Capítulo 91: Como era de se esperar, algo aconteceu
Flor Pequena só ficou em casa por um dia. Dona Cao preparou muitos alimentos para ela levar: pães recém-assados, nabo seco frito com carne moída, algumas espigas de milho cozidas e, ao se despedir, ainda enfiou duas melancias enormes no carro de Chu Huai.
No quintal de Dona Cao não havia plantação de melancia; disse que foi o velho Zhang, da entrada da aldeia, quem lhe deu. Flor Pequena não tinha o que dizer, afinal, a avó sozinha não conseguiria consumir tudo.
Contagem regressiva para o vestibular — sete dias!
A cada vez que pensava nisso, Flor Pequena sentia que, ao passar na universidade, realmente ficaria cada vez mais distante de sua avó. Não pôde evitar segurar as mãos da avó:
— Vovó, quando eu for para a universidade, venha comigo, sim? Lá posso trabalhar, ganhar dinheiro e cuidar da senhora.
A outra mão da avó acariciou de leve as costas da mão de Flor Pequena:
— Está bem, minha netinha é mesmo uma menina dedicada. O doutor Chu é um bom homem, mas você, não precisa ser tão teimosa e pensar só em si. O melhor seria vocês dois irem juntos para a universidade, pois mesmo o melhor dos sentimentos esfria com o tempo e a distância.
— Eu sei, vovó. Vá tranquila para casa, está tudo bem comigo.
O tempo estava seco, a brisa da noite era fresca e, com o carro ganhando velocidade, o vento ficava ainda mais agradável — especialmente com o teto aberto do carro de Chu Huai.
— Chu Huai, estou com vontade de comer espetinho de churrasco — disse Flor Pequena, sem saber de onde veio esse desejo repentino.
Na verdade, Flor Pequena não estava bem. De acordo com o sonho que tivera, se algo acontecesse com Lu Meijiao, deveria ser por essa hora. Elas estavam viajando, hospedadas numa pousada na montanha, dormiam cedo porque iam acordar às cinco da manhã para ver o nascer do sol.
Lu Meijiao era muito ativa, queria ver as estrelas. Flor Pequena só podia torcer para que ela tivesse lembrado de seu conselho e chamado mais alguém para acompanhá-la.
Flor Pequena comeu o churrasco e foi dormir; levou parte da comida para o dormitório e deixou as duas melancias com Chu Huai, pois no dia seguinte ainda teriam que estudar, podendo comer juntos.
Na tarde de domingo, Flor Pequena sentia-se inquieta e despediu-se cedo de Chu Huai para voltar ao colégio.
Ao chegar ao dormitório, viu que as colegas de viagem também haviam retornado, mas o quarto ainda estava quase vazio, apenas Xiong Meimei e Dong Xuemei estavam lá, arrumando as coisas de Lu Meijiao.
— Pequena, venha ajudar, Jiao Jiao caiu e quebrou a perna, está no ambulatório da escola.
— Vamos lá, quero ver como ela está — respondeu Flor Pequena, preocupada.
Mas isso não era o que acontecera em seu sonho. No sonho, Lu Meijiao havia sido violentada, mas não tinha quebrado a perna.
De certo modo, quebrar a perna era melhor do que sofrer um trauma tão profundo. Assim, talvez fosse menos doloroso. Flor Pequena preferiu pensar assim. No sonho, sentira que o destino de Lu Meijiao era demasiado cruel. Mas Flor Pequena não era uma deusa, não podia mudar as coisas.
Ao chegarem ao quarto do hospital, encontraram um grupo de garotas em volta de Lu Meijiao, cuja perna estava envolta em camadas de gaze, pendurada como um pedaço de madeira no suporte da cama.
No instante em que Flor Pequena entrou, Lu Meijiao, já abalada, desabou em prantos.
— Jiao Jiao — Flor Pequena sentiu uma tristeza inexplicável, talvez contagiada pela emoção da amiga.
— Saiam todas, quero conversar só com Pequena — Lu Meijiao, séria, dispensou as demais.
