Capítulo 48: Descobri um grande segredo
— Eu estou bem — disse Florzinha, balançando a cabeça. — O calor está forte e acender o fogo esquenta muito.
— Ah, então... vocês ogros têm medo de fogo? — perguntou Caio, sentindo-se como se tivesse descoberto um grande segredo.
Florzinha sorriu, divertida: — Ora, não é como se fosse um fogo celestial, por que eu teria medo?
Fazia sentido!
Caio ficou impressionado com o porte imponente de Florzinha. De repente, ficou sem jeito para continuar a conversa.
— Se tem algo a dizer, diga logo. Não fique enrolando — resmungou Florzinha, franzindo as sobrancelhas, impaciente.
— Bem, mana... Da última vez, eu esbarrei nele, e ele admitiu. Você acha que devo fazer o quê? — desabafou Caio, e Florzinha lembrou que seu primo estava insinuando que não era filho biológico do segundo tio.
Que situação! Ela nunca gostou muito de Caio, por que deveria ajudá-lo a bolar um plano?
— E o que você pensa em fazer? — devolveu a pergunta.
— Eu não sei mais o que fazer. Perguntei para ele, mas nem emprego fixo ele tem, diz que faz uns negócios por aí e que vai ficar rico. Minha mãe diz que ele é um viciado em jogos, só pensa em apostar, e quando fica sem dinheiro, vem pedir para ela.
Encontrar um viciado assim não tem futuro algum. O que você acha que eu faço? Ou então, mana, use seus poderes e devore ele pra mim?
Ele realmente acha que sou um ogro comedor de gente?!
— Mas ele é seu pai. Não te daria pena se eu comesse ele?
Caio balançou a cabeça rapidamente: — Pena nenhuma. Ele nunca me criou, só sabe sugar. Não quero um pai desses. Minha mãe já disse que meu verdadeiro pai é meu segundo tio, que ela só teve a mim depois que entrou para a família Caio. Esse homem só se parece comigo por coincidência.
Ora, nem ele acredita nessa mentira, quem mais acreditaria? Era só questão de tempo até essa confusão vir à tona. Que se resolvam.
— Mana, não conta nada para o meu pai nem para a vovó. Eles vivem dizendo que eu sou o futuro da família. Se descobrissem, não suportariam. Ainda mais agora, que o controle de natalidade está rígido e minha mãe já fez laqueadura. Não tem como nascer outro filho para a família Caio.
Nós estudamos, sabemos que essa história de dar continuidade ao sobrenome é só tradição. Basta que eu faça meu papel, cuide do meu pai quando ele envelhecer. Isso basta.
Fique tranquila, não gosto desse homem, tenho certeza de quem é meu pai.
— Está bem, não direi nada. Pense bem antes de tomar qualquer decisão. Você já tem quinze anos, já é um rapazinho — disse Florzinha, levantando-se e pondo mais lenha no fogo.
Caio olhou fixamente para Florzinha, tão próxima do fogo. De repente, não se conteve e estendeu a mão, querendo empurrá-la.
Será que ogros têm medo de fogo? Se eu queimasse ela, ninguém saberia do meu segredo. Mas e se ela não morresse e me comesse?
Enquanto hesitava, uma voz soou atrás dele:
— Florzinha!
O susto fez Caio recuar a mão rapidamente e sair apressado.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Chuai, barrando a passagem de Caio.
— Nada, só vim conversar com minha irmã.
— E por que estava estendendo a mão? Não queria empurrá-la para o fogo, não, né? — Chuai foi direto, encarando Caio sem rodeios.
Florzinha também se deu conta. No instante anterior, sentira um perigo, quase como se estivesse para ser queimada pelo fogo. Assim que Chuai apareceu, a sensação sumiu. Achou que fosse imaginação, mas então, realmente tinha sido um momento perigoso.
Levantou-se, desapontada, deu um olhar para Caio e murmurou:
— Deixe ele ir.
— Garoto, sua irmã agora é minha namorada. Se ousar machucá-la, não respondo pelo que faço! — disse Chuai, apertando ainda mais o pulso de Caio.
Caio gritou de dor, tentando se explicar: — Mana, não foi nada. Cunhado, solta minha mão!
Assim que Chuai soltou, Caio saiu correndo.
Que medo! Minha irmã e meu cunhado não são normais! Como pode ele ser tão forte? Será que também é um monstro?
Claro, só monstros gostam de monstros!
Caio: Descobri um segredo terrível! Mas não ouso contar. Tenho medo de desaparecer!
Quando Caio foi embora, Florzinha só então percebeu o que tinha acontecido e ficou constrangida.
Ele disse... Ela era sua namorada? Falou sério?
Florzinha, sem coragem de olhar para Chuai, virou-se apressada para continuar cuidando do fogo. Ficou tão nervosa que nem raciocinava direito e só sabia jogar lenha no braseiro, até que colocou tanta lenha que o fogo apagou, enchendo o fogão de fumaça.
Chuai rapidamente puxou Florzinha para fora. Os dois saíram com o rosto todo manchado de fuligem, tossindo sem parar.
A avó Caio estava no quintal, lavando legumes e carne de boi. Quando viu a fumaça, correu para ajudar, resmungando:
— Minha querida netinha, suas mãos agora são para segurar caneta, não mais para esses trabalhos pesados. Já te disse que foque nos estudos, passe no vestibular, entre numa boa faculdade. Isso é o mais importante.
— Olha só, até o Chuai acabou se sujando por sua causa. Chuai, já considero você da família, então nem faço cerimônia. Vão logo lavar o rosto, os dois.
Florzinha, acostumada com os cuidados da avó, sentia-se feliz ouvindo aquelas palavras. Pelo menos, tinha alguém que realmente se importava com ela.
Ao ver o rosto sempre limpo e elegante de Chuai todo manchado, Florzinha não se conteve e caiu na risada.
— Não ria de mim, você está igual. Cara de gatinho! — disse Chuai, e com as mãos sujas ainda desenhou bigodes de gato no rosto de Florzinha.
— Ah, é? Pois agora é minha vez! — Florzinha tentou revidar, mas Chuai saiu correndo.
Vendo os dois jovens brincando, a avó Caio estava radiante de alegria.
Ainda bem que Florzinha era ajuizada. Sabendo que não adiantava correr atrás de Chuai, foi lavar o rosto primeiro e ainda preparou uma bacia de água para que ele também pudesse se limpar.
Mal terminaram de se arrumar, sem nem tempo de ajudar na cozinha, a avó Liu apareceu com a família inteira, trazendo todos os membros da casa, e ainda obrigou os dois netos, Davi e Daniel, a trazerem Joaquim, que estava quase sendo arrastado.
— Florzinha, venha aqui fora. Vamos esclarecer as coisas — chamou Lúcia, com uma voz firme mas levemente manhosa, do portão.
A avó Liu e seus dois netos também gritaram, fazendo o maior alarde.
Era uma cena e tanto. Todos os vizinhos começaram a espiar, alguns até trouxeram bancos para assistir à confusão.
Florzinha suspirou, conformada. Já esperava por isso e foi abrir o portão.
A avó Caio, que acabara de lavar as mãos, saiu da cozinha e, ao ver o pessoal da família Liu, logo reclamou:
— Guilhermina, o que vocês querem? Acham que só porque são muitos podem intimidar os outros?
Até a tia Lídia, que tinha acabado de saber da confusão, correu para acalmar os ânimos:
— Mãe, irmão, vocês estão fazendo o quê? Afinal, somos parentes! Agora sou da família Caio, se vocês fizerem esse escândalo, como vou encarar todo mundo depois?