Capítulo 38 – Não se pode recusar nenhum pedido do marido
Quando Qin Shu abriu os olhos, percebeu que estava dentro de um quarto, cuja mobília era extremamente simples. Ela estava sentada na cama, sobre uma esteira de palha e um lençol. Na cabeceira, havia um símbolo de duplo felicidade colado, e na parede oposta, um espelho que também ostentava o mesmo símbolo.
A porta estava fechada, não havia banheiro no cômodo, e no teto pendia uma lâmpada antiga, com teias de aranha no madeiramento. Qin Shu crescera com a avó no interior, mas nunca vira uma casa tão precária quanto aquela. Na verdade, as condições lembravam mais as décadas de sessenta ou setenta do século passado, ou talvez até piores.
Quando Qin Shu se preparava para levantar e procurar algum tipo de regra, a porta foi subitamente golpeada.
Tum, tum, tum, tum. Quatro batidas seguidas.
Qin Shu olhou para o relógio infantil que trazia consigo: era meia-noite em ponto.
Três batidas indicam gente, mas quatro seguidas significam que não se deve abrir. O que estivesse do lado de fora certamente não era coisa boa.
Ela ignorou os chamados e começou a vasculhar o quarto. Por fim, encontrou um conjunto de regras debaixo do travesseiro.
Regras da Aldeia da Felicidade
Regra 1: Como nova esposa da Aldeia da Felicidade, você deve acordar todos os dias às seis horas para preparar as refeições para a família.
Regra 2: O marido e a sogra gostam muito de você; jamais permitem que saia para trabalhar. Nunca desobedeça esse desejo ou saia escondida.
Regra 3: Não há crianças na casa. Se ouvir choro ou avistar alguma, não se assuste, é ilusão. Feche os olhos, conte até dez e só então os reabra.
Regra 4: Se ouvir batidas durante a noite, não dê atenção. Os membros da família nunca batem à porta.
Regra 5: Depois da meia-noite, jamais saia do quarto, mesmo que esteja desesperada para ir ao banheiro.
Regra 6: Não há animais de estimação na casa. Se avistar algum, mantenha distância.
Regra 7: Como esposa, cumpra todos os deveres conjugais, não podendo recusar nenhum pedido do marido, inclusive os sexuais.
Regra 8: Após o anoitecer, nunca saia de casa.
Regra 9: A casa recebe visitas frequentes. Como membro da família, deve atender a todos os desejos dos convidados.
Regra 10: Todos os dias, às nove da manhã, a sogra e o marido saem e deixam o almoço pronto; só voltam às cinco da tarde.
Regra 11: Em nenhum momento pode olhar-se no espelho por mais de um minuto.
Regra 12: A sogra a estima muito, seu marido a ama profundamente. Você também ama seu marido, respeita a sogra e todos os habitantes da Aldeia da Felicidade. Portanto, mantenha sempre um sorriso diante deles.
Regra 13: Se, durante a noite, ouvir alguém chamar por você, jamais abra os olhos ou responda.
Treze regras em meia folha de papel; a outra metade estava desaparecida. Era apenas a primeira parte — a continuação deveria estar escondida em outro lugar.
Qin Shu vasculhou o quarto novamente, mas nada mais encontrou.
Nesse momento, as batidas à porta tornaram-se mais urgentes, quase arrombando a entrada, fazendo cair poeira do batente. Percebendo que Qin Shu não abriria, o visitante insistiu um pouco mais antes de desistir.
O silêncio voltou a reinar no quarto.
Enquanto tentava assimilar o conteúdo das regras, ouviu passos do lado de fora. Qin Shu rapidamente tirou os sapatos, deitou-se e fechou os olhos.
Logo, a porta rangeu ao ser aberta e depois fechada. Os passos se aproximaram da cama, que afundou ao lado dela. Qin Shu, de costas para a porta, foi abraçada por um corpo gelado.
— Esposa...
O homem a chamou suavemente.
Qin Shu permaneceu de olhos cerrados, sem responder. O homem insistiu, chamando-a várias vezes.
— Esposa? Esposa?
Diante do silêncio, ele, insatisfeito, pousou a mão fria em sua cintura, acariciando-a.
Qin Shu franziu o cenho; mesmo através das roupas, sentia o frio cortante daquele toque. Sabia que precisava agir, caso contrário algo terrível aconteceria a seguir.
Regra 7: Como esposa, cumpra todos os deveres conjugais, não podendo recusar nenhum pedido do marido, inclusive os sexuais.
Ela jamais aceitaria deitar-se com uma entidade dessas. Em duas vidas, continuava virgem; entregar-se a um ser sobrenatural seria pior que a morte.
No centro de monitoramento, Yan Lao, Li Xuantian e os agentes do Departamento de Casos Sobrenaturais observavam apreensivos.
— Yan Lao — alguém chamou.
— Silêncio, não fale — ordenou Yan Lao, concentrado na tela, mas não resistiu e perguntou: — Se fosse com você, como resolveria essa situação?
A pergunta era dirigida a Li Xuantian.
Li Xuantian analisava as regras que copiara, pensativo.
— A Aldeia da Felicidade é um cenário de dificuldade cinco estrelas, mais difícil que os anteriores dela.
— Fale de forma clara — Yan Lao lançou-lhe um olhar severo.
Li Xuantian sorriu constrangido.
— É complicado dizer. Embora saibamos que o talento de Qin Shu é nível SSS, ninguém conhece exatamente a natureza desse talento.
Yan Lao, impaciente, lançou-lhe outro olhar cortante.