Mundo dos Cavaleiros
Ye Chen não era aluno de Humanas, tampouco tinha habilidade para participar de competições de poesia. Contudo, graças à educação obrigatória e ao método de ensino em que cada erro valia cem cópias de correção, mesmo passados muitos anos, alguns poemas estavam gravados em sua mente como aço soldado.
“Lin Tiedaga, o que você acha?”
Na agência de escolta Longmen, Wang Yang levou Ye Chen para encontrar Lin Tiedaga.
Na verdade, o nome dele não era Lin Tiedaga, e sim Lin Tie. Com mais de quarenta anos, seu corpo musculoso e imponente não ficava atrás de nenhum atleta moderno; justamente quando chegaram, o grandalhão estava praticando levantamento de peso dentro da agência, e sua aparência fazia jus ao apelido dado pelo mestre.
“Vá chamar meu filho.”
Depois de analisar os dois, Lin Tie mandou alguém chamar seu filho, Lin Wen.
“Meu jovem, sou um homem simples, não entendo de poesia, mas percebo que os dois poemas são muito bons. Tem certeza de que quer mesmo fazer essa troca?”
Enquanto o criado ia chamar o protagonista, Lin Tie olhou fixamente para Ye Chen e perguntou de repente.
“Cada um busca algo diferente. Passar nos exames imperiais é o desejo de seu filho, não o meu. Eu só quero aprender artes marciais,” respondeu Ye Chen, sorrindo. “Chefe Lin, pode ficar tranquilo. Uma vez feita a troca, os poemas passam a ser de seu filho. Se ele não contar para ninguém, ninguém saberá que vieram de mim.”
Lin Tie já servira como soldado na capital do império e tinha experiência. Já presenciara esse tipo de situação antes. Muitos vendiam poemas por dinheiro. E também havia quem, graças à fama dos versos, mesmo sem sucesso nos exames, chegava a ser ouvido pelo imperador, como foi o caso de certo velhote de sobrenome Liu que frequentava os prostíbulos.
“Falaremos disso quando meu filho chegar.” Assentindo, o chefe Lin continuou: “Já que o jovem deseja aprender artes marciais, por que não se juntar a uma das grandes seitas? Em Bianliang há a Seita da Lâmina Dourada, a Irmandade dos Mendigos, a Seita da Espada Única... Todas possuem técnicas excelentes. Se conseguir aprender de verdade, seu poder será superior ao do meu Punho do Ancestral.”
“Talvez seja pura preguiça,” Ye Chen sorriu. “Quero aprender artes marciais, mas não tenho ânimo para ser subalterno de ninguém. Além disso, por ora, o Punho do Ancestral já me basta.”
“A gente precisa saber se contentar.”
“Sou fácil de contentar. Se algum dia eu não estiver mais satisfeito, então saio por aí em busca de técnicas lendárias. Não será tarde.”
Se Ye Chen não tivesse o bug da imortalidade, de fato ele partiria em busca de técnicas como o Cultivo do Mar do Norte, ou, se não encontrasse nada, poderia até se tornar monge em Shaolin por um tempo. Mas agora, tempo era o que não lhe faltava. Pra quê pressa?
“Chefe Lin, o senhor viajou muito. Sabe algo sobre os assuntos do mundo marcial? Ouvi dizer que um mestre de topo pode enfrentar sozinho um exército. Isso é verdade?” Ye Chen perguntou.
Na pequena Pedra, as notícias eram escassas; Ye Chen sabia pouco sobre o mundo marcial. Até agora, só sabia que o chefe da Irmandade dos Mendigos era Wang Jiantong, e ainda não era a vez de Qiao Feng.
“Um homem contra um exército inteiro?”
Ouvindo isso, Lin Tie riu com desdém: “Jovem, os grandes mestres do mundo marcial são de fato poderosos, mas dizer que podem enfrentar um exército sozinhos é exagero. Se o exército estiver em formação, na hora da luta de verdade, cem soldados bem armados podem cercar e matar qualquer um deles.”
“É claro, muitos mestres têm um leveza extraordinária. Se quiserem fugir, nada podemos fazer.”
“Chefe Lin, o senhor já serviu o exército. Já enfrentou algum deles?” Ye Chen indagou, curioso.
Lin Tie assentiu, orgulhoso.
