Quarenta e dois, Necropsia
Delegacia de Galinha do Poente, durante o dia.
— E então, alguma novidade? — Quando Lei Yan entrou na sala do legista, Teresa vestia seu uniforme branco, olhando com emoção e acariciando os instrumentos, aqueles recipientes de vidro e ferramentas de aço que Lei Yan nem sabia nomear. Ao virar-se para Lei Yan, Teresa tinha lágrimas nos olhos, o que o deixou surpreso. Apresurado, perguntou:
— O que foi? Por que está chorando? Algum zumbi te assustou?
— Não é isso — respondeu Teresa, balançando levemente a cabeça e limpando as lágrimas com as costas da mão. Sorrindo, disse a Lei Yan: — Jamais imaginei que ainda teria a chance de trabalhar como legista, de usar esse uniforme, de entrar numa sala dessas, de manusear esses instrumentos. Nunca pensei que poderia voltar a ser legista!
— Ah, é só isso... Não se emocione tanto — tranquilizou Lei Yan ao perceber que as lágrimas eram de emoção. — Você é tão profissional que, se não for legista, o destino não permite, não é mesmo? — Ele ia abraçá-la, mas o incômodo Jim apareceu repentinamente pela porta e Lei Yan desistiu do gesto.
— Demoraram tanto! Se querem fazer “aquilo”, não podem escolher outro horário? Justo quando estamos esperando lá fora? — O “Espírito Travesso” entrou já despejando sua reclamação, claramente impaciente de tanto esperar. Ao ver Lei Yan recolhendo as mãos, pareceu compreender e, com um sorriso malicioso, brincou: — Se realmente estavam fazendo “aquilo”, foi bem rápido, hein? Já acabou? — Apontou para Lei Yan, rindo alto. — Você é rápido demais!
— Pare com isso — fingiu Lei Yan estar bravo. — Age como se soubesse de tudo, mas tem quantos anos mesmo?
— Já tenho idade, sim. Você mesmo disse: na Antiga China, com quatorze anos já se casava. Eu tenho quinze, sou praticamente veterano. Já vi muito filme bom, não tem nada que eu não entenda, só falta a prática.
— Tá bom, não vou discutir — Lei Yan virou-se para a legista, franzindo a testa: — E então, já fez as autópsias? Descobriu alguma coisa?
— Descobri sim. Vamos ao necrotério, é mais fácil explicar lá — respondeu Teresa, apontando para fora.
— Ah, ver cadáver de novo? — “Espírito Travesso” fez uma careta, levantando as mãos. — Não quero ver, podem ir. Ainda nem digeri direito as delícias que comi no Reino de Qin, não quero vomitar tudo.
Teresa conduziu Lei Yan e os demais para fora da sala. O “Espírito Travesso” foi embora, então Teresa levou Lei Yan, “Esqueleto” e os outros que aguardavam à porta até o necrotério.
O ambiente era frio e lúgubre. Sobre a mesa, um corpo coberto por um lençol branco. O clima fez todos se arrepiarem.
— O gerador está funcionando bem, o refrigeramento está ótimo — explicou Teresa, descobrindo o corpo. — As demais autópsias já foram feitas. Vamos analisar este caso, pois os corpos têm características semelhantes. Se necessário, analisamos os outros.
— Um só basta — disse “Esqueleto”, olhando desconfortável para o cadáver feminino. Arrependeu-se de não ter ido embora com o “Espírito Travesso”, mas agora, por orgulho, aguentava o incômodo.
— Sobre esse ferimento, nem preciso comentar — Teresa indicou a têmpora com o bisturi, onde havia uma marca de faca, causada pelo “Espírito Travesso” antes. Lei Yan assentiu. Teresa então apontou para o corpo e para a marca roxa no pescoço:
— O restante do corpo foi examinado, sem outros ferimentos fatais. Nenhuma toxina no estômago. O ferimento mortal está no pescoço: ela foi estrangulada até a morte, provavelmente com corda ou fio de telefone.
