022 Ideia

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2664 palavras 2026-02-09 14:17:37

— Criar coelhos?

Ao ouvir as palavras de Matheus, Tiago e os demais ficaram um pouco surpresos, mas logo assentiram: — Esses bichos só comem capim, não desperdiçam comida.

— Mas não são fáceis de criar, têm um temperamento bem difícil. Eu já capturei alguns antes, queria arranjar um companheiro para a pequena Mariana, mas mal entrou na gaiola, não comeu nada e acabou morrendo de fome — explicou João, pesaroso. — Na época, Mariana ficou muito triste. No fim, não tive alternativa senão tirar a pele e fazer um chapéu para ela, só assim a menina se animou novamente.

— Verdade, senhor, não se engane pelo tamanho pequeno do coelho selvagem, ele é teimoso demais — concordou Tiago, ao lado. — Por isso, normalmente, quando capturamos, já tiramos a pele e comemos logo.

— Daqui em diante, não tirem a pele de imediato. Nos próximos dias, vão até o bosque e tragam alguns coelhos vivos. Eles têm um ciclo de crescimento curto, consomem pouco e cada ninhada é grande, são perfeitos para criar. Os jovens estão treinando comigo e precisam de carne, e mesmo que a pele não seja muito valiosa, acumulando pode render um bom preço. Se conseguirmos criar bem, pode virar uma fonte estável de renda para o vilarejo — Matheus explicou calmamente. — Quanto à dificuldade em criá-los, não é tão complicado. Já criei antes, tenho alguma experiência.

Na infância, Matheus realmente já havia criado coelhos selvagens no campo.

Não tinha muito segredo: bastava selar bem a gaiola, deixar só a ventilação, sem contato com o exterior, e ir acostumando devagar, sem pressa. Com o tempo, eles se adaptavam à vida na gaiola.

— Pode deixar, senhor. Outro dia, quando fui ao bosque, vi uma ninhada de coelhos. Da próxima vez, eu pego todos para o senhor — disse Lucas, sorrindo.

— Você não vai conseguir pegar sozinho, isso é trabalho para o seu cão Barão — brincou João, rindo.

Mas era verdade: pegar um coelho vivo era tarefa difícil, quase impossível sem um cão de caça.

— O Barão pega porque é minha habilidade — Lucas retrucou, fazendo pouco caso.

— Se é tão bom, por que não põe o seu cão Preto para pegar também?

— Preto já está velho, quase sem dentes, não tem mais condições — respondeu Lucas, tentando disfarçar.

Como caçadores, tinham poucos motivos de competição, e o desempenho dos cães era um dos mais importantes.

— Da próxima vez, vou com vocês ao bosque — disse Matheus, observando o grupo animado. Mesmo com as provocações, não havia um traço de descontentamento, apenas alegria. — Vamos nos aprofundar mais, ver se consigo encontrar algumas ervas antigas. Se achar, será uma fortuna. Além disso, quero caçar um javali para tentar fazer sabão.

Ao integrar-se àquele vilarejo e ser visto como líder, Matheus naturalmente queria melhorar a vida de todos, pouco a pouco.

— Javali? — Lucas hesitou ao ouvir isso. — Senhor, se for caçar javali, precisamos combinar antes, o senhor não pode avançar como da última vez. Javali é mais feroz que tigre.

Com a experiência anterior, Lucas estava preocupado que Matheus repetisse o mesmo erro.

Da última vez, ficou apavorado.

Se algo acontecesse a Matheus, jamais se perdoaria.

— Fique tranquilo, não vou brincar com minha vida — Matheus respondeu sorrindo, dando-lhe um tapinha no ombro. — Chega de conversa, hoje é dia de festa, vamos beber.

Lucas suspirou, resignado, e ergueu o copo. Sabia que não poderia impedir Matheus.

Mesmo que não o acompanhasse ao bosque, Matheus iria sozinho — o que seria ainda mais perigoso.