“Certa vez, um velho mendigo da Irmandade causou confusão em Bianliang. Juntei-me a dez irmãos e o matamos na hora!”
“Impressionante.”
Ye Chen demonstrou admiração.
“Ouvi dizer que Wang Jiantong é o chefe da Irmandade dos Mendigos, com uma habilidade marcial insuperável. Chefe Lin, não teme represálias? Ouvi dizer que, no mundo marcial, a vingança é levada muito a sério. Não importa quem esteja certo ou errado, se um discípulo for ferido por um estranho, há sempre retaliação.”
“Imagina!”
Lin Tie resmungou. “A Irmandade, por maior que seja, é apenas uma associação no nosso império. Falando francamente, não passam de um bando de mendigos. Se vierem se vingar, acham que as autoridades vão cruzar os braços?”
“Se fizerem isso, estarão desafiando o poder imperial. Uma vez comprovado, o império pode declarar toda a Irmandade como rebelde e exterminá-los.”
As palavras de Lin Tie deixavam clara sua lealdade ao governo e sua natureza implacável.
“Além disso, Wang Jiantong, chefe dos mendigos, não é lá essas coisas comparado aos verdadeiros mestres do mundo!”
“No mundo marcial, se há alguém com habilidade realmente insuperável, são só o abade de Shaolin, Murong Bo de Gusu e mais uns poucos. E ouvi dizer que Murong Bo faleceu há meio ano, vítima de doença.”
Murong Bo morreu?
Ao ouvir isso, Ye Chen finalmente entendeu a linha do tempo deste mundo. Murong Bo fingiu morrer há meio ano, então faltam pelo menos dez anos para o início da trama principal.
Parece que, se quiser obter a sorte dos três protagonistas e abrir caminho para outros mundos, ainda terá de esperar bastante.
Mas não faz mal. Não tem pressa.
“O jovem tem muito interesse pelo mundo marcial?” Vendo Ye Chen perguntar tanto, Lin Tie sorriu.
“Só um pouco de curiosidade.”
Os dois conversaram despretensiosamente. Ye Chen não era um mestre do bate-papo, mas sabia seguir o fluxo da conversa, extraindo muitas informações que desconhecia.
“Pai, me chamou?”
Enquanto falavam, entrou um jovem de túnica azul, rosto delicado e leque de papel na mão.
“Este é o senhor Ye. Veio hoje vender poesia. Avalie o valor. Se achar bom, troco minha técnica do Punho do Ancestral pelos poemas.” Diante de Ye Chen e Wang Yang, Lin Tie foi direto ao ponto, sem rodeios.
Ao ouvir isso, o jovem demonstrou curiosidade. Numa cidadezinha como Pedra, haveria alguém capaz de criar bons poemas?
Apesar da trapaça, o jovem não se incomodou, demonstrando até certo interesse ao encarar Ye Chen: “Senhor, poderia recitar seus versos primeiro?”
“Tenho quatro poemas. Aqui estão os dois primeiros. Veja se lhe agradam. Se gostar, faremos a troca: poesia por arte marcial.” Ye Chen tirou do bolso uma folha com os poemas “O Sapo” e “O Louvor à Cal” e entregou ao jovem.
Remexendo a memória, Ye Chen sabia recitar cinco completos. Pensou em trocar todos, mas logo percebeu que quatro já seriam suficientes. O quinto podia guardar para futuras negociações, caso precisasse.
“Excelentes versos! O Sapo é simples, porém bem estruturado. O Louvor à Cal tem uma integridade e nobreza que saltam aos olhos. Que belos poemas...”
Com o papel na mão, o jovem exultava de alegria.
“E os outros dois?”
“Senhor Lin, tem certeza de que quer trocar?” Ye Chen sorriu.
“Sim!” Olhando para o pai, Lin Wen assentiu firmemente. Depois, declarou: “Só por esses dois já percebo sua vasta erudição. Estou impressionado. Imagino que os outros dois sejam ainda melhores.”
“Só que...”
“O senhor conhece as regras?”
“Fique tranquilo. Uma vez vendidos, os poemas são seus e nada mais tenho com eles. Além disso, meu mestre Wang é bem conhecido aqui em Pedra. Ele será o intermediário. Senhor Lin, não há motivo para preocupação.”