Capítulo 90: Ai Qing Faz uma Visita
A planta final da nova casa finalmente foi definida.
Após muita insistência de Zhang Xuan, Ruan Xiuqin e Zhang Ru aceitaram a proposta de quatro quartos e três salas. A casa teria dois andares, garantindo espaço suficiente para receber visitas.
No fim da tarde, Zhang Xuan entregou dez mil yuans a Ruan Xiuqin:
— Mãe, esse dinheiro eu ganhei em Shenchen há alguns dias. Separei uma parte para mim como capital, mas deixo esses dez mil para você usar. Se não for suficiente depois, eu pego mais um pouco.
— Está bem — respondeu ela, satisfeita com o dinheiro que o filho lhe entregava, aceitando sem cerimônia e sem perguntar quanto ele havia reservado para si.
Ela guardou o dinheiro no fundo do baú, cobriu com roupas, marcou com três tiras de bambu e trancou com um cadeado. Virando-se, perguntou:
— Meu filho, para o jantar você prefere carne de javali ou peixe?
Zhang Xuan, prestes a começar a escrever “O Sussurro do Vento”, estranhou:
— Peixe? Mas com esse calor, de onde apareceu peixe? Ouyang Yong trouxe ou você comprou?
Ruan Xiuqin sorriu docemente:
— Nada disso. A esposa do seu primo está grávida e quis comer peixe. Seu primo foi ao tanque e pescou algumas carpas. Viu que você estava em casa e mandou uma para nós.
Ao ouvir que o peixe fora presente do primo, Zhang Xuan ficou ainda mais surpreso:
— E o peixe, é grande?
Ruan Xiuqin mediu com as mãos:
— Assim, pesa uns três quilos e duzentos gramas.
— Tem certeza, mãe? O meu primo, tão pão-duro, ficou generoso de repente? Não está tramando alguma coisa?
Zhang Xuan achou a situação estranha, largou a caneta e foi direto ao quintal.
Ruan Xiuqin riu e deu um tapinha nas costas dele. Agora que a vida melhorara, ela se permitia brincar:
— Seu primo é mão-fechada, sim, mas depende de com quem. Quando autoridades do vilarejo ou da cidade vão à casa dele, ele serve sempre boa comida e bebida. Agora que você virou escritor, já entrou no padrão para ele puxar o saco.
Zhang Xuan não pôde deixar de rir, mas aproveitou para conversar sério:
— Mãe, será que dá para a senhora pegar mais leve quando fala que sou escritor? Vai que um dia eu não corresponda, aí viro motivo de piada para todo mundo.
Ruan Xiuqin, inabalável, abriu a porta dos fundos:
— Li o começo do seu novo livro, “O Sussurro do Vento”. Está ótimo, melhor que tudo o que você já escreveu. A mãe confia em você.
Pronto! Zhang Xuan entendeu que sua mãe não lhe daria trégua. Não havia mais volta.
Pois bem, deixem que me considerem famoso. Agora, não tem escapatória. Se é para ser, que seja.
E como diz o ditado, quem não arrisca não petisca. Quem tem medo?
Ao atravessar a porta dos fundos, Zhang Xuan realmente encontrou uma grande carpa verde no tanque. Os olhos arregalados, a boca abrindo e fechando, soltando bolhas.
Olhou a cabeça, a cauda, o corpo carnudo… Era um peixe de dar água na boca, daria várias tigelas. Imaginou o caldo branco e cremoso, já sentiu o cheiro, ficou com água na boca.
Os olhos de Zhang Xuan brilharam:
— Mãe, acho melhor jantarmos peixe hoje. Cozinhe bem, quero tomar o caldo.
Ruan Xiuqin concordou:
— Tudo bem, a mãe faz para você.
Zhang Xuan tentou ainda negociar:
— Mãe, e se a senhora fritar um pouco de carne de javali também? Caldo de peixe com carne de javali, só de pensar já fico com água na boca.
Desta vez, Ruan Xiuqin recusou de imediato:
— Isso não, coisas boas não se comem juntas, tem que separar.
