Capítulo 96 - Jade Despedaçado
As palavras de Dajun Liu entraram por um ouvido e saíram pelo outro para Xiaoman Hua; ela não concordava, mas também não rebatia. Discutir com ele não tinha propósito algum, afinal, esse hábito de falar demais foi algo que ele adquiriu depois que começou a dirigir táxi. Ele mesmo não tinha certeza do que dizia, só repetia o que ouvia, mudando de opinião conforme a conversa, sempre encontrando algo para comentar.
Era como quando ele dizia, num momento, que universitários não serviam para nada, pois acabavam indo trabalhar no condado, e logo depois elogiava dizendo que universitário era ótimo, com trabalho estável e bom salário, sem precisar fazer esforço físico.
Ao deixar Xiaoman Hua em casa, Dajun Liu ainda fez questão de ajudá-la com as malas e recusou o dinheiro que ela lhe ofereceu. Só aceitou quando a vovó Cao insistiu: “Aceite, vocês vivem de cobrar essas corridas, e só de combustível já vai um bom tanto.” Com a palavra da vovó, Dajun Liu não fez mais cerimônia; pegou o dinheiro e foi embora.
Afinal, Xiaoman Hua havia comentado que Xue Mei Dong ainda estava no dormitório arrumando as malas, e ele queria voltar à escola para ver se a encontrava.
Ao ver Xiaoman Hua de volta, a vovó Cao sorria de orelha a orelha, só lamentando não ter visto Huai Chu. Logo depois, Lele apareceu para chamá-las para o almoço; a tia preparara uma mesa farta para dar as boas-vindas a Xiaoman Hua.
Claro, durante a refeição, vieram as perguntas de praxe: Como foi a prova? Quantos pontos acha que tirou? Para qual universidade se inscreveu? Está confiante?
Em comparação ao ano anterior, Xiaoman Hua estava muito mais confiante; afinal, havia passado da nota de corte das universidades de prestígio, e por uma boa margem. Embora a nota não fosse das mais altas, era suficiente para sentir orgulho.
Quanto à escolha da Universidade de Jiangnan, a família não entendia muito, só sabia que era uma das principais. Para eles, universidade boa só conheciam as duas mais renomadas: Jiuhua, na capital, e Jiuzhou, em Xangai. As demais lhes eram desconhecidas, distantes demais para fazer parte do cotidiano.
Não podiam dar muitos conselhos a Xiaoman Hua, mas, como a vovó Cao garantiu que Huai Chu havia ajudado na escolha, o tio e a tia ficaram tranquilos.
Já Tianle Cao sabia um pouco mais e não parava de elogiar a Universidade de Jiangnan, dizendo que, se a irmã entrasse lá, seria motivo de orgulho para toda a família.
Sobre o curso, Xiaoman Hua não mencionou medicina veterinária, limitou-se a dizer que era da área de saúde, o que deixou todos contentes. Comentaram que estudar medicina era ótimo, que ser médica era garantia de estabilidade para a vida.
A vila era pequena, não era fácil surgir um universitário. Naquele ano, do vilarejo de Qiaotou, só Xiaoman Hua chegou tão longe. A notícia de que a vila teria uma universitária logo se espalhou, com vovó Cao, o tio e a tia fazendo questão de contar orgulhosos para todos, o que rapidamente correu entre os moradores.
Mesmo em casa, Xiaoman Hua não deixou de estudar. O que aprenderia na faculdade ainda era uma incógnita, mas, como Huai Chu supôs que ela fosse cursar medicina, deixou-lhe alguns livros: Clássico do Imperador Amarelo, Medicina Escondida, Prescrições de Ouro e Mil, e o Compêndio de Ervas de Shennong.
Eram todos livros antigos, já com páginas amareladas. Essa caixa de livros, Huai Chu enviara de carro para a casa dela com antecedência, poupando Xiaoman do trabalho de carregá-los para lá e para cá.
Mas tantos livros, todos em linguagem clássica, mesmo com anotações, não eram fáceis de ler. Na carta que Huai Chu lhe deixou, explicava que a tradição milenar de Jiuzhou começou com a medicina tradicional; embora hoje em dia a medicina ocidental fosse mais comum, conhecer a medicina tradicional era parte da história e da herança do país, sendo importante aprender.
