Capítulo 7, De Quem É a Pegadinha?
Ao encontrar carne de porco fresca, com dois pedaços de tofu ao lado, Zhang Xuan nem precisava adivinhar o motivo. Sem vontade de pensar muito, primeiro fritou o tofu até que ambos os lados ficassem dourados e reservou. Lavou a carne, picou-a e jogou direto na panela para refogar um pouco; depois acrescentou alho, pimenta e o tofu. Em pouco tempo, o aroma da carne tomou conta do ambiente.
Zhang Xuan não conseguiu esperar: pegou um pedaço e levou à boca. Delicioso, o sabor da carne era intenso. Pegou outro pedaço, igualmente saboroso, o gosto continuava forte... O café da manhã tinha carne, tofu, pimenta azeda e picante de cor vibrante, além de repolho refogado, tudo muito farto.
Quando Ruan Xiuqin voltou, olhou os pratos e depois levantou a tampa da panela de arroz. O branco do arroz a deixou paralisada por alguns segundos. No fim, não disse nada; pegou duas tigelas e serviu o arroz, uma para ela e outra para o filho, que lavava a panela no quintal sob a torneira.
Durante a refeição, Ruan Xiuqin perguntou:
— Sua irmã saiu com Ouyang Yong?
— Sim — respondeu Zhang Xuan.
Ele adorava a conserva de pimenta, especialmente essa azeda e picante; ao morder, o suco inundava suas papilas gustativas, era intenso, e só depois de comer várias falou:
— Mãe, percebeu que, quando a irmã mais velha sai com Yang Ende, os dois andam quilômetros sem trocar palavra; mas com Ouyang Yong, ela não para de sorrir?
Ruan Xiuqin entendeu o que ele queria dizer, hesitou e insistiu:
— Quando você sair para estudar, se eu não estiver mais aqui, ninguém poderá cuidar da sua irmã. Ouyang Yong não vai conseguir segurá-la.
Teimosa como sempre. O problema é que Yang Ende, do jeito que é, não garantiria felicidade à irmã mais velha; caso ela se casasse, viveria infeliz, chorando todos os dias. Melhor não casar. Mas Zhang Xuan sabia que não podia discutir de forma direta com a mãe, então falou de modo vago:
— Sabe, mãe, o mais triste neste mundo não é chegar ao fim do sonho e não ter caminho, mas sim, quando o caminho ainda não acabou e já não resta sonho algum. A irmã mais velha nem terminou o primário e não é muito esperta; se ficar com Yang Ende, que também não terminou, o máximo que poderá alcançar é isso. Se ela vai sorrir ou não, depende só de você.
Ao dizer isso, Zhang Xuan olhou de relance para a mãe, cujo rosto empalidecia, mas não parou:
— A sociedade mudou tanto nesses anos; quem sabe o que virá? Como dizia meu professor do ensino médio, a economia da China cresce rápido; logo, todos os camponeses sairão para ganhar dinheiro e as terras não valerão nada. E aí, Yang Ende, que você tanto valoriza por ser trabalhador, ainda terá serventia? Além disso, com a avareza da família de Yang Ende, mesmo depois de casar ele talvez não queira nos ajudar. Há muitos genros assim em nossa vila, que viram as costas depois do casamento, exemplos não faltam. Não finja não ver. E, mãe, a segunda irmã já foi embora; não force a mais velha a fugir também. Restamos só quatro em casa...
Pá! Ruan Xiuqin, irritada, largou os talheres com força na mesa. Tentou várias vezes repreender o filho, mas as palavras morriam na garganta.
No fim, preferiu se isolar para se acalmar, indo para seu quarto, fechando a porta e sentando-se à beira da cama, ruminando a raiva sozinha.
Vendo a mãe aborrecida, Zhang Xuan não tentou confortá-la ou segui-la. Conhecia bem a própria mãe: suas palavras sempre tiveram peso para ela; talvez não entendesse agora, talvez nem em alguns anos, mas, pelo bem da irmã, era preciso agir com rigor.
