Capítulo 38: Investimento
— Então, ele se parece contigo, sai assim mesmo, e ninguém na vila comenta nada? — perguntou novamente Flor Pequena.
— Ele usava um chapéu de aba larga e óculos de armação preta, parecia bem educado, quase como um intelectual. Acho que ninguém ousou olhar muito de perto. Eu só consegui ver o rosto dele porque, quando saiu de casa, minha mãe o expulsou, os óculos e o chapéu caíram, aí pude ver bem como ele era — continuou Cadu Alegre.
— Depois que ele ajeitou os óculos, já não parecia tanto comigo. Agora, fico até com medo de colocar óculos, parece que, se eu usar, vou ficar igual a ele.
— Você nem é míope, por que fica usando óculos? Por diversão ou acha bonito? — retrucou Flor Pequena, sem rodeios.
— Irmã, o que você acha que eu devo fazer? — perguntou Cadu Alegre, desanimado.
Com esse estado de espírito? O tio e a tia ainda esperam que ele consiga passar para o ensino médio. Difícil entender o que se passa na cabeça deles.
Flor Pequena olhou para Cadu Alegre e, mesmo assim, deu um conselho:
— Não sei o que você pensa, mas se quiser entender essa história direito, tenta seguir esse homem ou topar com ele, ver como ele reage. Procure conversar mais com sua avó, ela fala demais, quem sabe acaba soltando alguma coisa. E, olha, teu tio te criou até agora, sempre foi bom contigo, te deu boa comida, roupas, ainda te paga os estudos. Aquele homem só aparece pra pedir dinheiro da tua mãe, parece não ter grande coisa a oferecer, não dá pra contar com ele. Você já está crescido, tem que decidir por si mesmo, não precisa que eu te ensine, afinal, já tem suas próprias ideias.
— Hum — assentiu Cadu Alegre, cabisbaixo.
Quando Cadu Alegre saiu, Flor Pequena ficou ainda mais aflita. Aquela casa estava mais perigosa; se Cadu Alegre não fosse mesmo filho do tio, ele não protegeria de verdade a avó. Se ela continuasse na vila, era arriscado para ela.
Mas Flor Pequena não tinha dinheiro nem condições de levar Dona Cadu consigo.
Na classe, por exemplo, o Zuca Habil, não morava no dormitório, alugava um quarto perto da escola e a avó morava com ele, cozinhava, lavava roupa, garantia a alimentação e dava mais tranquilidade para estudar, melhor que no dormitório. Mas isso é porque os pais dele têm dinheiro e podem fazer isso.
E Flor Pequena, o que tinha?
Espera aí, ela tinha dinheiro!
Flor Pequena lembrou do caderninho de poupança. Na vida passada, os avós sempre depositavam dinheiro no caderninho. Quando ela finalmente encontrou, já havia uma quantia considerável.
Mas agora, não sabia quanto havia ali. Se fosse bastante, poderia investir em ações. Mesmo sem lembrar dos investimentos de curto prazo, ela sabia de empresas que dariam muito lucro. Por exemplo, o Grupo Perfeito, de jogos, e a Imobiliária Mundo, ambos sempre estáveis na bolsa, crescendo como uma bola de neve. Agora, estavam começando, os preços das ações deviam estar baixos.
Com isso na cabeça, Flor Pequena procurou Dona Cadu, inventando um pretexto:
— Vó, acho que o tio e a tia não vão mais apoiar meus estudos. Quando era pequena, ouvi minha mãe dizer que tinha um caderninho de poupança, era pra usar quando fosse estudar. Podemos pegar pra ver quanto tem?
— Que caderninho, menina, não escute as bobagens da sua tia! — reagiu Dona Cadu, negando de imediato.
Ela esqueceu que quem falou primeiro do caderninho não foi a tia, mas Flor Pequena.
Vendo Flor Pequena com o rosto aflito, Dona Cadu ficou com pena. Por essa neta, não conseguia dizer não. Entrou no quarto, pegou de dentro do seu casaco velho um embrulho de pano vermelho, e dentro dele, um caderninho de poupança com capa vermelha.
Dona Cadu entregou o caderninho para Flor Pequena, não resistindo ao conselho:
— Pequena, eu já tenho idade, não sei quando vou partir. Você já tem dezoito anos, é uma moça feita, posso te dar esse dinheiro, mas não gaste de qualquer jeito. É pra faculdade, se gastar agora, nunca vai ter futuro. Mulher, se não estuda pra sair daqui, passa a vida presa nessa serra, e aí está perdida.
— Vó, eu sei — assentiu Flor Pequena. — Pode ficar tranquila, vou guardar direitinho, ninguém vai roubar. Além disso, a conta está no meu nome, só eu posso sacar, mesmo que levem, não conseguem tirar dinheiro.
— Tem certeza que não dá pra sacar? — Dona Cadu ainda não se sentia segura.
— É verdade, se não acredita, pode perguntar para alguém da cidade.
Dona Cadu era esperta, nunca perguntava para conhecidos. Preferia ir à cidade e tirar dúvidas com funcionários, nunca com gente da vila. Afinal, desconhecidos não têm motivo pra enganá-la, ao contrário do filho e da nora, sempre de olho no dinheiro dela.
Dessa vez nem precisou ir à cidade: foi ao posto de saúde, chamou Chu Huai pra jantar e aproveitou para perguntar.
Chu Huai explicou pacientemente:
— No banco, tem cartão e caderninho de poupança. Com o cartão, basta a senha para sacar. Com o caderninho, precisa ir ao balcão com o documento, conferem identidade e até impressão digital. Ninguém além do dono pode sacar, mas podem depositar dinheiro usando o número da conta.
Com essa explicação, Dona Cadu finalmente sossegou: sua neta era uma menina direita, não gastava à toa.
Não? Flor Pequena voltou à escola um dia antes, no sábado à tarde, foi com Chu Huai para a cidade, e depois foram ao banco.
E então, Chu Huai viu Flor Pequena abrir uma conta de investimentos, comprando dezenas de milhares em ações!
Chu Huai ficou pasmo, quase desejando ter poderes especiais para descobrir o que se passava na cabeça da menina.
Consumista? Não, era bem comportada e responsável, Dona Cadu estava certa. Mas como uma menina dessas comprava tantas ações?
E Flor Pequena explicou:
— Nem imaginei, meus avós ainda depositavam dinheiro pra mim. Nunca os vi, só lembro de conversar por telefone internacional quando era criança. Depois que minha mãe se foi, nunca mais tivemos contato, achei que tinham me esquecido. Mas o saldo estava alto. Você tem aquele livro de economia na estante, diz que dinheiro sem investimento vai se desvalorizar, então peguei uma parte para investir em ações. Fique tranquilo, ainda sobrou dinheiro suficiente pra faculdade.
Na verdade, Flor Pequena queria alugar um quarto perto da escola e trazer a avó. No caderninho, havia um saldo de seis dígitos!
E os avós eram generosos, depositavam a cada seis meses, e nos últimos dois anos, cada depósito era de milhares.
Flor Pequena nunca conheceu os avós, não sabia como eram, nem sua situação. Mas, sendo família, continuaram enviando dinheiro, não esqueceram dela. Essa consideração, Flor Pequena guardava com gratidão no coração.