Capítulo 2, Direitos Autorais

Renascendo na Grande Era de 1993 Bambu-doce de março 3091 palavras 2026-01-30 12:25:39

Foi a segunda vez neste mês que recebeu uma ordem de pagamento de direitos autorais. Após algumas palavras cordiais, Zhang Xuan a pegou com tranquilidade, sem demonstrar grande emoção.

Porém, a voz alta do carteiro atraiu de volta Ruan Xiuqin, que estava fora fervendo água.

— Xiaolin, mais uma vez te incomodando — disse ela, já familiarizada com o carteiro que entregava correspondências à família há alguns anos. Encheu uma caneca de esmalte limpa com água fervente e, apressada, pegou um pote de compota de laranja do criado-mudo e o ofereceu ao homem.

Ruan Xiuqin conhecia bem o carteiro, e ele, por sua vez, sabia das dificuldades da família Zhang. Não aceitou a compota, apenas segurou a água, soprou sobre ela e, ansioso, tomou um gole antes de parabenizá-los:

— O Zhang Xuan de vocês é mesmo um jovem promissor. Só nesses últimos seis meses já é a quarta vez que trago ordem de pagamento para ele. Com certeza vai se tornar um grande escritor.

Ruan Xiuqin pegou silenciosamente a ordem de pagamento das mãos do filho, examinou-a e guardou-a com destreza no bolso do casaco. Sorrindo, respondeu ao carteiro Lin:

— Que suas palavras se tornem verdade. Se um dia ele realmente alcançar sucesso, será graças à sua bênção.

Enquanto falava, insistiu em entregar a compota de laranja ao carteiro mais uma vez.

— Não precisa, lá em casa já tenho — recusou-se ele, gesticulando com as mãos.

— Ter lá em casa é uma coisa, mas agora, nesse frio todo, saindo pra trabalhar na rua não é fácil. Leve para matar a sede — disse ela, colocando a compota diretamente na bolsa de entregas do carteiro, enquanto baixava a voz pedindo sigilo em relação ao filho.

— Pode ficar tranquila, já entendi, não conto pra ninguém — garantiu o carteiro Lin, desta vez aceitando a compota, batendo no peito em sinal de compromisso.

O carteiro se despediu.

Ruan Xiuqin o acompanhou até a porta, fechou-a e, então, tirou do bolso as duas ordens de pagamento, examinando-as repetidas vezes. Embora não dissesse nada, um sorriso largo já tomava conta de seu rosto abatido, a satisfação transbordando em sua expressão.

Zhang Xuan, de olhos baixos, assistia a tudo em silêncio.

Em uma vida passada, graças a muito esforço, ele havia entrado numa boa universidade. Ao preencher o formulário do vestibular, perguntou à mãe:

— Que curso devo escolher?

Ruan Xiuqin, após refletir seriamente, disse:

— Somos de família pobre, não pense demais. Escolha algo que te leve a ser funcionário público, professor ou médico. Só depois de duas ou três gerações acumulando, conseguiremos sair da pobreza e entrar para a classe média.

Mais tarde, conforme o desejo da mãe, Zhang Xuan tornou-se professor numa faculdade de segunda linha.

Depois, gostava de passear tranquilamente pelo campus, ler, praticar artes marciais e conversar com amigos. Embora fosse um pouco nerd, sabia se comunicar bem.

Mas, diante da mãe, Zhang Xuan nunca soube como expressar afeto. Muitas vezes, ao voltar para casa, pensava em conversar a sós com ela, oferecer água para lavar os pés, massagear suas costas, caminhar juntos ou até mesmo abraçá-la, dizendo: “Mãe, você sofreu muito nesta vida” ou “Mãe, eu te amo”. Contudo, sempre engolia as palavras antes de dizê-las — amor guardado no peito, difícil de ser expresso.

Ao retomar os pensamentos, Zhang Xuan olhou para a mãe ainda sorrindo sozinha e começou a abrir o pacote postal, de onde tirou uma edição da revista “Confidente” e uma folha de papel de carta.

Na época, a revista “Confidente” era extremamente popular graças ao alto pagamento por textos. Zhang Xuan já havia enviado três artigos, tornando-se conhecido pela equipe editorial.

Folheou rapidamente a revista, cujos conteúdos eram sempre reciclados e pouco interessantes, e a largou de lado. Em seguida, abriu a carta.

No início, o editor repetia os elogios de sempre, admirando o estilo maduro de Zhang Xuan, a riqueza de conteúdo, a clareza estrutural e a análise perspicaz dos sentimentos urbanos — tudo muito envolvente.

Após ler rapidamente o início, foi a última parte que lhe chamou atenção.

O quê? O editor estava lhe convidando para escrever como colaborador fixo? Queriam que ele fosse um dos autores regulares da coluna?

Um texto de cinco mil palavras por edição, podendo ser ensaio, conto de sentimentos ou crônicas urbanas.

Leu novamente para ter certeza. Era mesmo um convite!

Embora ainda fosse um teste, sentiu-se subitamente iluminado.

Como um “veterano reencarnado”, ele já tinha visto de tudo das relações amorosas. Os jovens costumam dizer: “Para sobreviver, é preciso ter um pouco de esperteza”.

