Capítulo 19: Tornou-se sensato
“Não precisa fingir que se importa.”
Liu Yuzhi estava muito irritada, disse uma palavra atravessada para Hua Xiaoman, mas então, pensando que afinal de contas era da família, ainda havia a caderneta de poupança, e que estavam esperando um bom partido, mudou de tom:
“Você, uma moça feita, não faça como sua avó, se metendo em assuntos alheios. O mais importante para você agora é estudar direito e entrar numa boa universidade.”
Embora Liu Yuzhi não fosse bondosa, suas palavras faziam sentido. Hua Xiaoman assentiu:
“Entendi. Então vou indo, segunda tia, cuide-se.”
Vejam só, que menina atenciosa, ainda por cima bonita, pena que não é minha filha. Mas não faz mal, tenho um filho, ele pode dar continuidade à família. Pensando assim, Liu Yuzhi deixou de invejar a filha dos outros.
Quando todos se foram e a família ficou sozinha, seu segundo irmão comentou: “Terceira irmã, essa sua Hua Xiaoman parece meio estranha...”
Liu Yuzhi não gostou: “O que ela pode ter de errado? Só não é de falar muito, só isso. Vocês é que pegam pesado demais, até um gato acuado morde.
Mãe, Xiaoman, afinal, fui eu quem criou, no futuro vai casar como se fosse minha filha. Por que a senhora insiste em manchar o nome da menina?”
Ao ouvir isso, a avó Liu pulou como se tivesse levado um choque, apontou para Liu Yuzhi e começou a gritar:
“Sabia que mulher é traidora! Veja só como eu e Cuiying fomos maltratadas pela família Cao. E você aí, falando besteira. Agora não é a filha da sua casa que não consegue casar, é a nossa Cuiying!”
“Olha, mas isso não é culpa da Xiaoman. Vocês deviam era conversar com a Cuiying, como pode ela andar por aí com esses marginais? Depois, como vai casar?”
Mal Liu Yuzhi terminou de falar, voou um travesseiro de dentro do quarto, junto com um grito estridente de Liu Cuiying:
“Some daqui! Não precisa cuidar da minha vida! Se eu vou casar ou não não é problema de vocês!”
“Tá gritando com quem? Faço de tudo por você e é assim que agradece? Minha Xiaoman tem um temperamento bem melhor que o seu. Se eu fosse o doutor Chu, também escolheria a Xiaoman.”
Liu Yuzhi, de repente, achou tudo aquilo muito sem graça, murmurou baixinho e saiu de lá.
Atrás dela, ainda podia ouvir os xingamentos da mãe e de Liu Cuiying, dizendo que ela puxava para o lado de fora, que filha casada é como água derramada, tudo isso deixou Liu Yuzhi ainda mais magoada.
Quando se casou com Cao Guozhu, foi porque a família achou que o irmão mais velho dele tinha algum dinheiro com negócios e queriam o dote, então a empurraram para aquele casamento.
Já se passaram tantos anos desde que se casou, Liu Yuzhi, com medo de ser maltratada pela sogra, sempre bajulou a mãe e os dois irmãos, até com os sobrinhos foi generosa, comprando de tudo para eles.
Agora, pensando bem, nem sabe por que fez isso tudo. A mãe não a entende, até a sobrinha se acha no direito de jogar um travesseiro nela. Mesmo que não tenha acertado, era uma questão de respeito, e ninguém disse nada.
Ainda bem que Cao Guozhu é bom, faz tudo que ela diz, e ela ainda tem um filho. Liu Yuzhi pensou melhor: era melhor mesmo se afastar da família, tratar logo de casar Hua Xiaoman, conseguir um bom dinheiro para investir nos estudos do filho ou para o casamento dele.
Decidida, Liu Yuzhi, pela primeira vez, deu dez moedas extras de mesada para Hua Xiaoman, para que comprasse roupas de baixo novas, pois as feitas pela avó eram muito antiquadas e poderiam virar motivo de piada quando ela fizesse novos amigos.
Para evitar que a família Liu voltasse a incomodar, Cao Tianle sugeriu que levassem Hua Xiaoman cedinho para a escola no dia seguinte. Afinal, a escola tinha dormitórios, muitos alunos de longe iam para lá alguns dias antes do início das aulas para se instalarem.
