Capítulo 27 — A Língua que Ofende
— Hahaha, isso é hilário. Você vem me dizer que meu namorado vai mudar de ideia? Por acaso já sabe quem é o meu namorado? — Lu Meijiao estava visivelmente irritada, apontou para Hua Xiaoman e continuou a rir.
— Quem é?
— Hmph, para de bancar a sonsa. Você com certeza foi investigar, já sabe que o pai de Wang Zi é diretor, né? Você, vinda do interior, já vi muitas como você. Notas ruins, acha mesmo que vai passar no vestibular? Só porque é bonita, quer voltar para a escola e arranjar um namorado promissor?
Wang Zi? Que nome mais narcisista!
Hua Xiaoman realmente não fazia ideia!
Ela só havia sonhado que Lu Meijiao, usando um grosso agasalho de esqui, chorava e vinha tirar satisfação, dizendo que Hua Xiaoman havia lhe roubado o namorado. No sonho, Hua Xiaoman negava, mas Lu Meijiao insistia que o namorado havia se declarado abertamente para ela. E como Lu Meijiao usava roupa de inverno, devia estar frio — não mais que três meses, talvez até menos. Por isso, Hua Xiaoman afirmou com cautela que seria em até três meses.
Então, a culpa é minha por alguém gostar de mim? Mesmo nos sonhos, Hua Xiaoman não gostava dessa confusão, não queria se envolver nesse tipo de problema.
Ela tinha menos de seis meses, como teria tempo para se envolver em romance com qualquer um? E, se quisesse mesmo namorar, por que não escolher Chu Huai? Só porque o sujeito se chama Wang Zi, acha que é um príncipe de verdade?
Hua Xiaoman não se deu ao trabalho de rebater, estava cansada de discutir com Lu Meijiao. Já que inevitavelmente acabariam rompendo, melhor não fingir amizade desde o começo.
Xiong Meimei e a “Homem” Mi Xiaofeng também eram do interior e se irritaram com o preconceito de Lu Meijiao. Defenderam Hua Xiaoman e, ao mesmo tempo, a si próprias.
— E qual o problema de ser do interior? Se não fossem os camponeses, você comeria o quê? Antes da libertação, todo mundo era do campo! Você só valoriza esse tal de Wang, mas talvez ninguém mais queira ele — Mi Xiaofeng, apelidada de “Homem”, não levava desaforo para casa.
Xiong Meimei, mais tranquila, tentou apaziguar:
— É verdade, Jiao Jiao, você está pegando pesado. Viemos para repetir o ano para entrar na universidade. Namoro não é mais importante que o vestibular.
Hua Xiaoman completou, um tanto misteriosa:
— Você mesma não é do interior?
— Para de inventar! Você tem alguma coisa contra mim? Minha família é do condado vizinho, Kaying. Pode perguntar para quem quiser!
— Eu só calculei agora há pouco, então falei. Se estiver errado, considere que me enganei — respondeu Hua Xiaoman, lançando um olhar significativo para Lu Meijiao. Essa garota era interessante; com registro rural, querendo se passar por citadina... Se fosse desmascarada, que vergonha!
O rosto de Lu Meijiao ficou pálido e ela começou a chorar baixinho. Mesmo com tentativas de consolo, continuava se lamentando:
— Vocês sabem como sempre fui com todos, nunca fiz mal a ninguém. Por que ela faz isso comigo?
Agora estava feito: sem querer, Hua Xiaoman acabara de ofender a garota mais popular da turma. Ela mesma não se importava, nunca quis contato com pessoas assim; melhor se afastar agora do que perder tempo depois.
Quem tentou intervir em nome da amizade foi Dong Xuemei, puxando Hua Xiaoman de lado:
— Xiaoman, chega, né? O que houve com você nesses seis meses para mudar tanto? Somos todas do mesmo dormitório, comigo tudo bem você ser dura, mas com os outros, pega leve... Vai se indispor à toa.
— É, Xiaoman, ontem você fez a Xuemei chorar, hoje foi a vez da Jiao Jiao. Assim não dá! — lembrou Du Xiaoling, ainda ressentida pelo choro de Xuemei do dia anterior.
— Desculpe, fui imprudente — Hua Xiaoman sorriu, mas sem demonstrar real arrependimento:
— Não sei mentir. Se decidi calcular para vocês, jamais mentiria. Se não aguentam ouvir verdades, melhor não me procurarem para adivinhações.