Observando a ascensão e queda da revista “Confidente”, Zhang Xuan já havia entendido perfeitamente o motivo de sua existência.

A revista possuía um grande público leitor. Devido ao contexto cultural da época, especialmente entre os mais velhos, predominava uma repressão emocional. Esse público tinha um traço marcante: o gosto por bisbilhotar a vida íntima alheia, especialmente os escândalos, por mais vulgares e hipócritas que fossem.

Gostavam de sentar-se confortavelmente, chá na mão, aplaudindo as histórias de traições.

Mas o que seriam essas histórias de traições?

Zhang Xuan já havia decifrado o perfil psicológico distorcido desse público. Bastava escrever artigos do tipo “os apaixonados têm sempre QI negativo, mesmo quando traídos elogiam a habilidade do outro”, para garantir boa recepção, vendas altas e, consequentemente, mais direitos autorais.

Naturalmente, Zhang Xuan nunca escrevia sobre pessoas comuns. Os dramas do povo trabalhador não despertavam o interesse desse público, pois não lhes davam a chance de sentir-se superiores na desgraça alheia.

Somente histórias de celebridades em ruína, empresários envolvidos em escândalos amorosos, enchiam salão e geravam debates acalorados.

Era esse o motivo de ser da “Confidente”. Desde que não ultrapassasse certos limites nem envolvesse figuras sensíveis, contanto que vendesse, quanto mais leitores seduzidos, maior a tiragem e o lucro para o autor. Por isso, a revista investia pesado nesses artigos.

O convite na carta oferecia cento e cinquenta por mil palavras.

Esse valor era alto comparado a outros jornais e revistas, mas para um periódico do porte de “Confidente”, era apenas razoável.

Além disso, a revista era mensal. Um texto de cinco mil palavras por mês não rendia muito no final das contas.

Pensando em ganhar mais, Zhang Xuan suspirou. Viu que precisava mirar outros jornais.

Por exemplo, “Gazeta Urbana de Xiaoxiang”, “Gazeta Vespertina de Changsha”, “Manhã de Xiaoxiang”, “Boletim de Hoje”, “Guia de Mercado” e outros jornais urbanos. Embora pagassem apenas de vinte a cinquenta por artigo curto, compensava-se pela quantidade.

Se tivesse sorte, poderia ganhar algumas centenas por mês.

Vale lembrar que, na época, muitos salários ainda giravam entre cem e duzentos, sendo que, nas regiões costeiras, quatrocentos ou seiscentos já eram o auge.

Visto por esse ângulo, já era uma renda considerável, e Zhang Xuan deveria estar satisfeito.

Mas, ao olhar para o caos doméstico e lembrar das dívidas acumuladas de dezenas de milhares, sentia-se inquieto só de pensar.

Diz-se que quem é ousado colhe fartura.

Naquele tempo de grandes mudanças sociais, Zhang Xuan parecia sentir até o cheiro de dinheiro no ar. Queria largar os estudos e tentar a sorte em Shenzhen ou em Hainan.

Queria trabalhar duro, mudar a vida da família. Não aguentava mais viver de uma refeição incerta a outra, comendo batata-doce oito em cada dez refeições.

Nesses seis meses, sonhava até mesmo em ganhar dinheiro, chegando a anotar num caderninho todos os caminhos possíveis, lícitos ou não.

Naquela época, havia milhares de métodos honestos para ganhar a vida, que nem vale a pena mencionar. Mas, falando dos não tão honestos, Zhang Xuan achava que, com sua aparência agradável, não morreria de fome fora de casa...

Dizem que na juventude não se percebe o valor dos caminhos fáceis; só depois se entende que escolher mal é desperdiçar a juventude. Encontrar uma boa pessoa é formar família; encontrar um benfeitor é fazer carreira; encontrar uma mulher rica, é família e carreira de uma vez.

O desejo de ganhar dinheiro era tão urgente que estaria disposto a se jogar nu pelo mundo.

Mas, ao olhar para a mãe magra, de pele flácida, Zhang Xuan reprimiu o impulso.

Sabia que, se sugerisse largar o vestibular para trabalhar, Ruan Xiuqin mudaria de humor mais rápido que o tempo, pegaria a vassoura e, chorando, gritava “Eu não quero mais viver...”, perseguindo-o incansavelmente até os confins do mundo.

Pensando bem, viu que ainda não estava pronto para arriscar tudo, e voltou-se à ideia de ganhar dinheiro com direitos autorais.

Afinal, tendo sido professor universitário, lia muito e sabia se virar bem com textos.

Sentado à beira da cama de hospital, Zhang Xuan pegou papel e caneta, e logo começou a escrever. O tema da vez seria “Ar-condicionado assombrado à meia-noite: era gente fingindo ser fantasma”.

Queria inovar, abordando a vida privada e luxuosa, acrescentando toques sobrenaturais, suspense e emoção.

Esperava, assim, conquistar mais leitores, chamar a atenção dos editores e, quem sabe, negociar um valor maior pelos seus textos.

Escreveu cinco mil palavras à mão, da hora do almoço até a tarde, até sentir o pulso dolorido.

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