Capítulo 37: O Segredo do Irmão Mais Novo
Os dois estavam absortos em seus próprios pensamentos, cada um perdido em suas elucubrações, e o silêncio no quarto não lhes parecia desconfortável. Muito pelo contrário, Dona Caetana, que acabara de servir uma tigela de mingau de milho, entrou no cômodo e viu os dois jovens fitando-se em silêncio, numa cena que lhe aqueceu o coração.
Considerando que Manuela ainda era muito jovem, Dona Caetana pigarreou levemente, interrompendo a linha de pensamentos dos dois. Sabia que os jovens eram tímidos e, por isso, não quis gracejar; apenas entregou o mingau nas mãos de Joaquim:
"Manuela, coma um pouco, por ora. Guardei a carcaça de galinha de ontem, vou preparar um caldo para você."
Ao entregar o mingau a Joaquim, queria, claramente, que ele alimentasse a menina. Era evidente que desejava ver Joaquim cuidando dela! Dona Caetana, com suas intenções transparentes, não incomodava Joaquim, pelo contrário; já estava acostumado, e, apesar de suas pequenas artimanhas, ela era uma senhora bondosa.
Joaquim, já habituado àquela rotina, começou a alimentar Manuela, o que a deixou um tanto constrangida, mas não recusou; corada, tomava o mingau colherada a colherada.
"O que estava pensando tão concentrada?", Joaquim não se conteve e perguntou.
"Eu estava imaginando se a mente de um gênio é mesmo diferente da nossa. Gostaria de abri-la para ver como funciona."
Hein? Então, de todas as possibilidades, ela queria mesmo era abrir minha cabeça para dar uma olhada? As mulheres são mesmo assustadoras!
Joaquim riu baixinho: "Não se pressione tanto com os estudos. Muitas coisas são assim: para quem não sabe, tudo parece difícil; quem sabe, acha fácil. O segredo é encontrar o método certo, e aprender deixa de ser um bicho de sete cabeças."
Ao ver o olhar de Manuela, como quem diz "você está me enrolando", Joaquim continuou:
"Você viu da última vez, minha habilidade nas lutas não é ruim, certo?"
Manuela, com a boca cheia de mingau, apenas assentiu.
"Eu só comecei a treinar no último ano do ensino médio. Fui para um centro de treinamento, praticava uma ou duas horas por dia. Com o tempo, melhorei. Se não servisse para mais nada, pelo menos fortaleceu minha saúde."
Fortalecer a saúde? Suas habilidades já beiram as de um personagem de romance de artes marciais! Uma ou duas horas por dia? Está tentando me enganar!
Manuela só pôde suspirar: "Não basta ser gênio nos estudos, ainda tem talento em tudo. Assim ninguém tem chance!"
Joaquim sorriu; as garotas de hoje em dia gostavam mesmo de ironizar. Ele já estava acostumado com comentários desse tipo.
...
A doença de Manuela veio e foi embora tão rápido quanto chegou. No dia seguinte, a febre baixou e ela já se sentia muito melhor. O doutor Luís até lhe receitou alguns remédios para gripe, mas ela acabou não tomando. Sabia como seu corpo reagia: remédio não adiantava, o melhor era não se meter em confusão.
Quando a casa estava vazia, à tarde, seu primo Caio, finalmente, encontrou uma oportunidade de ir até o quarto de Manuela, trazendo uma embalagem de confeitos de chocolate que comprara na vendinha.
"Se tem algo pra dizer, diga logo", Manuela percebeu logo pelo jeito dele que não viera à toa, e abriu o pacote de confeitos sem cerimônia.
Apesar das lembranças da vida anterior, que a faziam desgostar do primo, ainda assim eram família, e às vezes não podia simplesmente ignorá-lo.
Caio hesitou, olhou de um lado para o outro, fechou bem portas e janelas para garantir que não seria ouvido. Depois de tudo isso, ainda relutava em falar, apenas fitando Manuela.
Manuela pensou: será que pareço alguém que adivinha tudo? Vai direto ao ponto!
"O que houve? É sobre aquela sua namoradinha?"
