Capítulo 5: Montanha dos Lamentos Fantasmagóricos
Chu Huai sorriu ao olhar para Hua Xiaoman.
— Você é a Hua Xiaoman, certo? Não precisa se preocupar, nem ter medo. Ouvi do doutor Miao sobre a sua situação e, temendo que as superstições da vila deixassem marcas psicológicas em você, resolvi passar para ver como estava. Tem um tempo agora? Pode me acompanhar até o posto de saúde? Preciso fazer um exame mais detalhado em você.
— Está bem.
Hua Xiaoman assentiu, seguindo Chu Huai à frente, com um ar delicado e frágil. Chu Huai também se sentia dividido: a menina acabara de se recuperar de uma doença, parecia que cairia ao menor sopro de vento. A vila tinha acabado de receber neve, o chão estava escorregadio e mal varrido; se ela caísse, ele se sentiria responsável.
Ele até pensou em ajudá-la, mas hesitou. Uma moça já crescida, ainda por cima bonita, e ele, um homem feito, estender a mão poderia não parecer adequado.
Pela terceira vez, Chu Huai virou-se para olhar Hua Xiaoman e, sem conseguir resistir, tirou o sobretudo de lã que usava depois da encenação e colocou sobre os ombros dela.
A jovem parecia tão frágil que, se adoecesse de novo por causa do frio, a culpa seria dele!
O casaco era bem grosso e ainda guardava o calor do corpo dele.
Hua Xiaoman não recusou; apertou silenciosamente a gola, envolveu-se no casaco e seguiu o caminho, pensando na promessa de vinte anos depois. Infelizmente, isso pertencia a uma vida passada; agora, eles mal se conheciam.
Assim, seguiram um atrás do outro em direção ao posto de saúde da vila.
Quanto às pessoas atrás deles, Hua Xiaoman ainda podia ouvir sua avó, cheia de energia, chorando e xingando ao mesmo tempo.
Aquelas pessoas mereciam mesmo ser repreendidas, tão más que eram. E nem precisava se preocupar com a avó; Dona Cao era famosa na vila por sua língua afiada, ninguém se atrevia a provocá-la sem motivo. Quem aguentaria o escândalo dela sentado à porta de casa?
Além disso, os idosos têm seus privilégios; ninguém ousa tocá-los. Se alguém se exaltasse e a empurrasse, a velha logo se jogaria no chão, gemendo e fingindo um desmaio para acusar a pessoa.
Só Liu Yuzhi e Cao Guozhu, por serem parentes, teriam coragem de ser mais duros com a velha. Mas, como Hua Xiaoman mencionou a caderneta de poupança, os dois ainda estavam dependentes dela; antes de pôr as mãos no dinheiro, fariam de tudo para protegê-la.
Na verdade, no fundo, a avó não queria agir assim. Mas, já idosa, só podia proteger a neta desse modo. Se não fosse por ela, numa vila pequena e com a neta tão bonita, já teriam se aproveitado dela há muito tempo.
...
No posto de saúde, normalmente havia apenas um atendente, provavelmente conhecido de Chu Huai, que até lhe deixara as chaves.
Chu Huai abriu a porta e fez um gesto para que ela entrasse.
Hua Xiaoman entrou sem hesitar, tirou o sobretudo e o entregou a Chu Huai com um agradecimento. O local era aquecido por um fogareiro de ferro, o que o tornava bem confortável.
Chu Huai aceitou o casaco com um aceno e indicou para que ela se sentasse à sua frente.
Depois que Hua Xiaoman se acomodou, Chu Huai lhe serviu um copo de água quente e a encarou enquanto ela mantinha a cabeça baixa, criando um clima de silêncio que a deixou nervosa sem motivo.
Após observá-la por alguns instantes, Chu Huai falou de repente:
— Aquilo do Bajie, você estava fingindo, não estava?
— O quê? — a voz de Hua Xiaoman tremeu levemente.
Teria sido direto demais? Chu Huai franziu a testa, querendo suavizar o clima, mas, ao abrir a boca, foi novamente direto ao ponto:
— Você é muito boa, tem uma vontade forte. Se não tivesse vacilado no final, eu quase teria acreditado na sua história.
— Doutor Chu, do que está falando? Não entendi.