É como o estudo dos textos clássicos e poemas, mesmo que a língua tenha evoluído, ler os antigos é preservar uma herança cultural. Era bom começar a se familiarizar com isso.
Para Xiaoman Hua, ler os clássicos era menos difícil do que física; com anotações, bastava reler algumas vezes para decorar, sem maiores problemas, embora mais devagar.
No estudo, Xiaoman Hua sempre teve paciência.
Durante todo o verão, manteve uma rotina semelhante à da escola, dormindo cedo e acordando ainda mais cedo. Morando com a avó, acompanhava os horários dela, que como todo idoso, madrugava. Ela acordava cedo, dava uma corrida, depois praticava técnicas de autodefesa feminina.
Depois que a autodefesa funcionou contra Xiaochuan Jia, Xiaoman Hua levou o treino ainda mais a sério, dedicando-se diariamente com perseverança. Era resistente, quando se propunha a algo, fazia de verdade.
Na plantação de trigo, onde quase não tinha gente, ela praticava seus movimentos, evitando constrangimentos.
Mas, depois de alguns dias, foi vista pela vovó Liu, que saía cedo para colher verduras, e logo começaram as fofocas.
Xiaoman Hua não entendia por que era alvo de tanta conversa da vovó Liu, que parecia incansável em espalhar boatos sobre ela.
Bastou vê-la praticando de manhã para que vovó Liu dissesse: “Com certeza Xiaoman Hua foi possuída por algum espírito, agora até sabe kung fu. Da última vez, dizem que quebrou o ‘dote’ de Xiaochuan Jia.”
No início, Xiaoman Hua nem sabia dessas histórias. Apesar de o vestibular ter acabado e os colegas só pensarem em aproveitar as férias, ela continuava estudando pelo menos dez horas por dia, a não ser que houvesse trabalho na lavoura exigindo sua ajuda.
Enquanto ela lia em casa, não fazia ideia da tempestade de boatos que se espalhava lá fora.
Desta vez, vovó Cao ficou realmente aborrecida; foi até a casa dos Liu e bateu furiosamente no portão, discutindo com vovó Liu. Aproveitou para revelar a tentativa de enganar Xiaoman Hua e ainda trouxe à tona o episódio de Cuiying Liu, que se metera a dar medicamentos sem autorização na cidade.
Em defesa de Cuiying Liu, as duas idosas acabaram brigando fisicamente e caíram juntas. Vovó Cao saiu ilesa, apenas com o amuleto rachado; já vovó Liu não teve a mesma sorte, tropeçou numa pedra e quebrou a perna.
Se fosse um jovem, bastava ajeitar o osso, já que muitos idosos da vila sabiam fazer isso, sem necessidade de hospital. Mas a idade avançada de vovó Liu complicou tudo; com os ossos tão frágeis, não teve jeito senão correr para o hospital.
Dajun Liu, que carregava um pager, foi chamado às pressas para levar a mãe ao hospital.
Vovó Cao ficou assustada e, ao voltar, trancou o portão de casa.
Xiaoman Hua percebeu que a avó estava diferente naquele dia e só então soube o que havia acontecido.
Quando vovó Cao mostrou o amuleto protetor, já rachado em dois e com o encaixe todo esfarelado, quase impossível de juntar, disse:
“Esse negócio é mesmo estranho, será que ele salvou minha vida?”
Xiaoman Hua assentiu: “Pode ser que sim. Mas, vovó, daqui pra frente tome mais cuidado, não vá discutir com os outros, a idade traz certos riscos.”
De fato, os riscos eram reais.
Vovó Liu, com o osso quebrado, foi internada. Disseram que, por ser idosa, não era aconselhável operar ali, precisando transferi-la para o grande hospital da capital do estado. Depois de toda essa confusão, quando finalmente voltou para casa, já se passara uma semana.
Agora, de volta, vovó Liu já não tinha mais o mesmo vigor e passava os dias na cadeira de rodas.
Nas palavras sentidas de vovó Cao:
“Dias atrás estava bem, e numa queda ficou assim. Ah, envelhecer é mesmo perder as forças.”