— Como se fosse verdade! Quer enganar quem? — agora Lu Meijiao estava decidida a bater de frente.
O clima no dormitório ficou estranho por causa dessa briga.
Afinal, era uma turma de repetentes. Só Dong Xuemei e Mi Xiaofeng já conheciam Hua Xiaoman de antes; as outras vieram de outras turmas ou escolas, ninguém era próximo de verdade.
Mas já havia passado um semestre. Todas estavam mais próximas de Lu Meijiao, e quando a nova aluna entrou em conflito com ela, a maioria ficou ao lado de Meijiao.
Apenas Mi Xiaofeng e Xiong Meimei permaneceram ao lado de Hua Xiaoman.
Dong Xuemei mantinha boas relações com ambas e se esforçava para apaziguar, sem querer desafiar nenhuma das partes.
Com um espírito de “não abandonar a amiga em decadência”, Dong Xuemei fez questão de elogiar Hua Xiaoman para Lu Meijiao.
Mas Lu Meijiao não era fácil. Normalmente vivaz e alegre, tratava todos bem, mas quando se irritava, era venenosa:
— Para de bancar a boazinha. Não tem medo de Hua Xiaoman voltar e roubar seu príncipe da Universidade Hua?
Pronto, o quarto todo silenciou.
Dong Xuemei, sentindo-se injustiçada, quase chorou e respondeu, insegura:
— Xiaoman é minha amiga, eu confio nela. Ela não é assim. Não é, Xiaoman?
Esperta, Dong Xuemei tentou jogar para Hua Xiaoman, mas esta, entretida com seu livro, nem deu atenção.
Xiong Meimei e as outras, fãs de fofoca, pensaram: dividir quarto com essas beldades era realmente intenso.
— Ficou desse jeito, ainda é dormitório de ensino médio? — resmungou Mi Xiaofeng, chamando:
— Quem vai comigo estudar na sala de aula?
— Eu! — respondeu logo Xiong Meimei, olhando para Hua Xiaoman — Xiaoman, quer dar uma volta na sala com a gente?
— Claro.
Hua Xiaoman sabia que, com as duas por perto, seria impossível dormir. Já tinha arrumado a bolsa, pensando se deveria ir até Chu Huai para aproveitar a tarde.
Mas o pessoal do hospital de Chu Huai já pensava besteira; ir de novo seria demais. Além disso, Chu Huai era generoso demais, nem deixava Hua Xiaoman pagar nada — no dia anterior, ela tinha feito todas as refeições por conta dele e se sentia mal por isso.
Não eram namorados, e mesmo que fossem, ela se sentiria constrangida. Hua Xiaoman era pobre, mas não queria perder o último resquício de dignidade.
Só que, com o clima tenso no dormitório, não conseguiria estudar. Como caloura, só poderia usar a sala de aula a partir do dia seguinte. Se não fosse até Chu Huai, perderia metade da tarde e a noite.
Num momento tão crucial de preparação para o vestibular, perder tempo era o maior pecado.
Ainda bem que Xiong Meimei a chamou, e Hua Xiaoman logo a acompanhou.
E não é que Mi Xiaofeng, Hua Xiaoman e Xiong Meimei saíram em formato de trapézio? Parecia até engraçado.
Mi Xiaofeng não ganhou o apelido de “Homem” à toa: além do jeito direto, tinha altura de um metro e oitenta. Mesmo de tênis baixos, superava muitos rapazes. Com o cabelo curto e roupas esportivas, de costas, parecia mesmo um rapaz.
Hua Xiaoman tinha estatura média, nem alta nem baixa, e mantinha o cabelo comprido.
Xiong Meimei era baixinha, sempre a primeira da fila, bem menor que Hua Xiaoman.
As três, com Hua Xiaoman no meio, formavam mesmo um trapézio.
Apesar do jeito masculino, Mi Xiaofeng tinha senso de justiça. Já fora colega de Hua Xiaoman e, por isso, tomava sua defesa, contando detalhes sobre a turma de repetentes — mas só sobre estudos, pois não gostava de fofocas.
Já Xiong Meimei adorava um boato. Sabia tudo, especialmente sobre Lu Meijiao e Dong Xuemei.