026 Chefe da Aldeia?
Nem toda conversa de bar é mentira.
Na manhã seguinte, Wang Tigre acordou na casa de Ye Chen. Assim que abriu os olhos, declarou: “Mestre, vou reunir o pessoal daqui a pouco. De agora em diante, o senhor será o chefe da aldeia.”
“Todos nós seguiremos o senhor. Se nos mandar ir para o leste, não iremos para o oeste.”
“Não quero isso”, respondeu Ye Chen com firmeza. “A aldeia já tem você, não preciso ser chefe. E não pense que vou embora. Se quisesse partir, já teria feito isso há muito tempo. Se eu realmente quisesse ir, nem que me oferecessem o trono do imperador, nada me faria ficar.”
“Se já acabou de falar bobagens de bêbado, venha tomar um pouco de mingau para clarear a cabeça.”
“Mestre, essa é a vontade de todos, não só minha”, disse Wang Tigre, encarando Ye Chen, que mantinha o olhar determinado. “Além disso, tenha pena de mim. Se soubesse como foi difícil ser chefe nos últimos dois anos... Estou exausto.”
“Todos os dias penso em como garantir que ninguém passe fome, mas todo inverno alguém morre de fome ou de frio. Eu... estou realmente cansado.”
“Mesmo assim, não quero assumir”, respondeu Ye Chen, empurrando o mingau para Wang Tigre. “Mas, como membro da aldeia, tudo que puder fazer, farei.”
“Isso não tem nada a ver com ser chefe ou não.”
“E, Tigre, não carregue tanto peso nos ombros. Os dias estão melhorando aos poucos, não está vendo?” Ye Chen deu um tapinha no ombro do robusto homem. “No futuro, as coisas só vão melhorar.”
“Vamos encerrar esse assunto e falar sobre a ida à montanha.”
“Ontem à noite falamos de ir caçar, não foi? Vou com vocês, ver se encontro algumas ervas medicinais.”
“... Está bem, então!” Wang Tigre não era homem de muita conversa. Diante da firmeza de Ye Chen, só podia aceitar o resultado.
Pegou a tigela e começou a beber o mingau ruidosamente. “Mestre, amanhã vamos à montanha. Tem algum objetivo específico?”
Ye Chen disse que queria buscar ervas, mas a floresta era tão grande que não podia procurar sem direção.
“Vou deixar o destino me guiar”, respondeu Ye Chen, fazendo Wang Tigre se queimar com o mingau.
“Mestre, ouvi dizer que quem busca ervas vai a penhascos e lugares perigosos, porque lá crescem as melhores plantas. O senhor não vai?”
Wang Tigre achou aquela resposta muito despreocupada.
“Algumas ervas especiais realmente crescem em locais difíceis, mas desta vez não estou atrás delas”, Ye Chen balançou levemente a cabeça. “Então, vou colher o que aparecer. Não há necessidade de arriscar à toa.”
Ye Chen olhou Wang Tigre, hesitou um instante e depois disse: “Na verdade, desta vez quero buscar feras selvagens e lutar com elas.”
Treinar sozinho, só com a própria imaginação, é vazio.
Nada substitui um bom parceiro de treino.
Mas quando o parceiro é uma pessoa comum, Ye Chen não se sente à vontade. Na verdade, esse tipo de treino não faz muita diferença. Apenas feras selvagens são adversários dignos.
Talvez fosse só impressão, mas desde o combate com o tigre, Ye Chen ansiava por outra oportunidade como aquela.
Por trás do semblante tranquilo, na vida pacata, talvez houvesse sangue de guerreiro em suas veias.
A lembrança do duelo com aquela fera ainda fazia seu coração pulsar de emoção.
Além disso!
A fera não é só um adversário, é também o melhor professor.
Segundo Lin Ferro, o Punho Longo do Grande Ancestral é, em essência, apenas meia forma: os movimentos estão só pela metade, a outra metade o discípulo deve buscar por si mesmo.
Claro, isso é só teoria.
