Capítulo 72: Tornei-me um grande escritor?
Após breve discussão, cada um ficou encarregado de uma tarefa. Sun Jun foi à frente levando a coroa de flores, seguido de perto por Zhang Xuan, responsável pelos fogos de artifício. Wu Guorui carregava as duas caixas mais pesadas de lanternas de papel, enquanto as duas irmãs traziam os montes de papel dourado, prata e as velas, caminhando por último.
Embora a Vila Yongxing ficasse encravada entre montanhas, sua população era numerosa, com mais de 1400 habitantes, beirando os 1500. Ao saberem que amigos e colegas de Yang Yongjian viriam, todos correram para ver o movimento.
Ao som de tambores, trombetas e fogos na casa principal, Zhang Xuan acendeu duas fileiras de fogos, e então, seguindo a tradição, entrou na sala para se ajoelhar e curvar três vezes diante do caixão.
Esse gesto era obrigatório para todos, em respeito aos mortos: ou não vinha, ou, se viesse, tinha que fazer a reverência. Só os mais velhos estavam isentos; mesmo quem fosse dez anos mais velho que a falecida não escapava se fosse da mesma geração.
No calor do verão, o corpo já estava ali há quatro, cinco dias, e o cheiro era forte. Para evitar que se espalhasse, o caixão estava envolto por uma grossa camada de plástico, lacrado hermeticamente. Ainda assim, sangue misturado a outros fluídos vazava pelas frestas, formando uma bolsa avermelhada do tamanho de uma tigela sob o plástico.
Depois das reverências, ao saírem da sala, os anfitriões ofereceram macarrão com carne de boi. Apesar da fartura de carne, do colorido dos temperos e do sabor da massa, poucos conseguiram comer. A fome era grande, mas a lembrança da cena do caixão, com o líquido vermelho dentro do plástico, fazia todos se entreolharem em silêncio, sem conseguir dar mais que algumas garfadas.
Se não houvesse a carne talvez fosse mais fácil; bastava olhar para ela e o estômago se revirava, incapaz de aceitar qualquer alimento. Por fim, Sun Jun venceu a luta interna: faminto, baixou a cabeça e começou a comer, o barulho dos talheres abafando o mal-estar.
Naquela noite, Zhang Xuan e os outros ouviram, entre conversas sussurradas, uma história comovente. Após a morte da mãe de Yang Yongjian, o pai, tomado de tristeza, insistiu em passar a noite inteira ao lado do corpo, deitado junto dela na cama. Ao amanhecer, vizinhos encontraram-no de olhos inchados e vermelhos, a voz rouca de tanto chorar.
Naquela noite, Yang Yongjian não parou de chorar, encolhida sobre o caixão, em prantos de cortar o coração. Muitos vizinhos choraram junto. Tentaram convencê-la a se afastar, mas ela não largava o caixão de jeito nenhum. Mais tarde, já de madrugada, ao terminar a última homenagem, Yongjian, abatida pelo sofrimento e pelo vento frio da montanha, começou a ter febre.
Felizmente, Du Jingling e o marido estavam ali para cuidar dela, aplicaram injeção, deram remédio, passaram álcool iodado em seu corpo e, só assim, a febre baixou.
No dia seguinte, o céu estava limpo, nuvens brancas, ar puro, o som dos insetos. Um dia perfeito.
No caminho de volta pelo mato cerrado da montanha, Zhang Xuan e os demais viram lebres, doninhas, galinhas selvagens e rolas. Animais sem medo, que se multiplicavam tanto que andavam pelas trilhas em pleno dia, sem receio algum de gente.
Que praga! Zhang Xuan olhava para eles com desejo, querendo abater alguns para pendurar e comer depois. Não podia, porém; decidiu que pediria a Ou Yang Yong que lhe conseguisse alguns assim que voltasse, estava mesmo devendo isso.
Tomaram o café às sete, saíram da vila pouco depois das oito e, por volta das dez, chegaram ao cemitério. Quando o caixão foi enterrado e a terra lançada, Yang Yongjian desabou por completo, chorando convulsivamente; só com a força das tias conseguiu ser levada para casa.
Após o enterro, arrumaram-se rapidamente e se prepararam para voltar. Na despedida, Yang Yongjian, acompanhada do pai e da meia-irmã mais velha, veio agradecer como manda o costume.
Como havia muita gente a ser cumprimentada, tudo foi feito de forma simples. Além disso, depois de uma noite sem banho e mal dormida no calor do verão, todos estavam exaustos e suados. Assim que saíram da casa de Yang Yongjian, montaram nas motos e partiram em grupos.
Dizem que subir a montanha é difícil, mas descer é fácil. Da Vila Yongxing até o entroncamento, não gastaram nem dezoito minutos.
