Capítulo 29: O Motivo da Recusa
Flor Pequena estava completamente concentrada em sua leitura. Sua colega de carteira, Vento Pequeno, era igualmente dedicada, tornando as duas uma paisagem distinta no meio da sala de aula animada.
Atrás delas, duas mesas grandes estavam juntas; Bela Lu procurou por Zhi Wang, e as duas cochichavam em voz nada baixa, vez ou outra soltando gritinhos manhosos de “que chato” ou algo parecido.
Flor Pequena ignorava esses sons, até sentia admiração por Haibin Zhu, que conseguia estudar com seriedade mesmo ao lado desse espetáculo quase escandaloso.
Não demorou muito, e alguém entrou correndo na sala, anunciando:
— Meimei Xiong saiu chorando e correu para o dormitório!
Flor Pequena pensou em não se envolver, mas ficou sem jeito de ignorar. Assim, acabou acompanhando Xuemei Dong, Vento Pequeno e Bela Lu de volta ao dormitório para ver o que tinha acontecido.
No dormitório, Xiaoling Du, sempre solícita, ainda estava lá, tentando consolar Meimei Xiong. Quando elas chegaram, Xiaoling Du apenas abanou a cabeça, abrindo os braços:
— Não quer dizer nada, só sabe chorar.
Xiaoling Du era o típico tipo bondoso, sempre tentando apaziguar as coisas, embora raramente tivesse sucesso.
— Afinal, o que aconteceu hoje? Será que realmente apareceu um rapaz bonito para se declarar para ela? — perguntou Bela Lu.
Ela e Xuemei Dong tinham chegado atrasadas e não sabiam do ocorrido com Jianjun Lang, só queriam provocar Flor Pequena.
— Sim — assentiu Vento Pequeno, de forma sucinta. — Foi o Grande Lobo.
Aquilo... era mesmo verdade? Até isso se confirmou? Até alguém como Meimei Xiong, baixinha e gordinha, tinha quem a cortejasse? Bela Lu e Xuemei Dong ficaram com a expressão feia.
De repente, Meimei Xiong enxugou as lágrimas e soltou um lamento:
— Minha juventude, estou tão triste! Por que existe rapaz que enxerga tão mal a ponto de gostar de uma garota como eu?
— E alguém gostar de você não é bom? E aí, você aceitou? — perguntou alguém.
— Não! — Meimei Xiong respondeu, com o rosto desolado. — Por isso que estou chorando! Uma coisa tão boa, talvez só aconteça uma vez na vida, e eu recusei! Por que ele foi se declarar agora? Não podia esperar até a faculdade?
— Por quê? Vocês não se dão bem normalmente? — quis saber Xuemei Dong.
Meimei Xiong respondeu solenemente:
— Meus pais não permitem que eu namore enquanto estou estudando.
Esse motivo... muitos ali ficaram com vontade de lhe dar uns tapas. Mas Meimei Xiong era mesmo obediente, do tipo que escutava os pais. Apesar das notas não serem das melhores, ela se esforçava muito e era muito disciplinada.
Já que ela pensava assim, ninguém tinha muito o que dizer, só restava tentar consolar de algum jeito.
Na verdade, o ocorrido não era nada demais, mas Xiaoling Du de repente comentou:
— Flor Pequena, você realmente tem talento para prever as coisas. Quem você prevê, acaba chorando.
Hum... parecia mesmo que era assim.
Flor Pequena sorriu, sem se importar:
— Então não prevejo mais para vocês.
— Não faz isso, Flor, prevê pra gente sim! Você acerta tanto, eu me rendo — disse Meimei Xiong, que já havia parado de chorar e agora brincava.
Bela Lu estava com o rosto um pouco fechado e respondeu apenas por obrigação:
— Pronto, pronto, vamos estudar direito, chega de bobagens. Vocês não querem passar no vestibular? Meimei é que é firme, verdadeira dama: mantém a compostura mesmo na tentação.
— Jiao Jiao, não fala assim, estou arrasada! Não, não, vou transformar minha tristeza em apetite. Flor, vamos, te convido para comer frango frito. Os outros não venham, não tenho dinheiro para todo mundo.
Meimei Xiong era uma garota bem pé no chão. Flor Pequena, embora tenha saído com ela do dormitório, não deixou que ela gastasse com frango frito, algo desnecessário, e aceitou dividir um prato de macarrão frio de dois yuans. Mas Flor Pequena impôs uma condição:
— Combinado, daqui pra frente todos os seus cadernos de cada matéria vão virar frango frito, tenho que consultar sempre. Perdi muitas aulas, preciso recuperar.
