Capítulo 41 - Esta Criança Tem Um Coração Realmente Grande
O rosto pálido estava tão próximo que parecia uma máscara fantasmagórica ampliada, colada ao dela. O hálito exalado trazia um frio cortante. Olhos imóveis a fitavam, transbordando uma aura sinistra, extravasando silenciosamente o desagrado. Qin Shu não esperava que ele tivesse saído tão depressa. A boneca de pano só podia ser usada uma vez; na segunda, o efeito certamente não seria o mesmo, não conseguiria prendê-lo por muito tempo. Além disso, se o marido sombrio sumisse por tempo demais, era provável que a sogra fantasmagórica desconfiasse dela, talvez até lhe fizesse algum mal.
Qin Shu curvou os lábios num sorriso suave, os olhos fixos no marido espectral. Com os dedos pressionando levemente o peito dele, afastou-o delicadamente, abrindo espaço entre os dois. “Querido, você finalmente voltou. Ontem à noite, a mamãe saiu especialmente para procurar por você.” Havia uma doçura inocente em sua voz, completamente convincente. Esforçava-se ao máximo para desempenhar o papel de esposa gentil.
As pupilas gélidas do marido sombrio se contraíram. Embora permanecesse em silêncio, olhava para Qin Shu com desconfiança. Ela o ignorou, calçou os sapatos e abriu a porta do quarto. Mais uma vez, o rosto deparou-se perigosamente perto do dela. Qin Shu deu um grande passo para trás, assustada, mas logo substituiu a expressão de susto por um ar obediente.
“Mamãe, por que está parada na porta? Está preocupada porque ele não voltou?” Qin Shu inclinou o corpo, expondo o marido espectral. Os dois seres, um atrás do outro, olhavam para ela com olhos sombrios. O ambiente estava saturado de uma energia macabra, um frio subia de seus pés até o topo da cabeça.
Enquanto Qin Shu ponderava se deveria usar a boneca substituta para escapar da morte ou simplesmente ativar seu dom para enfrentar as duas criaturas, a sogra espectral virou-se sem expressão e voltou para o quarto em frente. Qin Shu soltou um longo suspiro. Pelo visto... até os seres estranhos precisavam obedecer às regras.
Ela não havia violado nenhuma regra, então os dois espectros não fariam nada contra ela. Faltavam ainda duas horas para as nove, ela precisava ir logo preparar o café da manhã para os três, senão enlouqueceria ficando mais tempo com aquelas criaturas. Na cozinha, Qin Shu, como no dia anterior, primeiro inspecionou os alimentos. Diferente de antes, havia uma coxa enorme na panela—uma perna humana. Devia ter sido trazida pela sogra espectral na noite anterior; num canto, havia ainda um saco pequeno de milho e batatas.
Seria hoje que teria de cortar a perna humana? Qin Shu hesitou. Como poderia realizar ato tão sanguinolento e cruel? Logo, o som de facas batendo carne ecoou pela cozinha. Na sala, os dois espectros sentaram-se frente a frente, ouvindo o barulho; a energia sinistra em torno deles parecia ter diminuído um pouco. No quintal, o cachorro amarrado encolhia-se num canto, tremendo, seus olhos tomados de pavor, fitando a direção da cozinha. Se Qin Shu visse, certamente estranharia perceber emoções humanas em um cão.
“Hora de comer.” Ao passar pelo quintal, o cachorro ainda latia incessantemente para ela. A sogra espectral observava Qin Shu arrumar a mesa com destreza: uma grande panela de sopa de perna humana, alguns pãezinhos cozidos no vapor e batatas apimentadas fritas. Qin Shu sentou-se primeiro, serviu sopa de carne para os dois espectros, depois encheu outra tigela, colocando-a diante do altar. Uma nova vareta de incenso queimava diante do altar. Ela mesma pegou um pão e uma porção de batatas apimentadas.
Durante toda a refeição, Qin Shu manteve um sorriso gentil, esforçando-se para interpretar a esposa amável e a nora diligente e obediente. Nos olhos negros da sogra e do marido espectrais, brilhava uma luz estranha. A sala estava tão silenciosa que se podia ouvir uma agulha cair. E assim, uma pessoa e duas criaturas tomaram o café da manhã em absoluto silêncio.
Qin Shu rapidamente recolheu a louça, pegou a vassoura no canto da parede e se preparou para limpar o chiqueiro e o quintal. A sogra espectral postou-se na porta, fitando-a com um olhar gélido. Faltava pouco para as nove, e Qin Shu não dava sinais de querer voltar para o quarto. Após as nove, tanto a sogra quanto o marido espectral precisariam deixar a casa, conforme as regras; isso significava que Qin Shu ficaria sozinha novamente.
Talvez por causa da presença da sogra espectral, o cachorro não latiu mais para Qin Shu, apenas se encolheu, tremendo em silêncio. À medida que se aproximava das nove, a energia opressiva dos dois espectros crescia, de tal modo que até o cachorro encolhido começou a gemer baixinho. Qin Shu largou a vassoura, frustrada.
Parece que... ela precisaria conquistar a confiança deles. Caso contrário, se continuasse trancada no quarto, como poderia descobrir as condições para sobreviver até o fim? Ainda não havia encontrado a outra metade das regras; até lá, não podia irritar as duas criaturas.
Assim que voltou para o quarto, a energia sinistra dos espectros diminuiu consideravelmente. Deitada na cama, Qin Shu fitava o teto, profundamente frustrada. Só então, ouvindo o som da porta sendo trancada, sentou-se e voltou à sala. Seu olhar pousou novamente sobre a foto em preto e branco; ainda era impossível distinguir seus traços, mas a sopa que deixara diante do altar havia sido bebida.
Em outras palavras, embora os dois espectros não estivessem em casa, havia outro ser escondido ali, observando-a em segredo. Não era de admirar que, toda vez que entrava na sala e passava diante do quarto da sogra espectral, sentisse-se vigiada. Olhando para a porta trancada, percebeu que não podia sair, e que na sala havia ainda outro espectro a observando. Qin Shu sentiu-se tomada por uma inquietação extrema. Voltou para o quarto, trancou a porta, mas a sensação de estar sendo observada persistia.