Capítulo 8: Uma Quantia Considerável de Dinheiro
Depois de correr por cerca de um quilômetro, encontrou um lugar tranquilo e protegido do vento. Percebendo que ninguém o seguia, Zhang Xuan voltou a folhear o dicionário.
Dessa vez, virou página por página, com extremo cuidado. E não se decepcionou: dentro do dicionário havia dinheiro, uma nota, duas, três... nove ao todo. E logo atrás, mais nove, todas novinhas, de cem. Somando àquela que encontrara antes, eram dez notas de cem.
Mil reais inteiros!
Nessa época, era uma soma considerável! Muitas famílias da vila não tinham esse valor guardado nem ao fim de um ano.
Com mil reais apertados na mão, Zhang Xuan ficou silencioso, já sem o ar irreverente de antes. Olhou para o dicionário, guardou bem o dinheiro junto ao corpo e voltou a folhear, desta vez ainda mais devagar, começando desde a folha de rosto.
Nada no início, nada no meio, atrás...
Espere!!!
Na parte final, em uma página em branco, parecia haver algo escrito? Letras azuladas de caneta?
Não era engano. Zhang Xuan voltou algumas páginas, diminuindo ainda mais o ritmo. E de fato, ali na página 480, encontrou palavras escritas com caneta azul.
Poucas frases, apenas algumas palavras simples: “Olá, Zhang Xuan, feliz ano novo antecipado! Ouvi dizer que você está doente, já está melhor? Esse ano está tão frio, cuide-se bem.”
Ao final, um grande círculo com um rosto sorridente.
Era tudo que havia escrito.
Diante daquela bela caligrafia, Zhang Xuan ficou confuso; não reconhecia aquele estilo, não parecia algo de alguém próximo.
Além disso, seus amigos mais próximos eram em geral pouco abastados, incapazes de doar tal quantia e ainda por cima sem deixar nome.
Claro, havia uma exceção: Du Shuangling.
Com a condição da família de Du Shuangling, sendo seu pai o primeiro da cidade a ter carro particular, ela podia muito bem juntar esse dinheiro.
Mas aquela letra definitivamente não era dela, nem de suas melhores amigas, Yang Yongjian e Mi Jian.
Depois de tantos anos convivendo com as três, especialmente com Du Shuangling e Yang Yongjian, com mais de sete anos de amizade, Zhang Xuan sabia bem o temperamento e os detalhes de cada uma.
E Yang Yongjian era miserável! Vivendo entre as montanhas, mais pobre que ele, conseguir mil reais seria um milagre.
O caso de Mi Jian era mais incerto: gente da cidade, pai artista de esculturas, mãe professora universitária. Mil reais era bastante, mas não tanto para ela. Porém, sua amizade com Zhang Xuan era a mais recente, apenas três anos, com poucas conversas particulares; não era tão íntima.
Pensou em outros nomes, mas nenhum se encaixava. Por fim, Zhang Xuan desistiu de especular, memorizou o endereço de remetente da capital e deixou pra lá.
Com duas vidas, ele via as coisas de forma prática: se alguém lhe dá dinheiro de forma direta, ele usa; se um dia descobrir quem foi, retribui. Se nunca souber, e a pessoa não aparecer exigindo nada, tudo bem. Afinal, seu coração era bom, guardaria aquela pessoa como “LF”, admirando-a em silêncio.
Depois de reforçar seu espírito desavergonhado, Zhang Xuan guardou o dicionário no pacote postal e saiu para passear pela rua.
Dizer que passeava era exagero; na verdade, tinha objetivos bem claros.
Primeiro, comprou para a mãe e a irmã mais velha um par de luvas longas impermeáveis, apesar do preço alto de dois reais cada, mas com forro de algodão, valiam o investimento. No inverno, com as mãos nuas colhendo e lavando erva para os porcos, o frio era cruel, e ele não suportava ver isso, ficava com o coração apertado.