— Pode ser, pode ser, mil vezes pode ser! Flor, você é mesmo uma ótima pessoa. Quando estivermos na faculdade, vou trabalhar e ganhar dinheiro, aí sim vou te pagar um frango frito — Meimei Xiong sorriu, encantadora.
Ela tinha um ótimo caráter, traços delicados, pele clara; tirando o fato de ser gordinha, não tinha qualquer outro defeito. Pelo visto, Jianjun Lang tinha mesmo bom gosto.
...
Assim, Flor Pequena acabou se integrando ao oitavo ano do cursinho, mesmo não sendo próxima de muitos, pelo menos conhecia alguns, além do grupo da antiga turma dois. Haibin Zhu cuidava bastante delas, frequentemente lhes dava uma atenção extra.
Na primeira semana de aulas, o cronograma já estava cheio. O cursinho era focado em exercícios e estudos individuais, mas sempre que o sinal tocava, todos se comportavam razoavelmente.
Essa era a marca da Escola Secundária de Montanha de Arroz, famosa pela gestão quase militar, com cada minuto das alunas rigorosamente controlado.
Flor Pequena gostava muito desse clima de estudo: ocupada, ninguém ficava à toa, nem desperdiçava tempo. Afinal, os professores faziam inspeções surpresas na disciplina da turma; conversar ou fazer outra coisa durante a aula rendia chamada de atenção pública.
Só Wang Zhi e Bela Lu, na mesa de trás, eram mesmo ousados: frequentemente de cabeça encostada, mãos dadas, sussurrando entre si. Eles nem eram colegas de carteira, mas como as mesas estavam juntas, ficavam lado a lado.
Até a professora Ge, conhecida por ser rígida com namoros precoces, fazia vista grossa para eles. Diziam que Wang Zhi tinha contatos influentes: quando o filho da professora Ge se meteu em problemas e foi preso, o pai de Wang Zhi que resolveu tudo. Professores também são humanos: depois de receberem favores, acabam sendo mais flexíveis.
Consta que a professora Ge até conversou com o pai de Wang Zhi sobre o namoro, mas os pais não se importavam; o máximo que ela podia fazer era elogiar o bom gosto do rapaz por escolher uma namorada tão bonita.
Pena daqueles que sentavam perto de Wang Zhi, pois acabavam sendo afetados pelo namoro escancarado do casal. Com dezessete, dezoito anos, cheios de hormônios, ver os dois de mãos dadas, rindo e cochichando, acabava mexendo com a cabeça de todos.
Xuemei Dong, por exemplo, já não conseguia se conter e olhava para Haibin Zhu de modo diferente, sempre tentada a tomar alguma atitude.
Por sorte, Flor Pequena era muito tranquila. As crianças da sua vila amadureciam cedo, alguns já namoravam desde o ensino fundamental, e isso nunca a afetou. Chegou até a duvidar se não tinha aversão aos rapazes: não sentia atração alguma, achava-os até desagradáveis e superficiais — dez em cada nove tinham chulé!
Claro, com exceção de Huai Chu. Ele já era adulto, estava estagiando no hospital, praticamente trabalhando já. E, além disso, não tinha chulé e mantinha o quarto sempre limpo.
Pensando nisso, Flor Pequena, no sábado de manhã, saiu para correr, revisou algumas palavras em inglês, tomou café da manhã e seguiu para o dormitório de Huai Chu no hospital do condado.
Dessa vez, ela foi de propósito um pouco mais tarde, para não chegar cedo demais e acordá-lo.
O que ela não sabia era que Huai Chu também estava receoso com essa menina madrugadora: acordou pouco depois das cinco, lavou-se, arrumou o quarto, e Flor Pequena não aparecia.
Huai Chu pensou: essa garota não fala nada, será que ficou sem graça de vir? As notas dela estavam um pouco baixas, ele precisava ajudá-la a recuperar, afinal, ela era sua salvadora.
Além disso, os momentos ao lado de Flor Pequena eram os mais leves para Huai Chu. Se não a tivesse conhecido, se não soubesse que havia alguém que ele não conseguia entender completamente, talvez já teria desmoronado naquela época.
Flor Pequena jamais entenderia que, para Huai Chu, ela era muito mais importante do que imaginava.
Pensando nisso, Huai Chu vestiu uma roupa esportiva e saiu para correr, indo em direção à Escola Secundária de Montanha de Arroz.