Ao chegar em casa, Zhang Ping, que cortava capim para os porcos, levantou-se sorridente: “Irmão, você voltou!”
Zhang Xuan olhou para a barriga dela e franziu o cenho: “Mana, você não está grávida? Por que está trabalhando, cortando capim? Não deveria se cuidar?”
Zhang Ping baixou os olhos para a barriga e sorriu: “Não faz mal, já estou de cinco meses. Dizem que é bom se mexer, fazer um pouco de serviço.”
“Cinco meses?” Zhang Xuan ficou parado, surpreso, sem entender nada.
“Claro! Já tem cinco meses. Tem algo errado nisso?” Zhang Ping olhou o irmão com expressão de espanto, sem compreender.
Algo de errado? Querida irmã tola, você ainda pergunta? Já são cinco meses e pergunta o que está errado?
Droga! Ou Yang Yong, seu patife, será que levou minha irmã para o milharal antes mesmo do noivado? Será que foi antes do Ano Novo passado? Neste instante, Zhang Xuan sentiu sua inteligência insultada, sua dignidade arranhada.
E pensar que ainda lhe deu conselhos, dizendo que “as más línguas são perigosas”, que bastava enfrentar para conquistar a amada. Mas você levou isso a ferro e fogo!
Eu te subestimei! E quer me comprar com um envelope de quatrocentos e vinte? Que piada! Não me respeita mesmo!
Por dentro, xingou como nunca na vida. Vive brincando com a águia e acaba bicado por ela!
Já decidiu: não vai devolver o envelope e, além disso, Ou Yang Yong ainda terá que trazer caça para agradá-lo.
Diante da irmã de raciocínio curto, Zhang Xuan só queria chorar, sem saber nem o que dizer. Tinha medo de ela não entender e ainda chorar por bobagem, o que seria pior.
Como dizem: não tem muita habilidade, mas é teimosa!
No fim, só aconselhou: “Não é nada demais, só não fique sempre agachada ou sentada, faz mal para o bebê. Aproveite o pátio para tomar sol.”
Olhou ao redor e perguntou: “E a mamãe? Onde está?”
“Mamãe, a tia e o tio foram de casa em casa pagar as dívidas.” Ao falar disso, Zhang Ping agarrou o braço dele, orgulhosa: “Irmão, mamãe e tia disseram que você virou um grande escritor, que ganhou muito dinheiro para a família.”
“Você sabia que os vizinhos estão todos com inveja de você? Dizem que você é inteligente, nasceu para as letras, que é formidável...”
Eu virei grande escritor? Ganhei tanto dinheiro escrevendo? Está todo mundo sabendo? Isso é tudo mentira! Eu mesmo não sabia!
Zhang Xuan não aguentou mais ouvir. Naquele momento, sentiu claramente a pressão da mãe e do tio, querendo forçá-lo a seguir a herança intelectual da família Yuan.
Sentindo-se sujo, correu para o quintal de bermuda e tomou banho de balde com a água do poço, lavou o cabelo. Cada balde de água gelada lavava corpo e alma.
Que sensação boa! Agora entende por que dizem que por melhor que seja a casa dos outros, nada supera a própria, mesmo que seja simples.
A aldeia parecia mudada, mas nada de muito diferente. Afinal, ele ficara fora só meio ano. Havia obras na estrada e uma ponte de pedra sendo construída pelo grupo de produção; algumas famílias reformavam as casas antigas.
Em casa, havia agora um cão amarelo de uns dez quilos, que a irmã dizia ter sido presente do dono da venda da esquina.
O vira-lata era amarelo, bonito, mas Zhang Xuan não gostava dele. Motivo simples: há pouco, no entroncamento, quatro cachorros disputavam uma cadela e esse foi o primeiro a ser derrotado.
Nem para conquistar a fêmea servia! Que utilidade tem esse inútil? Na família Zhang não há lugar para fracotes!
Que vergonha! Sentado no batente da porta, Zhang Xuan disse para a irmã: “E se a gente matasse esse cachorro? Depena, lava, corta, põe pimenta, pimentão, cebola, gengibre e alho, frita bem... ficaria ótimo.”
O cão, percebendo as más intenções, deitou-se e rosnou para ele, baixinho.
Zhang Ping, vendo isso, jogou logo um pedaço de capim, e o cachorro se acalmou, abanando o rabo para Zhang Xuan.
Ele, impaciente, deu-lhe um chute, mas o cachorro não se deu por vencido, sacudiu o corpo e foi bajular a irmã.
Ela, de coração mole, ria mesmo depois de ter as calças puxadas pelo cachorro, e logo fazia festa para ele.
Zhang Xuan percebeu: naquela casa, o cachorro era o quarto mais esperto, a irmã era a quinta.
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