Depois, pensou em si mesmo: comprou carvão.
A família era pobre, não tinha carvão. Normalmente, reuniam as cinzas da madeira queimadas para aquecer, mas isso não era suficiente, aquecia pouco e o calor não durava, apagando-se em menos de meia hora, só servia pra frustrar.
No rigor do inverno, era fácil encontrar carvão à venda nas ruas.
Zhang Xuan visitou vários vendedores, mas nenhum agradou: ou o carvão estava molhado, ou não queimava bem, ou era pequeno demais para seu gosto.
Depois de horas andando, finalmente achou o que procurava numa bifurcação, o vendedor tinha sotaque da vizinha Huai.
Zhang Xuan perguntou: “O senhor é de onde?”
O velho, fumando, respondeu: “Sou de Xupu.”
Zhang Xuan perguntou: “Por quanto vende o carvão?”
O velho respondeu: “Quinze reais por cem quilos.”
O preço era salgado, mas esperado; com neve, não podia ser barato, afinal, todos precisam sustentar a família.
Zhang Xuan examinou o carvão e gostou muito, queria comprar cem quilos, mas com neve e sem transporte, seria impossível carregar tudo. Então perguntou: “Pode vender menos?”
O velho perguntou: “Quanto você quer?”
Zhang Xuan pensou e disse: “Quarenta quilos.”
Mas logo reconsiderou: “Vai ser pesado, o caminho é longo, não consigo levar, melhor trinta quilos.”
O velho, acostumado com essas situações, sorriu e concordou, começando a preparar a compra.
Depois de comprar o carvão, Zhang Xuan foi à loja de roupas e comprou para a mãe e a irmã um casaco de algodão; depois foi à loja de tecidos, comprou alguns metros, e em seguida comprou dois pares de sapatos de borracha com sola grossa.
Por último, foi à banca de carnes e comprou dois quilos de carne bovina de primeira, dois de carne de cordeiro, para a ceia de Ano Novo.
Ele já entendia: se não comprasse, a camarada Ruan Xiuqin jamais seria tão generosa, e no fim quem sofreria seria seu estômago. Não podia permitir, era preciso comprar.
Na hora de comprar tudo era animado, mas ao terminar, ficou aborrecido: parecia muita coisa, e começou a duvidar de si, será que conseguiria carregar até em casa?
Pensou em devolver algo, mas logo desistiu, não queria passar vergonha.
Pegou um grande saco de ureia na loja ao lado da estação Shimen, colocou tudo dentro e, olhando para o caminho, vacilou, mas sem alternativa, respirou fundo, agachou-se e pôs-se a caminhar com a carga.
Nos primeiros dois ou três quilômetros, Zhang Xuan caminhou com facilidade, achando que tinha se assustado à toa. Menos de cinquenta quilos, não era nada demais!
Ao subir uma ladeira longa, parou uma vez para descansar, sentindo que ainda dava para aguentar.
Mas na estrada ao lado da montanha, íngreme e longa, só passou chorando e reclamando por dentro. Que falta de visão, que falta de autoconhecimento, criticava-se amargamente, com os pés pesados como chumbo avançando na neve.
Felizmente, o destino não abandona ninguém. Quando já estava exausto, pronto para se sentar e desistir, encontrou um vizinho: um garoto gordo de treze anos brincando com bombinhas à beira do rio.
Esse garoto, de notas ruins na escola, por mais que se esforçasse, nunca conseguia melhorar, admirava profundamente os alunos bons. Ao ver Zhang Xuan, a empolgação dele subiu às alturas.
Zhang Xuan, fingindo humildade, disse: “Isso está pesado, talvez você não consiga carregar, não se arrisque.”
O garoto gordo ergueu o saco, arqueou as sobrancelhas e lançou um olhar de desprezo, segurando o saco com uma só mão, jogando-o nas costas e caminhando velozmente pela neve.
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