Capítulo 86: Ela nem ao menos olha para o seu rosto

Renascendo na Grande Era de 1993 Bambu-doce de março 3102 palavras 2026-01-30 12:37:27

Ao ouvir isso, Dona Hui, embora tivesse ficado cheia de dúvidas de uma só vez, ainda assim sorriu e respondeu prontamente com um “claro”, sem sequer perguntar o motivo. De fato, ela era uma mulher esperta, sabia agir conforme a situação, e Zhang Xuan ficou muito satisfeito com isso.

Sentiu que não havia se enganado ao confiar nela.

Mas ele também não fez cerimônia: logo depois, contou sem rodeios toda a história sobre Yang Yongjian montar a barraca para vender roupas.

Ao final, Zhang Xuan suspirou e disse: “Você conhece bem meu colega, sabe que a família dele sempre passou por dificuldades. Apesar de ter passado no vestibular, ainda não conseguiu garantir o dinheiro para as mensalidades e para viver na cidade…”

“Por isso, resolvi conversar com você para ver se podia passar essas três mil peças de roupa para ela vender na feira.”

“Mas fique tranquila, ela só vai vender lá na nossa pequena cidade do interior, não virá para Shaoshi e não vai mexer com os preços de atacado da sua loja.”

Antes mesmo que Dona Hui pudesse responder, Zhang Xuan emendou: “E olha, só vou fazer isso desta vez, daqui para frente todas as roupas continuam indo direto para você.”

Dona Hui, ouvindo isso, sorriu satisfeita, pegou os 9.500 e comentou: “Até fiquei com inveja da sua colega, ter um amigo tão leal e generoso como você.”

“Ah, deixe disso!” Zhang Xuan sorriu de lado, meio brincando, meio sério: “Inveja pra quê? O amigo leal sou seu irmãozinho, família é sempre mais próxima que os de fora, não é?”

“É sim!” Dona Hui se divertiu com a resposta.

Conversaram mais um pouco sobre as roupas, combinaram os detalhes e logo depois cada um seguiu seu caminho.

Apressado, em poucos minutos Zhang Xuan chegou ao setor financeiro.

Diferente das outras vezes, o setor estava movimentado, com algumas pessoas na fila para resolver pendências.

Ele encontrou um lugar para sentar, seus olhos passearam pelo ambiente e, por fim, pousaram sobre Tan Lu.

A verdade é que ela não era uma mulher de beleza marcante.

Como teria ela aparecido no meu sonho ontem à noite?

Será…?

O olhar escorregou discretamente para baixo e notou que a camisa branca realmente caía perfeitamente, realçando as curvas, um verdadeiro deleite para os olhos.

Olhou uma vez, outra vez, só mais uma vez, e de novo, de forma furtiva…

Que pecado, que pecado!

Tão delicada, realmente encantadora!

No fim, Zhang Xuan desviou o olhar para o teto e suspirou em silêncio: esse corpo cresceu mesmo! Já nem olho mais para o rosto.

Não pode ser…

Quase meia hora depois, os da frente terminaram o atendimento.

Tan Lu já estava bem familiarizada com Zhang Xuan e, enquanto cuidava dos papéis, puxou conversa:

“Precisa pagar 49 mil.”

“Aqui está.”

Depois de pagar, pegar o recibo e o comprovante, Zhang Xuan sorriu para Tan Lu, mostrando os dentes brancos, e saiu sem demora.

Ao vê-lo partir, Tan Lu pegou um pequeno espelho da gaveta, deu uma olhada no rosto e não viu nada de estranho.

Olhou de novo, para a esquerda, para a direita, e nada.

Que coisa estranha…

No fim, perguntou para a colega ao lado, de sobrenome Yao: “Dá uma olhada, vê se tem alguma coisa no meu rosto?”

A senhora Yao levantou os olhos, deu uma olhada e riu: “Seu rosto está limpinho, não tem nada de errado. É que ele nem estava olhando para o seu rosto…”

Desde cedo até o meio-dia, Zhang Xuan correu de um lado para o outro, até terminar tudo.

Nesse meio tempo, pegou o ônibus de Ruan Dezhi até o Banco da China.

Descontando as roupas que deu para Yang Yongjian, no fim das contas, ele lucrou 113 mil limpos.

Centena e treze mil, um pouco menos que da última vez, mas ainda assim uma bela quantia.

Entrou na fila e depositou cem mil no banco.

O saldo no cartão subiu de duzentos e cinquenta mil para trezentos e cinquenta mil.

Ao sair do banco, Zhang Xuan disse para Ruan Dezhi: “Tio, acho que vou até o mercado de frutos do mar para comprar uns secos e levar para casa.”

Enquanto dirigia, Ruan Dezhi perguntou curioso: “O que quer comprar?”

Zhang Xuan respondeu: “Vou levar um pouco de pepino-do-mar e abalone. O resto vejo lá na hora.”

A escolha pelo pepino-do-mar e o abalone não era à toa. Esses dois frutos do mar eram conhecidos há muito tempo como iguarias, símbolo de status e prestígio no interior naquela época.

Não importava se a família ia comer ou não, o importante era o valor simbólico: serviam para mostrar poder, para presentear, para impressionar.

Era a forma ideal de mostrar que a família Zhang já não era a mesma de antes, tinha dado a volta por cima.