— Senhor, mesmo assim, quando estiver lá, precisa seguir minhas ordens. Só pode agir quando eu disser — avisou Lucas, segurando o copo, sem beber.

— Certo, vamos seguir seu comando. Mas como você ficou tão falante? Beba logo.

Era necessário ouvir Lucas. Afinal, se um se machucasse, todos seriam afetados. Matheus não queria isso. Embora confiasse em si, garantir a segurança dos companheiros era outra questão. A experiência de Lucas e dos demais era essencial.

Mas, claro... às vezes era preciso adaptar conforme a situação.

— Lucas, para de ser tão preocupado. Você viu a força do senhor da última vez, não? Ele derrotou um tigre com as próprias mãos! Mesmo que você se arrisque, ele não vai se machucar — disse André, jovem caçador de pouco mais de vinte anos, tocando seu copo no de Lucas, sorrindo.

— Isso mesmo, vamos beber juntos.

No clima animado do grupo, as preocupações de Lucas logo se dissiparam entre goles.

Beber era sobre sentimentos, atmosfera, companhia.

Com as pessoas certas, a qualidade do vinho pouco importava.

Por isso, até mesmo aquele vinho antigo e ácido da época deixou Matheus embriagado.

Felizmente, com o qi vital protegendo o corpo, após uma noite de descanso, no dia seguinte estava renovado, sem qualquer problema.

Desde que dominou o qi vital, o sono ficou ainda mais prazeroso.

O efeito do sono profundo era reduzir o tempo de descanso; assim que a luz do dia começava a despontar, Matheus já estava de pé.

A primeira tarefa era aquecer a areia de ferro e treinar a palma de ferro.

As mãos, já ásperas e calejadas, mergulhavam repetidamente na areia quente. A fricção constante com os grãos, desde o início, quando só conseguia enfiar metade da mão, até agora, com a palma totalmente submersa, não havia mais ferimentos ou lesões. Apenas a sensação de toque suave entre a mão e a areia. Os calos grossos aumentavam a resistência e intensificavam a força e velocidade, mas também diminuíam a sensibilidade, tornando o tato das mãos muito menor.

Depois de uma hora de treino, Matheus terminava.

Treinava a palma de ferro, lavava as mãos, fazia acupuntura e cultivava o qi vital, tudo em sequência.

Já fazia três meses desde que começou com a técnica da palma de ferro. Diferente do início, os efeitos da acupuntura e do qi estavam menos intensos: antes era como formigas mordendo, agora parecia apenas lavar as mãos, quase sem sensação.

Esse era o momento mais difícil do treinamento: suportar a dor temporária era fácil, mas persistir por anos sem grandes resultados era para poucos.

Os calos nas mãos eram fáceis de criar, mas para que caíssem e se transformassem em mãos delicadas, como descrito na técnica, era necessário dez anos, mesmo com banhos de ervas e cultivo diário do qi.

Dez anos...

Matheus, por enquanto, usava apenas acupuntura e qi, sem os banhos. Não sabia se desse modo o tempo diminuiria ou aumentaria.

Mesmo que o efeito fosse menor, com treino duas vezes por dia, acreditava que a perseverança compensaria.

Do início do treino até o fim do cultivo, passava cerca de uma hora e meia.

Nesse momento, o sol já subia, iluminando o mundo.

Mas o treino não terminava ali.

Ainda precisava praticar o punho longo do Grande Patriarca.

Não era uma luta direta no pátio, mas sim exercício de fundamentos.

Como Ferro explicou, Matheus carecia de bases sólidas.

Equilibrava uma tigela cheia de água na cabeça e fazia postura de cavalo.

Depois, caminhava sobre pilastras em forma de flor, atravessando os espaços estreitos entre cada madeira, exigindo muita habilidade e rapidez.

Bum!

Ao se distrair, a tigela perdeu o equilíbrio e quase caiu. Para evitar que caísse, Matheus bateu direto numa pilastra.

A tontura o atingiu, o nariz ardendo.