Capítulo 91: Conversa com Ai Qing
Só quando ele terminou de preencher uma folha inteira e se preparava para trocar de página, percebeu, nesse ínterim, um perfume feminino no ar.
Hum?
Perfume de mulher?
Como havia perfume de mulher ali?
A camarada Xu Qinqiu não usava fragrâncias...
Com a dúvida em mente, Zhang Xuan, instintivamente, virou-se para trás e seus olhos encontraram os de Ai Qing.
Olharam-se...
Estava feito!
Só então Zhang Xuan percebeu que, sem saber quando, alguém “assustador” havia surgido atrás dele. Se não estivesse enganado, ela provavelmente estava espionando sua escrita, certo?
E ainda parecia estar gostando do que via...
Após alguns segundos de silêncio, Ai Qing tomou a iniciativa de quebrar o gelo, perguntando num tom suave:
— Você está escrevendo um romance de temática militar?
Você já viu, e ainda pergunta? Não é óbvio?
Apesar de não concordar internamente, Zhang Xuan respondeu com educação, um leve “hum”.
Ai Qing fixou os olhos nele:
— Qual o nome do seu livro?
Sem pressa, Zhang Xuan respondeu:
— O Sussurro do Vento.
O Sussurro do Vento... Ai Qing repetiu mentalmente o título, degustando-o. Só depois de algum tempo voltou a falar:
— Quantas palavras já escreveu?
Zhang Xuan, sem pensar, olhou para o manuscrito:
— Ainda não está muito avançado, tem cerca de trinta e quatro mil palavras.
Ai Qing prosseguiu:
— Pretende publicar?
Zhang Xuan assentiu, confirmando.
Ai Qing então perguntou:
— Posso ver?
Talvez tenha percebido que soou impertinente, apressou-se a acrescentar:
— Se você confiar em mim, claro.
Zhang Xuan encarou o olhar da outra por alguns segundos e assentiu novamente.
Naquela situação, ela era mãe de sua amiga, além de ser uma conhecida e respeitada senhora. Mesmo que não confiasse, era preciso confiar! Caso contrário, um desentendimento desnecessário poderia se instalar e, com o temperamento dela, provavelmente o faria pagar por isso no futuro...
Além disso, depois de conviver em sua vida anterior, apesar de Ai Qing ser um pouco arrogante e egocêntrica, e mesmo tendo tido alguns atritos, sua índole era digna de crédito.
Não se deve prejudicar ninguém, mas também não se pode deixar de se precaver.
Nesse instante, Zhang Xuan decidiu: iria enviar “O Sussurro do Vento” para publicação antecipadamente. Na manhã seguinte, remeteria a parte escrita à Editora Literatura Popular.
Por que enviar para Literatura Popular?
Porque é uma editora nacional de referência, voltada para o desenvolvimento literário, promotora de debates e pesquisas, atenta ao surgimento de novos fenômenos e autores. É escolha obrigatória em bibliotecas renomadas, com grande prestígio entre escritores.
Como Zhang Xuan era um autor iniciante, sem grandes contatos, e atuava no meio literário, era o destino ideal para submissão.
Abriu a gaveta e uma profusão de folhas brancas saltou à vista, todas manuscritas.
Havia originais, versões revisadas, provas corrigidas.
Primeira, segunda, terceira versões... Tudo devidamente organizado, compondo vários conjuntos.
Estas eram provas cuidadosamente guardadas por Zhang Xuan, para responder a possíveis questionamentos futuros.
Após vasculhar a gaveta com o olhar, Zhang Xuan pegou os dois cadernos mais à direita, virou-se e entregou a Ai Qing:
— Tia, aqui está! Ainda tem poucas palavras, a trama não está desenvolvida por completo, mas espero que consiga apreciar.
Ai Qing assentiu imperceptivelmente, pegou os manuscritos e, ao olhar ao redor, notou que não havia nenhum banco sobrando.
Zhang Xuan, atento, levantou-se imediatamente, cedeu o banco e foi para a beirada da cama continuar a escrever.