Depois do café, Zhang Xuan arrumou a cozinha, espiou a mãe pela fresta da porta, e, vendo que ela tricotava sentada na cama, saiu aliviado. Juntou-se ao grupo da vila, indo em direção ao mercado do vilarejo, formando uma longa fila rumo à cidade.
Apesar da neve, a estrada não estava ruim, só andavam mais devagar. Os dez quilômetros levaram mais de uma hora para Zhang Xuan. Temendo filas, foi primeiro ao hospital. O médico o examinou e disse:
— Sua doença não deve voltar, mas evite comer muito apimentado.
Zhang Xuan ficou sem graça, pois, ao ser questionado, dissera que tinha comido pimenta no café da manhã; agora vinha o sermão.
Perguntou:
— Preciso voltar amanhã ao hospital?
— Sim, o remédio que prescrevi termina hoje à noite. Venha amanhã, não é longe para quem é jovem como você.
— Certo.
Ao sair do hospital, foi direto para a agência dos correios. Para garantir segurança e rapidez, gastou um bom dinheiro e comprou três envelopes registrados. Para não se confundir, primeiro enviou o texto destinado à revista Confidente. Os outros dois foram para o Jornal Matinal de Xiaoxiang e para o Diário de Changsha.
Com tudo resolvido, Zhang Xuan bateu os pés, assoprando nos dedos congelados. O frio era tanto que só queria voltar para casa e dormir. Ao lado, uma mulher queria usar cola para selar o envelope e colar o selo, mas, vendo Zhang Xuan ocupando o local, ficou pulando de frio e acabou rindo, apontando para ele.
— Desculpe — Zhang Xuan, sempre educado, cedeu o lugar rapidamente e enfiou as mãos nas mangas, pronto para ir embora. Mas, após poucos passos, ouviu alguém chamar seu nome pelas costas.
— Zhang Xuan!
Virando-se, viu o carteiro Lin saindo por uma porta lateral, carregando uma bolsa. Sorrindo, disse:
— Que sorte te encontrar. Enquanto organizava as correspondências, achei um pacote para você.
— Um pacote para mim?
Zhang Xuan estranhou, pois não mandara nada ultimamente, mas, curioso, pegou o pacote. Aproveitou para perguntar:
— Com esse frio, ainda tem que sair para entregar cartas?
— Só até o reservatório, logo ali — respondeu o carteiro, apressado, antes de partir.
Ao abrir o pacote, Zhang Xuan encontrou um grosso dicionário Xinhua, e ficou sem palavras, pois jamais enviara nada para a editora do dicionário. Seria uma brincadeira ou havia algo mais?
Lembrando de séries de espionagem, onde dicionários são usados para esconder armas ou câmeras em miniatura, ele riu consigo. Será que alguém, sabendo de sua situação, teria colocado um tijolo de ouro ali para ajudá-lo? Difícil alguém ser tão ingênuo.
Cheio de dúvidas, começou a folhear as páginas com o dedo. Depois de umas cem páginas, uma folha azulada voou, levada pelo vento que entrava pela porta dos correios. Zhang Xuan acompanhou com os olhos e viu o papel azul dançar no ar até bater no vidro da divisória do saguão.
Ao cair, percebeu que o papel trazia quatro retratos de figuras importantes: era uma nota de cem! Não acreditou. Dinheiro de verdade dentro do dicionário?
Ficou surpreso com a própria brincadeira, mas, por sorte, reagiu rápido. Enquanto os outros ainda tentavam entender o que acontecia, correu e agarrou o dinheiro.
Diante de tantos olhares, Zhang Xuan não teve coragem de ficar ali. Abraçou o dicionário e saiu correndo.
Naquele momento, o frio desapareceu, as mãos não doíam mais. Só pensava no dinheiro, tentando descobrir quem teria enviado aquilo. Impossível que fosse pagamento de alguma revista, a menos que o financeiro tivesse perdido o juízo para fazer tal coisa.
Então, quem seria?
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