Amargura
Num piscar de olhos, passou-se um mês e chegou o tempo das férias de verão das crianças. Era hora de Ye Chen ir ao condado de Shi para estudar medicina.
— Finalmente decidiu aparecer? — Na clínica da família Wang, o mestre Wang Yang olhou para Ye Chen com um tom irônico na voz.
— Ora, mestre, como pode dizer isso? O discípulo não vem lhe visitar toda semana? — Ye Chen deu uma risadinha, entregando as iguarias regionais ao irmão mais velho ao lado. — Irmão mais velho, esses são coelhos criados recentemente na vila Kaoshan, estão com um sabor ótimo. Trouxe para vocês provarem.
— Já estão criando coelhos de novo? — Ao ouvir, Zhao Shan pegou alegremente o presente das mãos de Ye Chen. Ele já estava acostumado com as variadas iguarias, de alimentos a ervas medicinais, que o jovem sempre trazia, e até esperava por elas.
Contudo, o mestre não parecia tão satisfeito.
— Você vive inventando moda lá na vila Kaoshan, mas e a acupuntura, como anda o seu treino?
Para Wang Yang, nada mais importava tanto quanto as habilidades médicas de Ye Chen.
— Mestre, que tal experimentar pessoalmente? — Ye Chen sorriu confiante.
Após meses usando a si próprio como cobaia, Ye Chen nem sabia ao certo o nível que havia alcançado em acupuntura. Porém, já dominava praticamente tudo que o mestre lhe ensinara do tratado sobre agulhas e meridianos, e ainda desenvolvera seus próprios entendimentos.
Intrigado, Wang Yang acomodou-se na cadeira de balanço, repousou o braço sobre a mesinha ao lado e disse:
— Venha, deixe o velho aqui sentir na pele.
Ye Chen não hesitou. Tirou da roupa seu estojo de agulhas de prata e começou a aplicação.
Ao lado, Zhao Shan assistia curioso. Queria ver no que o irmão mais novo se tornara após alguns meses. Lembrava-se do próprio tempo de aprendiz: em meses só conseguira identificar pontos de acupuntura e manejar a agulha com um pouco mais de destreza.
No início, Zhao Shan observava apenas por curiosidade, mas logo seus olhos se arregalaram. Ye Chen inseria as agulhas com destreza, precisão e estabilidade, atingindo profundidade exata — talvez até melhor que a dele próprio. Os movimentos de vibrar e girar a agulha, a quantidade de oscilações, a angulação, a precisão dos dedos... tudo era impressionante.
Em alguns aspectos, Ye Chen até o superava.
Se Zhao Shan já estava surpreso, Wang Yang, que sentia na pele, ficou ainda mais abismado. Zhao Shan via apenas a técnica, mas Wang Yang percebia o fluxo de energia vital: ao penetrar o ponto, uma onda de calor percorria o braço, aquecendo-o e rejuvenescia a sensação do membro, como se não fosse mais um braço velho, mas sim jovem e cheio de vigor.
— Mestre, como se sente? — Ye Chen recolheu as agulhas, sorrindo.
— Meu discípulo, você realmente me surpreendeu — Wang Yang estava comovido. — Não imaginei que conseguiria unir a energia vital à acupuntura. Só pelo efeito da sua aplicação, nem mesmo eu consigo igualar. Porém, é a energia vital que faz a maior parte; sua técnica, embora hábil e refinada, ainda pode ser aprimorada.
— Cada pessoa tem características próprias nos pontos de acupuntura. Agora, a aplicação foi correta, mas ainda pode melhorar a localização na profundidade. Você deve ter testado em sua própria mão, então se acostumou com as características dela. Mas a minha mão é diferente, não deve trazer seus hábitos para cá. Na acupuntura, além do hábito, é preciso apurar a percepção.
— Ao inserir a agulha, coloque metade, sinta as características do ponto do paciente, e só então insira o restante. Assim, a técnica alcançará o máximo efeito.
Conselhos valiosos, mas difíceis de aplicar.
— Peço que continue me ensinando, mestre — Ye Chen foi humilde, sem qualquer arrogância apesar do grande avanço.
Quanto mais aprendia, mais percebia o quanto ainda faltava. O corpo tem muitos pontos de acupuntura; ele só dominava alguns na mão. Quanto aos outros, estava longe de atingir o mesmo nível. Em certo sentido, a técnica não se restringe ao uso da agulha, cada ponto deve ter seu método específico.
— Um aluno digno de ser ensinado — Wang Yang acariciou a barba, satisfeito com a sinceridade e humildade nos olhos de Ye Chen. O maior receio era que o progresso rápido tornasse o discípulo arrogante e presunçoso, mas percebeu que o subestimara.
Sua estabilidade de caráter era ainda superior à de um velho cão de guerra.
— Nestes dias, ficará na clínica atendendo pacientes. Medicina não se aprende só nos livros, é preciso praticar. Quando atender muitos doentes, terá suas próprias conclusões e saberá o que fazer.
A experiência é exatamente isso.
— Sim, mestre — Ye Chen assentiu. Esse era seu objetivo: enriquecer a teoria médica com prática e aprimorar suas habilidades.
— Xiao Shan, prepare algo especial, hoje vamos comer bem.
O discípulo voltara, o mestre estava contente — havia de se celebrar.
Os três irmãos, juntos, partilharam boa comida e vinho, em um clima de alegria e companheirismo.
— Xiao Shan, não fique com essa cara de desalento — disse Wang Yang, dando um tapinha no ombro de Zhao Shan. — Não compare com seu irmão mais novo. O céu dele é diferente do seu.
— Você, como eu, é uma pessoa comum. E pessoas comuns têm seu próprio caminho. Com esforço e perseverança, mesmo que não chegue ao nível dele, encontrará seu próprio espaço.
— Mas se insistir em se comparar, cairá em angústia e isso atrapalhará seu futuro.
Wang Yang gostava de Ye Chen, mas isso não significava menosprezar Zhao Shan. Pelo contrário, dava ainda mais valor a ele. Afinal, Zhao Shan era seu apoio de anos, com laços que não seriam alterados por um recém-chegado.
Por isso, ao notar a expressão preocupada de Zhao Shan, tratou de aconselhá-lo.
— Mestre, entendo tudo que disse. Não é inveja, só um pouco de melancolia — Zhao Shan sorriu para Ye Chen. — Foram anos de esforço superados assim por você. Não posso ficar um pouco sentido?
Ye Chen ficou sem palavras: “Irmão, você precisa saber que paguei com centenas de vidas para superar você, ainda sente pena de si mesmo?”