Capítulo 60: Mãe, não vamos mais comer arroz de batata-doce
A ganância humana não conhece limites, como a cobra que quer engolir um elefante; duzentos ainda era pouco, e na hora de partir, o rapaz ainda quis furtar a bolsa de lona que Zhang Xuan carregava no colo. Mal tocou na alça da bolsa, o jovem sentiu um tapinha no ombro e, ao se virar instintivamente, um punho enorme desabou sobre seu rosto.
“Ai!”
Pegando-o totalmente desprevenido, o soco o derrubou no chão, fazendo sua cabeça bater com força na estrutura de ferro da cama. O impacto foi tão doloroso que ele arreganhou os dentes e as lágrimas escorreram.
Assim que ouviu o grito, Zhang Xuan abriu os olhos imediatamente. Bastou um olhar para entender o que estava acontecendo. Sem dizer palavra, mirou no rapaz ao lado da cama e deu-lhe um pontapé com toda a força.
Depois de derrubar o sujeito, Zhang Xuan, ainda irritado, foi atrás e desferiu mais alguns chutes, já pensando em chamar o policial ferroviário.
“Não precisa chamar a polícia, resolvo isso com ele aqui mesmo.” Nesse momento, Sun Fucheng, vendo que todos ainda dormiam, rapidamente impediu Zhang Xuan e começou a revistar o rapaz, dando atenção especial à grande pochete.
A revista revelou mais de cinco mil e cem yuan em dinheiro, além de alguns anéis de ouro e uma pulseira de jade.
Com o dinheiro nas mãos, Sun Fucheng virou-se para o rapaz caído e disse: “Você escolhe: resolvemos por aqui ou eu te levo à delegacia?”
O jovem, percebendo que estava sendo vítima dos próprios truques, rangeu os dentes de raiva, mas, por fim, abaixou a cabeça e saiu sem dizer uma palavra, sem coragem de criar confusão.
Aquele espetáculo deixou Zhang Xuan boquiaberto, sentado, sem saber o que dizer.
Vendo isso, Sun Fucheng colocou dois mil yuan nas mãos de Zhang Xuan e explicou: “Você sabe, meu filho precisa urgentemente de uma cirurgia no Hospital Xiangya, então vou ficar com a maior parte, sem vergonha nenhuma.”
Zhang Xuan recusou apressado, agitando as mãos, e ainda perguntou, preocupado: “Tio, não tem medo de ele chamar a polícia e dar tudo errado?”
Sun Fucheng, porém, respondeu com desdém: “Esse é um velho conhecido da polícia, não se atreve. Gente assim tem pavor de lidar com as autoridades, prefere perder do que chamar a polícia.”
Zhang Xuan ficou sem palavras.
Mais uma vez, sua visão sobre Sun Fucheng foi redefinida. Desde a história da faca de três lâminas até essa cena, estava claro: aquele velho não era flor que se cheire, duro e impiedoso.
O tempo passou, as estrelas recuaram no céu, a lua se escondeu e, quando os raios dourados invadiram o vagão, Zhang Xuan soltou um suspiro.
Ainda só haviam chegado à cidade de Heng. O trem ainda passaria por Zhu, Lou, e só então chegaria a Shao. Com aquele ritmo lento, só chegaria à tarde.
Já estava claro que não conseguiria chegar ao aniversário de dezoito anos da camarada Du Shuangling.
A bexiga apertava, então levantou-se para ir ao banheiro, mas mal deu alguns passos, Sun Fucheng o segurou discretamente pela camisa.
Zhang Xuan, sem entender, perguntou: “Tio, o que foi?”
Sun Fucheng não respondeu, apenas gesticulou com o queixo na direção do banheiro, indicando que ele mesmo deveria ver.
Zhang Xuan achou estranho, mas sentou-se no corredor do vagão, aproveitando para preparar um miojo.
Cinco minutos depois, a porta do banheiro se abriu; um homem de meia-idade espiou, viu Zhang Xuan observando-o fixamente e, um tanto desconcertado, saiu de cabeça baixa.
Um minuto depois, saiu uma mulher jovem, que Zhang Xuan lembrava de ter visto embarcar segurando um bebê, que chorava há mais de meia hora.
A mulher espiou também e, ao cruzar o olhar direto e sem pudor de Zhang Xuan, assustou-se e rapidamente recuou.
Dois minutos depois, talvez decidida, saiu do banheiro.
Ao passar por Zhang Xuan, ele sentiu um cheiro forte, quase sufocante, que quase o fez desmaiar.
Droga! Nem o aroma do miojo conseguiu disfarçar o cheiro da paixão.