"Janaína nem é minha namorada! Uma garota daquele tipo, eu já dei um basta faz tempo! Você não sabe, mas ela não ficava só com o Rafael. Foi bom eu ter desmascarado, senão essa ordinária teria enganado muito mais gente."
Ao falar de Janaína, Caio mostrava até certo orgulho. Se não fosse a esperteza da prima, ele nunca teria descoberto as tramoias da garota.
"Manu, você não sabe, tem um rapaz do ano acima do nosso, o Leandro, aquele da cicatriz na orelha. Ele mesmo disse que já ficou com a Janaína. Ela nega, mas ele contou tudo em detalhes, tenho certeza que é verdade."
Manuela ficou sem fala. Ela também era garota, e ouvir fofocas desse tipo do primo não era nada agradável.
Mas Caio nunca a enxergou como uma menina comum; para ele, Manuela era quase como um ogro, esse tipo de coisa era trivial.
"Você só queria me contar isso? Se não combina, não fique junto, e, da próxima vez, abra melhor os olhos."
"Eu até tento, mas e se meu pai não enxerga direito?", Caio resmungou, lançou um olhar para as portas bem fechadas, mordeu o lábio e finalmente disse:
"Manu, descobri uma coisa séria, não tenho coragem de contar pra ninguém, só você pode me ouvir."
"O que é? Fala logo."
"Mas tem que prometer que vai guardar segredo", Caio hesitou.
"Então é melhor nem dizer. Não me interesso pelos segredos dos outros", respondeu Manuela, arqueando uma sobrancelha. Detestava se envolver em mistérios alheios, especialmente dos quais não gostava.
Ela realmente não gostava do primo.
"Não faz isso, Manu. Você pode não ser minha irmã de sangue, mas crescemos juntos. Sempre te considerei da família", Caio insistiu.
Manuela soltou uma risada sarcástica: "Melhor não. Sua irmã de verdade não é a Clara?"
A voz de Caio tornou-se ansiosa: "Clara não dá, ela é muito fofoqueira. Manu, é sério, descobri um grande segredo: talvez eu não seja filho do meu pai."
"Ah, então você caiu do céu? Ou saiu de uma pedra? Anda assistindo muito conto de fadas", Manuela riu.
"Não, Manu, me escuta. Na quarta-feira, por volta das quatro da tarde, não estava me sentindo bem, fugi da escola pra dormir em casa. Quando cheguei perto da porta, ouvi vozes dentro de casa.
Normalmente, nesse horário, meu pai está na loja, minha mãe às vezes volta pra casa. Mas ouvi a voz de um homem e achei estranho.
Aí fui espiar pela janela e vi minha mãe dando dinheiro para um homem, pedindo pra ele ir embora e nunca mais voltar."
Caio suspirou, desapontado:
"Na hora, fiquei irritado. Quem era esse homem? Achei que fosse um aproveitador querendo o dinheiro da minha mãe, então fiquei esperando na esquina pra tirar satisfação.
Só que, quando ele saiu e vi o rosto dele, perdi toda a vontade de brigar. O cara se parecia muito comigo. Acho que ele pode ser meu verdadeiro pai."
"Ou talvez seja seu tio?", sugeriu Manuela.
"Impossível, você conhece todos os meus tios."
Pensando bem, Manuela percebeu que Caio realmente não se parecia muito com os supostos pais – era mais delicado e tinha traços diferentes.
Ela mesma não sabia desse segredo. Em sua vida anterior, não lembrava de nada estranho sobre Dona Lúcia.
Ao refletir, percebeu que havia, sim, algo fora do comum. A avó sempre dizia que Dona Lúcia não prestava, só sabia guardar dinheiro escondido e pegar dinheiro da loja. Como Cândido era muito tranquilo, ninguém se importava.
Mas, na verdade, Dona Lúcia não parecia ter tanto dinheiro, não gastava à toa, nem ajudava a família. Para onde ia esse dinheiro, então?
Segundo a explicação de Caio, tudo fazia sentido: ela dava o dinheiro ao amante.