— Encontrou alguma pista debaixo das unhas? — perguntou Lei Yan, observando a mão da vítima. — Algum resíduo?
— Não, está bem limpa — disse Teresa, levantando a mão da falecida.
— Por que nas fotos as vítimas estão sempre de olhos abertos? — perguntou Hale. — Será algum tipo de “morte inquieta”?
— Claro que não — explicou Teresa, apontando o bisturi para a região dos olhos. — Durante todo o ataque, a vítima permaneceu de olhos abertos, por intenção do assassino. Encontrei resíduos de substância adesiva nas pálpebras — Teresa indicou os olhos da vítima para Lei Yan. — Isso mostra que o criminoso colou as pálpebras com fita, forçando a vítima a testemunhar todo o ataque, sem poder evitar.
— Isso é o que chamam de agressor compulsivo — lembrou Lei Yan dos livros de psicologia criminal que havia lido recentemente. — Obrigar a vítima a assistir ao ataque satisfaz profundamente o desvio do criminoso. É para recuperar... — esforçou-se para lembrar — o controle. Sim, controle.
— Li alguns livros de psicologia criminal também — “Esqueleto” assentiu, completando: — Esse tipo de criminoso geralmente tem uma mãe tirânica. Ele cresce sob domínio materno, desenvolvendo desejos de vingança e violência contra mulheres.
— Boa análise, estamos em alto nível — sorriu Lei Yan, apontando para “Esqueleto”. — Temos agora dois geradores potentes. Será que conseguimos carregar bem nosso precioso artefato, aquele misterioso baú? Talvez precisemos dele mais tarde.
— Eu também pensei nisso — respondeu “Esqueleto”, torcendo os lábios — mas não dá. Se dividirmos a energia, faltará para cá e para lá, causando quedas de luz e prejudicando toda a investigação. Ficaríamos parecendo amadores.
— Amadores? Ora, sou investigador de verdade, isso jamais! — Lei Yan rejeitou de imediato. — Nada de dividir energia, não precisamos disso agora. Com nosso próprio esforço, vamos resolver o caso. Não podemos dar motivo para o povo do Reino de Qin rir de nós.
— Exato, é nosso primeiro caso — o Chefe, agora entusiasmado com a perícia, apoiou Lei Yan. — Temos que fazer bonito, mostrar excelência!
— O observador deve vir fazer perguntas. Teresa, você já sabe o que dizer — lembrou Hale, satisfeito com o trabalho em equipe e desejando bons resultados.
— Nem precisava dizer — respondeu Teresa, girando o bisturi sobre o cadáver. — Nossa perícia é exemplar. Quando explicar ao observador, ele ficará impressionado, vai elogiar para o rei, que certamente ficará satisfeito.
— E os familiares da vítima precisam ficar satisfeitos também — acrescentou Lei Yan, erguendo o dedo para Teresa. — Sua Majestade já me alertou: são pessoas influentes. Isso pode impactar nossos futuros casos, então pense nisso.
— Entendido. Farei três reverências ao corpo antes de explicar, e colocarei emoção no relato — Teresa sorriu, inclinando-se levemente para a morta, em tom de brincadeira. — Transformo o processo de autópsia num ato de carinho, cada corte feito com empatia, mãos cheias de compaixão.
— Hahaha, também não precisa exagerar — Lei Yan gargalhou. — Basta não ser muito fria. E o observador talvez nem venha.
— Tem que vir! — Teresa respondeu no sotaque do nordeste, que aprendera com Lei Yan, sorrindo de olhos semicerrados. — Aqui já terminei. Qual o próximo passo?
— Vamos para a reunião improvisada analisar o caso — disse Lei Yan, consultando o relógio e olhando para Teresa. — O observador quer participar. Avisem a todos: não comentem sobre as nove pessoas presentes na cena. Quando ele sair, fazemos uma segunda reunião a portas fechadas e aí discutimos isso.
Todos assentiram. Teresa cobriu o corpo e saiu do necrotério junto aos demais…