As colegas, sem jeito, saíram do quarto e fecharam a porta.
— Jiao Jiao, sua perna vai ficar bem? — Flor Pequena estava ansiosa, querendo perguntar outras coisas, mas sem saber como começar.
— Flor Pequena, você previu, não foi? Diz para mim, quem foi? Me conta, por favor! — Lu Meijiao estava visivelmente agitada.
Flor Pequena hesitou:
— Jiao Jiao, sei um pouco de leitura de rosto, percebi que ontem você teria azar. Tive medo de que algo ruim acontecesse e tentei impedir você de viajar, mas você não quis ouvir. Só pude torcer para que se cuidasse.
Eu não fui, então não sei o que aconteceu durante a viagem.
— Uhum — Lu Meijiao abraçou o travesseiro e chorou ainda mais:
— Ontem à noite, chamei Xuemei para ver as estrelas. Ela saiu dizendo que tinha algo importante — devia ser para encontrar Zhu Haibin —, fiquei sozinha olhando as estrelas. Não sei quem me atacou por trás e me desacordou.
Depois de mais de uma hora, Dong Xuemei voltou e me acordou. Fomos descansar. Só descobri no banho que estava sangrando e sentia o corpo exausto.
Lu Meijiao soluçava cada vez mais:
— Minha menstruação acabou dia quinze. Verifiquei tudo; acho que fui violentada, perdi a virgindade. Passei a manhã distraída, tropecei na montanha e quebrei a perna. Felizmente, Zhu Chengjun me carregou de volta.
O ocorrido não era exatamente igual ao do sonho, mas semelhante.
Lu Meijiao não sabia que o agressor era Zhu Chengjun, ainda o via como um salvador.
Com a mudança dos fatos, Flor Pequena já não sabia se realmente fora Zhu Chengjun o responsável.
Afinal, o lugar era isolado. Segundo Lu Meijiao, depois de tudo, quem quer que fosse, arrumou-lhe a roupa e até prendeu seus cabelos. Nem Dong Xuemei percebeu nada de estranho.
— Você chegou a perguntar à Xuemei? — indagou Flor Pequena.
— Não. Não consegui — Lu Meijiao chorava ainda mais, debruçada no ombro de Flor Pequena:
— Pequena, o que faço agora? Não tenho coragem de contar para ninguém, tenho medo de ser ridicularizada. Havia sangue embaixo de mim, Xuemei deve ter visto, não sei o que ela pensa. Pequena, o que faço? Estou apavorada, não tenho mais cara para encarar ninguém.
— Não tenha medo, não é sua culpa. Depois do vestibular, cada uma segue seu caminho, esqueça isso. Talvez tenha sido uma pedra do lado de fora, que machucou você e causou o sangramento.
É isso mesmo, Jiao Jiao, ouça-me, independentemente do que aconteceu, siga em frente. Se você não viu nada, finja que nada houve. E, mesmo que comentem, não admita nada.
— Sim, Pequena, me desculpe. Se soubesse, teria te ouvido.
As duas conversavam quando ouviram batidas na porta.
Flor Pequena fez um sinal para Lu Meijiao, que se enfiou debaixo das cobertas chorando, enquanto Flor Pequena abriu a porta.
Do outro lado estava Zhu Chengjun, alto, forte e um pouco tímido. Flor Pequena sentiu a raiva subir.
É difícil conhecer o verdadeiro coração das pessoas. Zhu Chengjun parecia sempre tão reservado, pouco falava com as meninas, mas era atencioso com Lu Meijiao. As colegas viviam dizendo que ela tinha vários admiradores secretos, e ele era um deles.
Jamais imaginara que ele pudesse fazer tal coisa!
— O que você quer? — perguntou Flor Pequena, seca.
Zhu Chengjun hesitou, nervoso:
— Eu... vim ver Lu Meijiao. Trouxe frutas para ela, pode entregar por mim?
— Está bem — Flor Pequena pegou as frutas e fechou a porta com força.