Capítulo 90: Reconciliação
De manhã, ao voltar para casa, Pequena Flor não continuou lendo. Em vez disso, ajudou Dona Cacilda a escolher legumes, varrer o quintal, lavar roupas e afins.
Chu Huai também não se fazia de estranho; ajudava a varrer, a lavar os legumes, acender o fogo e, depois, ainda assumiu a cozinha para preparar berinjela caramelizada para Dona Cacilda.
Era um prato requintado típico da cidade, o qual Dona Cacilda jamais fizera e achou bastante curioso. Quando era jovem, tinha mãos habilidosas, e mesmo agora, já idosa, seus olhos e mãos continuavam firmes, aprendendo rápido e acompanhando Chu Huai na preparação.
A tal berinjela caramelizada levava bastante óleo e açúcar, um luxo impensável pelos mais velhos do vilarejo antigamente. Mas, nos últimos anos, a vida havia melhorado, e o uso de óleo já não era tão contido. Especialmente em Ponte do Riacho, onde havia fartura de terras e podiam plantar sementes de girassol negras para, no outono, levá-las ao lagar e extrair o próprio óleo.
A família se sentava animadamente para a refeição, quando Cacildo chegou pontualmente, sem muita conversa. Sentou-se à mesa, pegou um pedaço de jornal cortado, enrolou seu tabaco caseiro, quase igual aos cigarros comprados, acendeu um fósforo e pôs-se a fumar, soltando baforadas.
O cheiro do tabaco caseiro era ainda mais forte e áspero que o dos cigarros comprados, chegando a ser incômodo. Pequena Flor franziu a testa, mas não disse nada — todos estavam acostumados, pois quase todos os homens do vilarejo tinham esse hábito, preferindo esse tabaco forte.
Quando quase todos os pratos estavam servidos, Dona Cacilda ralhou: “Recebendo visita e ainda vai fumar? Deixa tudo cheirando a fumaça! O menino Chu, que veio da cidade, nem fuma. Esse teu vício é grande demais, não aguenta ficar um minuto sem cigarro?”
Cacildo não retrucou, apenas apagou o cigarro obediente.
Quarentão como era, Dona Cacilda não insistiu, e logo passou a apresentar a berinjela caramelizada feita por Chu Huai.
O ambiente estava alegre, e Pequena Flor também se sentia bem-disposta.
Foi então que alguém bateu à porta.
Pequena Flor levantou-se depressa e foi abrir o portão do quintal.
Para sua surpresa, era Lídia e, com ela, Caio. Lídia, um pouco sem graça, disse:
“Ouvi mamãe comentar que você voltou, Pequena Flor, e pensei em te chamar para almoçar conosco. O Caio também sente saudades da irmã, faz tempo que não te vê.”
Enquanto falava, lançava olhares para dentro da sala, claramente sabendo que Cacildo sempre vinha comer ali e, de propósito, viera buscá-lo.
Dona Cacilda, que entendia tudo, vendo que Cacildo não dispensou a visita, chamou:
“Lídia, já que veio, sente-se e coma conosco. Minha menina já tinha começado a comer comigo, não tem porque fugir. Não importa se sente falta da Pequena Flor ou do marido, agora fiquem, está certo?”
“Mãe, então não vamos recusar.” Caio, mais maduro, foi ao quintal e trouxe dois banquinhos de madeira.
Dona Cacilda serviu-lhes arroz e pôs mais dois pares de hashi ao lado de Cacildo.
Ele não disse nada, só se concentrou na comida. O mesmo fez Lídia, sem saber como puxar assunto, cabisbaixa, acompanhada por Caio, também calado.
O trio só comia, nem pegava muitos acompanhamentos.
Pequena Flor tomou a iniciativa de perguntar a Caio: “Como foi a prova?”
“Foi razoável.” Caio ponderou que talvez não tivesse atingido o padrão da irmã e logo explicou:
“A nota para o ensino médio ficou longe, mas passei para a escola normal, vou poder ser professor de primário depois de formado.”