Além da família da tia, Du Kedong e Ai Qing também estavam na lista de agrados de Zhang Xuan.

Afinal, construir a mansão dependia deles, que eram abastados e já tinham de tudo; o jeito era agradar com esses presentes.

Deu uma volta pelo mercado, além do pepino-do-mar e abalone, comprou também lulas secas, vieiras e camarão seco.

Com dinheiro no bolso, Zhang Xuan voltou a gastar como no passado, sem parcimônia, comprando dezenas de quilos de uma vez só.

Que demonstração de generosidade!

Ruan Dezhi chegou a sentir dor nos dentes só de ver, pensando que, se fosse seu próprio filho, já teria dado uma bronca.

Mas logo o tio riu satisfeito quando percebeu que Zhang Xuan, antes de embarcar no trem, deixou discretamente parte dos secos no carro.

O trem saiu às 13h e só chegaria de madrugada.

Dessa vez, tiveram sorte: compraram bilhetes para o leito ao invés do assento duro, mesmo pagando um pouco a mais, mas os três não se importaram.

Nesta viagem, Sun Fucheng parecia menos envelhecido, as rugas do rosto não estavam tão profundas.

Zhang Xuan imaginou que o filho dele devia estar melhorando.

Assim que entrou no trem, Dona Hui engatou conversa com Zhang Xuan sobre o atacado de roupas, mas logo pegou no sono sem perceber.

Dormiu profundamente, nem tirou os sapatos; pelo visto, a noite anterior foi mesmo exaustiva.

Sun Fucheng ajeitou a filha, tirou-lhe os sapatos com cuidado e, virando-se para Zhang Xuan, comentou em voz baixa: “Hoje cedo vi aquele grupo na estação de trem.”

Os olhos de Zhang Xuan se arregalaram: “Você diz aquele grupo de batedores de carteira?”

“Exatamente, eles mesmos,” respondeu Sun Fucheng, franzindo o rosto. “Quando os vi, já estavam todos detidos pelos policiais. Eram sete, todos algemados.”

“Sete? Tanta gente assim?” Zhang Xuan sentiu um arrepio. Se da outra vez tivessem tantos, ele não teria sido tão audacioso.

“Sete certinho, contei duas vezes,” disse Sun Fucheng, impressionado. “Se na última vez fossem mais, eu teria que usar o canivete.”

O tom resoluto de Sun Fucheng fez Zhang Xuan olhar por cima do ombro do velho, sentindo um calafrio na espinha.

Logo entendeu: a filha estava desempregada, o único filho doente no hospital, dependendo de dinheiro para sobreviver. Se os batedores de carteira tivessem levado o dinheiro, seria o fim das esperanças dele.

Numa situação dessas, era compreensível que alguém arriscasse tudo.

No segundo trecho da viagem, Zhang Xuan, cansado da noite mal dormida, também adormeceu.

Sun Fucheng olhou para a filha, depois para Zhang Xuan, mudou-se para o banquinho no corredor e acendeu um cigarro.

Por volta das sete da noite, o trem chegou a Chenshi. Zhang Xuan acordou, com o estômago roncando como se fosse trovão, acordando pela fome.

Dona Hui também despertou logo depois.

Sun Fucheng preparou cinco pacotes de macarrão instantâneo e tirou do bolso uma lata de pimenta em conserva. Juntaram-se e improvisaram a refeição.

Enquanto comia, Dona Hui ficou um tempão observando uma moça elegante ao lado, que mexia em um pager.

Por fim, inclinou-se para Zhang Xuan e perguntou baixinho: “Irmãozinho, você sabe usar aquilo ali?”

Zhang Xuan também olhou a moça elegante, puxou um fio de macarrão e respondeu de boca cheia: “Nunca usei. Mas o tio Du Kedong, lá da cidade, tem um, e pelo que ele diz, não parece ser difícil de aprender.”

Dona Hui olhou de novo para o pager, cheia de admiração, e depois de um tempo perguntou: “É caro esse negócio?”

Terminando o macarrão, Zhang Xuan tomou o caldo, limpou a boca com o guardanapo e respondeu: “Para a maioria, é caro sim. Custa uns milhares de yuans.”

E perguntou: “Você ficou interessada?”

Dona Hui pensou um pouco: “Acho prático. Quando eu estiver fora, os outros podem me achar fácil, sem precisar ficar o tempo todo grudada no telefone fixo.”

Zhang Xuan concordou: “Com certeza, para quem faz negócio, facilita muito.”

Ela assentiu, examinou a moça moderna dos pés à cabeça, mas não falou mais e concentrou-se em comer.

O trem chegou meia hora antes do previsto a Shaoshi, mas ficou parado na periferia por meia hora antes de entrar na estação.

No calor sufocante do verão, em plena madrugada, o atraso deixou todo mundo impaciente, e muitos passageiros começaram a xingar os funcionários do trem.

Os funcionários, pacientes, tentavam acalmar, explicando a situação e aguentando os desaforos. Depois, vendo que não adiantava argumentar, sumiram e não apareceram mais.

Meia hora depois, já passava da meia-noite quando conseguiram desembarcar.

Assim que desceram, Zhang Xuan e os outros se puseram a trabalhar: descarregar, carregar, empilhar, contar as mercadorias. Não pararam um minuto, e assim, depois de mais de uma hora de correria, conseguiram terminar tudo.