Maldita seja, as pessoas já não têm vergonha!
Um brutamontes ao lado também pareceu perceber o segredo e, quando a mulher passou, sorriu de maneira obscena: “Quanto é? Ainda dá pra comprar bilhete extra?”
O comentário ácido fez Zhang Xuan perder todo o apetite pelo miojo.
Quando a mulher entrou no compartimento ao lado, Sun Fucheng levantou três dedos e comentou: “Essa aí já atendeu três só essa noite.”
Vendo a felicidade mal contida de Sun Fucheng, Zhang Xuan quase perguntou: “Tio, por que você não entrou também?”
Depois de comer, Zhang Xuan decidiu procurar outro banheiro. Ao voltar, sentou-se e ouviu as pessoas ao redor comentando sobre a mulher; homens e mulheres, todos com insinuações maldosas.
Ora veja! Todos perceberam, só fingiam dormir!
Tornando-se alvo de comentários, a mulher percebeu que não conseguiria mais ficar ali. No meio da viagem, mudou-se para outro vagão, levando o bebê para o setor de assentos duros.
Por volta das duas da tarde, o trem, atrasado, finalmente chegou à estação. O apito soou longo, o trem desacelerou e parou. Zhang Xuan, aliviado, desceu do vagão suando em bicas, já sem coragem de encontrar ninguém naquele estado.
Ao sair da estação, foi direto à casa de Yang Yun para tomar um banho antes de se preparar para ir à escola.
Ao ouvir barulho na porta, Yang Yun, que separava legumes na cozinha, apareceu: “Irmãozinho, já está tarde, fica para almoçar antes de ir.”
Comida grátis sempre é bem-vinda, mas ela ainda estava apenas preparando os legumes; Deus sabe quanto tempo demoraria!
Zhang Xuan acenou: “Deixa pra lá, quando essa comida ficar pronta, vou estar quase desmaiando de fome. Melhor ir logo, estou indo.”
Sem esperar resposta, abriu a porta e saiu correndo.
Para não viajar de estômago vazio, Zhang Xuan achou uma lanchonete próxima, pediu uma tigela de macarrão com carne e, para se dar um luxo, um ovo frito e uma colher de tofu seco.
Renascido, aquela foi a tigela mais cara e saborosa de sua vida, um momento digno de ser lembrado.
Daqui para frente, pensou, os dias de fome e de dificuldades estavam ficando para trás. Ao pensar nisso, quase chorou de emoção, com vontade de encontrar uma mulher para chorar em seu colo.
Quando chegou à escola, já eram três da tarde e o sol começava a se inclinar no céu.
Chen Risheng jogava basquete no pátio, suando com seus músculos à mostra.
Zhang Xuan se aproximou e perguntou: “Você foi ao almoço de aniversário da Du Shuangling?”
Chen Risheng jogou a bola para os outros e, enxugando o suor com o braço, comentou: “Fui, foi num hotel chique. Os pais dela a mimam demais, não economizam.”
Eles têm dinheiro e só duas filhas, é claro que gastam.
Zhang Xuan perguntou: “E elas, onde estão agora?”
Chen Risheng coçou a cabeça, confuso: “Devem estar na rua, não sei ao certo. Depois do almoço vim jogar basquete. Mas apareceu um garoto procurando o Yang Yongjian, e a Du Shuangling e a Mi Jian saíram para passear com eles.”
Zhang Xuan fez um gesto com a mão à altura da boca: “Esse garoto é mais ou menos dessa altura, magro?”
“Isso, esse baixinho só chega na altura da minha boca. Não entendo o que o Yang Yongjian vê nele.” Chen Risheng claramente não o tinha em boa conta, achando que era puro delírio.
Zhang Xuan sorriu e não prolongou o assunto: “Vai lá jogar, vou para o dormitório.”
Chen Risheng, curioso, o seguiu: “E aí, conseguiu ganhar dinheiro em Shen?”
Zhang Xuan lançou-lhe um olhar de soslaio: “Consegui.”
Chen Risheng, mais curioso ainda: “Quanto?”
Zhang Xuan respondeu: “Melhor não saber, vai te assustar.”
Chen Risheng não acreditou: “Ah, é? Então me assusta com dinheiro! Se não me assustar, você é meu neto.”
Zhang Xuan respirou fundo, segurou o impulso de brigar e foi direto ao dormitório, ignorando-o.
Depois de lavar o rosto e organizar suas coisas, pegou o cartão telefônico e saiu, decidido a ligar para Ruan Xiuqin.
Mais uma vez, foi até o cruzamento, e assim que a ligação atendeu, disse: “Mãe, fiquei rico!”