Diante disso, Ai Qing observou-o atentamente por alguns instantes. Depois, sem cerimônia, sentou-se no banco e começou a folhear os manuscritos.
No início, ao ler “O Sussurro do Vento”, seus olhos estavam carregados de severidade, examinando com olhar crítico.
Mas, à medida que lia, seu olhar foi se suavizando.
Tornou-se sereno.
Mais introspectivo.
Por fim, mergulhou em profunda reflexão...
O olhar mudou, e com ele, sua postura: de pernas cruzadas passou a sentar-se ereta, pernas juntas, ombros alinhados.
Levou mais de meia hora para terminar o manuscrito. Ai Qing esfregou os olhos cansados e, por reflexo, voltou o olhar a Zhang Xuan.
De frente, viu aquele rosto concentrado, o movimento da caneta sobre o papel, o som contínuo do “shhh shhh”...
Naquele momento, ela admitiu: o filho do “inimigo” era realmente um escritor.
Naquele momento, ela reconheceu que o subestimara, que Zhang Xuan era talentoso!
Com essa mudança interna, Ai Qing não sabia se deveria sentir raiva ou alegria.
Mas sabia que esse era o motivo de ter acompanhado o marido à Aldeia Superior naquele dia.
Du Kedong viera para tratar do assunto da casa de campo, por negócios.
Mas Ai Qing não.
Ela só veio porque, após comer o pepino do mar preparado pelo marido, sentiu vontade de ver de perto se tudo o que ouvira era realmente verdade.
Queria observar de perto Zhang Xuan, aquele que conquistara o coração de sua filha, e descobrir que tipo de pessoa era, afinal.
Enquanto Zhang Xuan seguia concentrado, escrevendo com afinco, totalmente imerso em seu mundo, sem perceber que era alvo de um olhar atento, Ai Qing, depois de observá-lo silenciosamente por um tempo, colocou os manuscritos sobre a mesa, alisou cuidadosamente cada folha, ajeitou as pontas do papel e, só então, se levantou e saiu discretamente.
Ao sair, voltou-se e fechou suavemente a porta do quarto. Mas, no instante seguinte, o semblante solene sumiu, dando lugar ao antigo ar altivo.
Quando Ai Qing apareceu, Du Kedong e Xu Qinqiu, que conversavam, apenas a olharam e prosseguiram com o assunto.
Du Shuanglin, ora observando a expressão da mãe, ora lançando olhares furtivos para a porta do quarto. No momento, estava inquieta, morrendo de vontade de dar uma espiada lá dentro.
Ai Qing, que percebia todas as intenções da filha, já estava tranquila, mas uma onda de irritação inexplicável surgiu de novo.
Ficar irritada na casa do inimigo!
Xu Qinqiu, sua adversária, conhecia-a até melhor do que ela mesma, mas Ai Qing decidiu não se importar e ordenou diretamente à filha:
— Vá, ajude a mamãe a pegar uma tigela de arroz. Eles não vão comer, nós vamos, a comida já está esfriando.
Diante dessa fala tão direta, Du Shuanglin ficou boquiaberta. Pensou: Mamãe, você realmente está tratando aqui como se fosse sua própria casa.
Du Kedong e Xu Qinqiu interromperam a conversa, voltando o olhar para Ai Qing.
Ser alvo de olhares não era do feitio de Ai Qing, que ignorou tudo e foi à cozinha servir-se.
Xu Qinqiu, vendo a cena, sorriu e convidou Du Kedong e sua filha:
— Vamos comer primeiro, depois conversamos. Se não estiver ocupado esta noite, podemos beber um pouco de aguardente. Acabei de destilar este mês.
Du Kedong desviou o olhar da cozinha e, para não tornar embaraçosa a atitude da esposa, respondeu sorrindo:
— Claro, com essa carne de javali, realmente fiquei com vontade. Como não tenho compromisso hoje à noite, vamos beber juntos.
...
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