Nesse momento, Hua Xiaoman já não estava mais nervosa; tinha clareza do que fazer: continuar fingindo. Se Liu Yuzhi e Liu Cuiying sabiam fingir tão bem, ela, que sempre fora uma boa moça e ainda mais bonita que as duas, tinha uma vantagem natural. Se não conseguisse manter a pose, ainda podia apelar para o choro!
Chu Huai, percebendo o que ela pensava, não insistiu, apenas sorriu.
— Tudo bem, não vou perguntar mais. Se eu digo que você não está possuída, então não está. Não dê ouvidos a essas superstições. Você é uma estudante do ensino médio, deve saber que essas crenças antigas não têm fundamento.
— Sim.
— A propósito, seu apelido é Nannan? Pronuncio direito? São esses os caracteres?
Chu Huai, com uma caneta-tinteiro, escreveu “Nannan” em uma folha em branco. Sua caligrafia era bonita e ordenada, diferente do garrancho comum entre médicos.
— Sim — assentiu Hua Xiaoman.
— Quem escolheu esse nome para você?
— Minha avó.
Chu Huai assentiu lentamente, olhando para Hua Xiaoman, e de repente perguntou:
— Dona Liu me contou sobre o caso da possessão, mencionou que dez anos atrás você foi sozinha ao Monte do Choro dos Fantasmas. Isso aconteceu mesmo?
O Monte do Choro dos Fantasmas era uma colina além da vila deles. Na verdade, não havia fantasmas ali; as trilhas eram apenas confusas e fáceis de se perder. Até os moradores locais só se aventuravam nas margens, sem jamais se aprofundar.
Havia também uma velha lenda: quem pernoitasse lá ouviria o choro dos fantasmas, o que só alimentava o temor.
Na verdade, os estudiosos já haviam desvendado o mistério: o tal choro não passava do canto das corujas.
Hua Xiaoman não sabia por que Chu Huai falava sobre o Monte do Choro dos Fantasmas. Como todos na vila conheciam a história, não havia motivo para mentir:
— Dona Liu já está idosa, a memória falha. Fui ao Monte do Choro dos Fantasmas só uma vez, faz oito anos.
— Também era inverno?
— Era verão.
— Entendo, oito anos atrás… você tinha só dez anos? Sabia se orientar? Alguém te guiou?
— Não, fui sozinha. Acho que sou boa com direções, não achei difícil encontrar o caminho.
Hua Xiaoman abaixou a cabeça, segurando o copo de água com as duas mãos e olhando para elas.
Suas mãos eram realmente ásperas, algumas rachaduras provocadas pelo frio, de aparência quase assustadora.
Chu Huai sorriu:
— O campo magnético do Monte do Choro dos Fantasmas é diferente do normal, por isso confunde a visão e faz as pessoas se perderem. Às vezes, justamente as crianças de coração puro, guiadas pelo instinto, conseguem achar o caminho mais facilmente.
— Sim — respondeu Hua Xiaoman, com um olhar de admiração.
— Vocês, universitários, sabem de tudo mesmo. Acertou em cheio. Naquele tempo, meus pais tinham acabado de falecer, eu chorava tanto que meus olhos estavam inchados, minha avó fez um curativo nos meus olhos, eu mal enxergava, só fui andando ao acaso. O monte é realmente perigoso, os caminhos são ruins. Se eu estivesse sozinha, talvez não tivesse conseguido sair. Encontrei um forasteiro perdido e seguimos juntos até a saída. Pena que eu estava com os olhos cobertos e não consegui ver o rosto dele. Mas tenho certeza de que não era nenhum fantasma. Ele até me carregou nas costas por um tempo, era quente, era de verdade.
Chu Huai ficou surpreso, mordeu os lábios e não conseguiu evitar de olhar para Hua Xiaoman por mais um tempo.
Ela era muito bonita, até mais do que algumas estrelas de cinema. O rosto limpo, sem uma gota de maquiagem, transmitia uma sensação agradável.
Só parecia um pouco medrosa, talvez até temesse ele. Mas o que havia de assustador nele?
Chu Huai, que viera à vila fingindo ser um falso sacerdote, ouvira muitos comentários sobre Hua Xiaoman. Se não fosse pela avó chamando-a de Nannan, jamais teria associado a moça tímida de cabeça baixa com a garotinha ousada de anos atrás, aquela que cantava nas montanhas e ainda dizia que se casaria com ele algum dia.