Sem entender nada, Ruan Xiuqin respondeu: “Você está brincando?”
“Não é brincadeira. Mãe, escuta bem: seu filho ficou rico!”
Antes que a mãe pudesse interromper, Zhang Xuan contou, de uma vez só, como havia ganhado dinheiro negociando mercadorias apreendidas.
Ruan Xiuqin ouviu tudo, mesmo sem acreditar, parecia estar ouvindo uma língua estranha: “É verdade isso?”
“Se não acredita, pergunte ao tio. Seu filho jamais te enganaria.” Zhang Xuan mencionou o tio para dar mais credibilidade.
Ao ouvir o nome de Ruan Dezhi, Ruan Xiuqin começou a acreditar. Após um silêncio, disse: “Vou confirmar depois. Quanto você ganhou?”
“Cento e cinquenta mil.” Zhang Xuan calculou esse valor pensando nas dívidas da família e no dinheiro necessário para construir a casa. Ainda sobrariam alguns milhares para despesas.
“Quanto?!” Ruan Xiuqin ficou atônita, elevando o tom de voz.
“Cento e cinquenta mil.” Zhang Xuan repetiu.
“Tem certeza?”
“Tenho, cento e cinquenta mil.”
Ruan Xiuqin silenciou, apertando os punhos em conflito interno. Depois de um tempo, olhou ao redor e, baixando a voz, perguntou:
“Então sua cunhada também deve ter ganhado muito, não?”
“As mercadorias dela ainda não foram vendidas, mas quando vender, com certeza vai ser um bom dinheiro. Não perguntei, nem devo perguntar, temos um acordo tácito.” Zhang Xuan meio que falou a verdade, pois ainda queria guardar os duzentos e cinquenta mil do caderninho como reserva pessoal.
“Assim está certo, tem que ser assim.” Ruan Xiuqin mostrou sabedoria e soube medir as relações.
Vendo a mãe tão sensata, Zhang Xuan aproveitou para pedir: “Mãe, o preço que paguei nas mercadorias é segredo. Se a cunhada perguntar, por favor, mantenha sigilo. E não fale com ela sobre negócios, não pega bem.”
“Não sou tola, não conto para ninguém, nem para sua tia ou sua irmã. Se perguntarem na vila, digo que você ganhou escrevendo artigos.”
Ruan Xiuqin parecia ter lido os pensamentos do filho e completou: “Também não vou perguntar nada à sua cunhada. Você já é adulto, mais capaz que sua mãe, confio em você. Só peço que, lá fora, pese bem antes de decidir.”
Naquele momento, ao saber que o filho havia ficado rico, Ruan Xiuqin, pressionada pela vida por décadas, de repente se sentiu iluminada: o filho era escritor, sabia ganhar dinheiro escrevendo; antes mesmo do vestibular, já encontrava maneiras de prosperar.
Ela sentiu-se orgulhosa: o filho era mais capaz, mais visionário. E decidiu, naquele instante, que não deveria mais interferir como antes.
“Mãe, obrigado por compreender.” Ao ouvir isso, Zhang Xuan sentiu um alívio profundo.
Em tom de proposta, continuou: “Quando minha cunhada vender as mercadorias, te entrego os cento e cinquenta mil. Quitamos as dívidas, construímos uma casa de tijolos vermelhos e melhoramos de vida. Você e minha irmã não vão mais comer só batata-doce.”
Ruan Xiuqin não respondeu, apenas sorriu, e as lágrimas encheram seus olhos.
O filho a amava, e nada era mais gratificante ou significativo.
“Mãe, ouviu? Nada de comer só batata-doce!”
“Ouvi, sim.”
“É sério, não pode mais!”
“Mãe promete.”
...
Mãe e filho falaram sobre dinheiro e muitos outros assuntos por uns quinze minutos. Se não fosse pela notícia de que o filho tinha realmente ficado rico, Ruan Xiuqin não teria deixado a ligação passar de três minutos.
A mãe era esperta e justa, o que fazia Zhang Xuan feliz.
Mas, passada a felicidade, veio a preocupação: por que dizer que ganhou dinheiro escrevendo?
Não estaria se empurrando, indiretamente, para o caminho de escritor?
Será que Ruan Xiuqin, como Ruan Dezhi, queria que ele herdasse o legado do avô?
Será que estava pensando demais?
De qualquer forma, só de pensar nisso, Zhang Xuan sentiu dor de cabeça.
ps: Durante o lançamento do novo livro, peço recomendações, votos mensais, recompensas e resenhas! Os dados são muito importantes. Apesar de só dois capítulos nestes dias, são quase seis mil palavras.