arrependeu amargamente dessa frase. E vocês, não são irmãos de juramento? Por que bateram tão forte? Olha só essas olheiras de panda, está até bonitinho!
— Também não sei, talvez tenham apanhado na rua e vieram descontar em mim. Mas somos irmãos, então aceito levar a culpa. Irmão é pra essas coisas!
— Fu, para de fingir. Você escreveu aquela carta prometendo não andar mais conosco, postou no fórum da escola e nos fez virar motivo de piada. Até a professora respondeu, elogiando seu arrependimento!
— Foi o Su Mo que me obrigou a escrever, eu só fiquei com pena...
— Chega, calem a boca! — Su Mo finalmente entendeu a história. Naquela vez, Fu Jiafeng tinha intimidado o monitor do laboratório e, flagrado por Su Mo, acabou apanhando e sendo forçado a escrever a tal carta, que Su Mo postou anonimamente no fórum da escola. Os irmãos de juramento se sentiram traídos e agora tinham aproveitado a chance para cobrar.
— Isso é problema entre irmãos...
— Fiquem deitados! Quem falar, apanha. Quando eu estiver falando, ninguém interrompe. Caprichem na postura! Ei, você aí, por que está empinando tanto o bumbum?
— Su!
Tapas e mais tapas. Dor de cabeça. Todos sentiram dor de cabeça.
— Droga!
Mais tapas.
— Eu...
— Fu, cala a boca! Quer nos matar? Esse senhor está falando, não ouviu? — um dos jovens, quase chorando, conteve o mais inconsequente.
— Irmão, você entende das coisas! — Su Mo elogiou.
— Senhor, prazer, meu nome é... — o jovem, emocionado, tentou se apresentar.
Tapas novamente.
— Eu deixei você falar?
Por fim, o silêncio reinou. Os cinco deitados no chão, como pequenos codornas peludas.
— Quando vocês chegaram, eu estava batendo em Fu Jiafeng. Perguntaram se eu permitia? Como ousam se meter, hein? Por que não respondem?
— Senhor, você não deixa a gente falar!
— Ah, é mesmo... Então vou continuar. A partir de hoje, Fu Jiafeng não é mais irmão de vocês. De agora em diante, amizade cortada...
— Su, não tente nos separar!
Tapas.
— Não dizem que são todos por um? Se um dia eu matar Fu Jiafeng de tanto bater, tenho que procurar vocês também e acabar com todos, é isso?
Enquanto falava, Su Mo deu um chute no saco de pancadas, que voou alto.
Fora Fu Jiafeng, os outros quatro jovens ficaram apavorados, agarrados à cabeça, tremendo de medo.
— Senhor, nunca mais vamos procurar Fu Jiafeng. Se a gente cruzar com ele, muda de calçada. Se descumprirmos, pode nos furar, acabar com tudo!
Que absurdo! Mas ao menos estavam intimidados. Su Mo ergueu o queixo:
— Podem ir. Vão esperar eu convidar vocês para jantar?
— Vamos, vamos, estamos indo!
— Irmão, terceiro, quarto, quinto... — Fu Jiafeng, arrasado, viu seus quatro irmãos de juramento fugirem sem olhar para trás.
— Você é mesmo tonto. Eles bateram em você para valer, olha só como já está inchado. Eu já bati em você tantas vezes e nunca ficou assim. Esses adolescentes problemáticos merecem apanhar mesmo!