Na prática, Lin Ferro ensinou a forma completa, passada de geração em geração no exército.
Mas depois de dias de treino e reflexão, Ye Chen percebeu que a compreensão era mesmo parcial: cada movimento mostrava o caminho, mas o avanço era escolha pessoal.
O caminho está sob os pés, e Ye Chen não quer seguir pegadas alheias.
Porém!
Para trilhar seu próprio caminho, ler o Tao Te Ching e imaginar não basta. É preciso agir, experimentar, testar com o instinto do corpo o que se encaixa e o que não.
As feras, desde o nascimento, lutam pela sobrevivência; quando se trata de combate, são verdadeiros mestres.
Lutar com elas, aprender seus métodos, incorporar ao seu próprio sistema — Ye Chen achava isso plenamente viável.
“Mestre, o senhor só pode estar brincando”, disse Wang Tigre, incrédulo.
Na última vez, quase morreram nas garras do tigre; como agora queria se arriscar de novo?
Queria encurtar a própria vida?
“Não estou brincando”, Ye Chen respondeu com um olhar de soslaio. “Pode confiar, não vou envolver ninguém. Como da última vez, sei o que faço.”
Wang Tigre: “... Mestre, se eu disser que não o levo para a floresta, vai entrar às escondidas?”
“Muito esperto.”
Ye Chen sorriu de canto. “Pronto, terminei de comer, vou treinar. Coma tranquilo e depois vá para casa.”
Deixou a tigela e saiu para o pátio.
Abaixou-se, praticou o passo de cavalo, saltou sobre as estacas de ameixa, treinando as bases do Punho Longo do Grande Ancestral. Quanto ao treino da Palma de Ferro, já o fizera antes de Wang Tigre acordar.
Wang Tigre foi embora, mas antes viu Ye Chen no pátio, equilibrando uma tigela d’água na cabeça e derramando-a de vez em quando ao bater nas estacas. Não sabia o que dizer.
Só podia entender agora o sentimento de Li Segundo Tigre.
No dia seguinte, Wang Tigre, Li Segundo Tigre, Ye Chen, Zhang Montanha e outros formaram um grupo para subir a serra.
Diferente da última caçada ao tigre, desta vez os cães seriam úteis — especialmente porque um dos objetivos era capturar coelhos. Todos trouxeram cães de caça.
Ye Chen também trouxe um: um cão amarelo de orelhas achatadas e pelagem fofa, um filhote que pegou na casa de Wang Tigre.
Era preciso admitir: Ye Chen não tinha bom olho para cães. De toda a ninhada, escolheu o mais fraco.
O cachorro amarelo era simpático, mas... sua bravura não se comparava à dos irmãos.
“Tigre, lembro que há um urso de lua nesta serra, não é?” Depois de mais de um ano ali, Ye Chen conhecia razoavelmente bem o local, embora não fosse tão íntimo da floresta quanto Wang Tigre e os demais.
“Não há só um. Tem uma família de ursos, mas há um que tem uma lua no peito e é especialmente perigoso.”
Wang Tigre respirou fundo e olhou Ye Chen. “Mestre, o senhor não está pensando em enfrentar aquele grandalhão, está?”
“Espero encontrá-lo”, Ye Chen sorriu.
“Se encontrarmos, teremos que contar com o senhor. Aquele urso de lua é muito feroz, não é como o tigre velho, quase morto, que vimos da outra vez. Se ele enlouquecer, estaremos em sério perigo”, disse Zhang Montanha.
“Fiquem tranquilos, enquanto eu estiver aqui, não deixarei que nada lhes aconteça.”
Ye Chen prometeu com um sorriso.
Parecia uma promessa simples, quase brincalhona, mas, ao ouvirem, todos acreditaram de verdade.
Embora Wang Tigre não tenha convencido Ye Chen a ser chefe da aldeia,
para todos, Ye Chen já era o verdadeiro chefe.
Na Vila ao Pé da Serra, todos são unidos; e a palavra do chefe é lei, digna de total confiança.