Cao Tianle, claro, não era aquela pessoa madura e sensata que Liu Yuzhi dizia. Ele só queria mesmo era se livrar logo de Hua Xiaoman, a quem via como um verdadeiro monstro devorador de gente.
Hua Xiaoman havia prestado vestibular no verão passado, mas não teve um bom resultado. Recebeu o diploma do ensino médio e não voltou mais à escola. Agora estava indo para repetir o último ano, precisava chegar cedo para fazer a matrícula e não perder o início das aulas.
Na verdade, naquele ano, as universidades começaram a ampliar o número de vagas e, com a melhora das condições das famílias, muitos alunos que não conseguiram boa nota ou não preencheram bem os formulários optavam por repetir o último ano para tentar de novo.
Todos se inscreviam em setembro, no início do ano letivo, na chamada “quarta série do ensino médio”.
Hua Xiaoman seria aluna transferida dessa turma, precisava se matricular e pagar a mensalidade.
A taxa escolar era oitocentos, mais duzentos de alojamento, totalizando mil. Ninguém sabia de onde a avó Cao tirou o dinheiro, mas ela pagou, então a segunda tia nada pôde dizer.
Falando nisso, Cao Tianle, o irmão mais novo, até sentia uma pontinha de pena de Hua Xiaoman.
Mesmo achando que ela era uma espécie de monstro possuído, pronta a “devorar” qualquer um ao menor desentendimento, a presença de Hua Xiaoman fazia-o se sentir mais confiante: não só botou a arrogante Wang Jingjing no lugar, como suas ideias passaram a ser elogiadas e aceitas pela família, o que era bom.
Enquanto Hua Xiaoman arrumava suas coisas, Cao Tianle, surpreendentemente, lhe trouxe um par de luvas grossas de lã.
Eram de um azul escuro, pareciam novas, claramente compradas pela segunda tia para ele.
“Você, como moça, devia cuidar melhor das mãos. Vai que, quando sair para namorar, alguém pega na sua mão e só sente pus e feridas, que nojo,” resmungou Cao Tianle, desconfortável.
Hua Xiaoman olhou divertida para as mãos dele: “Dizem que se come para fortalecer o corpo, será que é verdade?”
Ao ver o olhar de Hua Xiaoman, Cao Tianle pulou para trás:
“Acabei de sair do banheiro e nem lavei as mãos! Melhor você ir logo para a escola. E não vá sair por aí devorando gente, agora é um país de leis. Quem faz muita besteira acaba preso!”
Já estava quase fora de casa, mas ainda ouviu Hua Xiaoman resmungar: “A vovó disse que hoje tinha coxinha de frango para mim, acho que nem comi ainda. Será que como para ficar mais forte?”
Ah, era disso que ela falava?
Com certeza não! Hua Xiaoman, aquele monstro, devia era estar com fome, pensando em devorar alguém.
Melhor correr para a mãe e insistir de novo: que a mandem logo para a escola! E, se possível, que nem volte nos fins de semana.
Assim, o repentinamente amadurecido Cao Tianle foi dar mais um conselho à mãe:
“A irmã não foi bem nas provas no ano passado, se não melhorar as notas, não vai entrar numa boa universidade. Que tal deixar ela na escola nos fins de semana, assim estuda melhor e não fica vindo para casa? Além de cozinhar e lavar roupa, ela não faz mais nada mesmo.
Dinheiro para o mês? A vovó pode levar para ela, ou eu mesmo levo.”
“Você nem pensar, vai pegar o dinheiro para comprar cigarro. Sua irmã já é magra, se você ainda ficar tirando da mesada dela, não desenvolve nunca. Melhor a vovó levar, assim ela não precisa voltar e evita que aqueles vagabundos da vila fiquem de olho nela.
Ouvi dizer que a família do doutor Chu tem boas condições, ele passou no mestrado, certamente terá um bom emprego. E pelo que vi, parece gostar da nossa Xiaoman, eles precisam de tempo para se conhecer.”
Esse último comentário, na verdade, era para Cao Guozhu ouvir.
Cao Guozhu, embora achasse que era um pouco forçado, concordou que a esposa tinha razão, e não disse mais nada além de apoiar.