Zhang Xuan insistiu:
— É só um pouco de carne de javali, mãe. Agora podemos nos dar a esse luxo.
Ruan Xiuqin suspirou:
— Só quem cuida da casa sabe o valor das coisas. Mesmo com algum dinheiro, não dá para desperdiçar. Ainda temos que economizar, para ajudar você a se estabelecer no futuro…
Diante desse discurso, Zhang Xuan sentiu dor de cabeça. Mas não desistiu: correu à cozinha, pegou a carne de javali pendurada na viga e, fazendo charme, colocou diante da mãe:
— Mãe, não importa, hoje quero comer carne de javali!
Fazia anos que Zhang Xuan não fazia manha, talvez desde a infância. Ver o filho agir assim pegou Ruan Xiuqin de surpresa; ela olhou para ele, sem entender, e depois sorriu, indo embora sem dizer nada.
Zhang Xuan suspirou, sem saber se tinha vencido ou não. Mas, poder fazer graça com a mãe mais uma vez nesta vida era uma forma de compensar as faltas do passado. Se não tivesse vergonha, até gostava da brincadeira.
Zhang Xuan voltou ao quarto para escrever.
Ruan Xiuqin preparou o peixe, colocou o prato na mesa e, vendo a carne de javali, também a trouxe. Do salão, chamou:
— Meu filho, a comida está pronta, venha comer antes de continuar escrevendo.
Zhang Xuan estava num momento inspirado e não queria parar.
— Pode comer, mãe, estou com a cabeça boa agora, não posso sair.
Ruan Xiuqin, ao ouvir isso, calou-se para não atrapalhar o filho. Olhou para o caldo branco do peixe, pegou uma tigela e pensou em levar um pouco para ele provar.
Mas antes que pudesse sair, ouviu barulho na porta. Virou-se e viu que haviam chegado visitas.
Du Ke Dong chegou acompanhado de Ai Qing e Du Shuangling.
Assim que entrou, Ai Qing colocou uma caixa de frutas na mesa e perguntou, vendo Ruan Xiuqin meio surpresa:
— Zhang Xuan está escrevendo?
Ao ouvir a “rival” perguntar, Ruan Xiuqin se recompôs e, com o espírito competitivo de sempre, respondeu:
— Meu filho está escrevendo um novo livro, já tem algumas dezenas de milhares de palavras.
As duas se conheciam tão bem que uma entendia o que a outra queria dizer só pelo tom. Ai Qing percebeu logo que estava sendo provocada, lançou um olhar indiferente e seguiu direto ao quarto de Zhang Xuan, abrindo a porta suavemente.
Ruan Xiuqin apenas observou, não impediu, nem teve medo que a presença de Ai Qing pudesse atrapalhar a inspiração do filho.
Diante dessa cena, Du Ke Dong e Du Shuangling trocaram olhares e sorriram, impotentes. Ambos sabiam que, quando Ai Qing e Ruan Xiuqin se encontravam, virava disputa: o QI de ambas caía pela metade, e isso já era corriqueiro.
Quando havia mais gente, as duas até se controlavam e fingiam harmonia. Mas diante da família, nem se davam ao trabalho de disfarçar.
Despreocupado com as rusgas da esposa, Du Ke Dong cumprimentou Ruan Xiuqin e logo começou a tratar dos assuntos da construção da casa, o verdadeiro motivo da visita.
Du Shuangling, com receio de que a mãe criasse confusão com Zhang Xuan, pensou em segui-la até o quarto, mas antes de se mover foi calorosamente puxada por Ruan Xiuqin para sentar-se ao seu lado. Surpresa com a gentileza, Du Shuangling logo entendeu o motivo e, sentindo o rosto corar, sorriu e se dispôs a conversar.
Enquanto o salão transbordava harmonia, dentro do quarto o clima era outro.
Ai Qing entrou sem fazer barulho, mas Zhang Xuan, concentrado, nem percebeu. Estava completamente imerso na escrita.
...