“Isso é ótimo. Professor é um emprego seguro.” Pequena Flor conversou um pouco com Caio, mas não tocou em assuntos delicados.
Após a refeição, Lídia, ainda desconcertada, disse que ia embora, mas Dona Cacilda insistiu para que ficassem.
Cacildo também não saiu; continuou a fumar no quintal. Pelo jeito, queria mesmo se reconciliar com Lídia.
Afinal, tudo aquilo já era passado, e Lídia não fora responsável por nada, apenas vítima de uma situação que não pôde controlar. Ficar remoendo o passado não levava a nada — sempre dissera Dona Cacilda que Cacildo não agia como homem por isso. O problema era que Caio não era seu filho biológico, e isso pesava para Cacildo. Para piorar, naqueles tempos, o controle de natalidade era rígido. Após dar à luz, Lídia fora esterilizada, e mesmo que a idade permitisse, não poderia mais ter filhos.
Criar um filho de outro por tantos anos e continuar a fazê-lo? Era isso que se passava.
Caio, pelo menos, cresceu com mais coragem após esses dias difíceis. Percebendo o clima estranho, de repente ajoelhou-se diante de Cacildo e disse:
“Pai, vai me abandonar? Já pensei muito. Não me importa quem é meu pai de sangue, você me criou, isso não é fácil. Quero cuidar de você na velhice, e meus filhos também vão te chamar de avô. Não reconheço outro pai, só você.”
“Já está um homem feito, quase trabalhando, pra que ajoelhar? Levante logo.”
“Só levanto se você prometer que não vai me abandonar.”
“Quem disse que quero te abandonar?”
“Então eu e a mãe podemos voltar a morar juntos?”
“Sim.”
“Então vamos voltar pra casa. A mãe vive reclamando que você sozinho deixa tudo de pernas pro ar, a casa já deve estar uma bagunça, talvez até parecendo canil. Pai, deu comida pro Totó?”
“Hoje esqueci...”
“Vou pedir pra vovó separar um pouco de arroz.”
E assim, num instante, a família reconciliou-se e voltou para casa em meio à agitação.
Quanto ao divórcio, nem tinham formalizado os papéis. Mesmo pensando em se separar, não tinham dado entrada no processo. Agora, tudo ficou mais fácil.
Dona Cacilda, sorridente, comentou com Pequena Flor:
“Lídia vai sossegar por um tempo. Ela sempre foi mandona, tirando seu tio, quem mais a aturaria? Mas seu tio é mesmo submisso, precisa de uma mulher que mande nele.
Cada um deve cuidar da própria vida. Vir aqui todo dia pedir comida não dá, nem lembra de alimentar o cachorro.”
Pequena Flor sorriu, sem comentar mais.
À tarde, sem grandes afazeres, ela voltou a estudar. Ainda que o vestibular estivesse próximo, não conseguia largar os livros — era um hábito arraigado dos estudantes do ensino médio de sua geração.
Chu Huai foi de carro à cidade, comprou algumas carpas frescas e tofu, e pediu para Dona Cacilda preparar uma sopa para Pequena Flor. Trouxe também um pouco de carne, mas não muita, pois no verão, sem geladeira, não dava para guardar.
Dona Cacilda realmente cozinhava muito bem. A sopa de carpa com tofu saíra branquinha, de dar água na boca. Pequena Flor e Chu Huai adoravam.
No jantar, a família de Cacildo não apareceu, o que deixou o ambiente mais calmo. Chu Huai, sendo bastante conversador, entretinha Dona Cacilda com histórias de diferentes lugares, arrancando-lhe gargalhadas.
No meio da noite, Caio passou por lá trazendo um prato cheio de frango ensopado e amendoins fritos, tudo preparado por Lídia, para incrementar a refeição.
Dona Cacilda aceitou de bom grado. Agora que o casal estava reconciliado, Lídia ainda era sua nora, e Caio, seu neto.
Neto de criação nunca é tão próximo quanto uma neta de sangue, mas fazia parte da família.