023 Parto

Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2704 palavras 2026-02-09 14:17:38

— Senhor, a esposa de Xu está em trabalho de parto difícil, o senhor tem algum jeito?

Naquele dia, Ye Chen acabara de encerrar a aula das crianças quando Wang Hu apareceu correndo, com o rosto tomado de urgência.

A esposa de Xu... a mulher de Xu He, aquele jovem caçador um tanto impulsivo de pouco mais de vinte anos, que certa vez foi caçar tigres na montanha ao meu lado. Ye Chen sabia que a esposa dele estava grávida, mas agora vieram procurá-lo por causa de um parto complicado...

— Vamos ver primeiro.

Que outro jeito haveria?

Na aldeia só havia uma parteira, e parteira não era médica obstetra. Se algo grave acontecesse, só restava confiar no destino.

Agora vieram até ele porque, certamente, era a última esperança.

Ao entrar no pátio da família Xu, o jovem A He andava de um lado para o outro, ansioso como formiga em chapa quente. Ouvindo os gritos lancinantes de dor da esposa vindos do quarto, sentia o coração se partir.

Mas...

Nada podia fazer para ajudar.

Até ver Ye Chen chegar.

— Senhor, o senhor com certeza tem um jeito, não tem?

Agarrou a mão de Ye Chen com força. No rosto jovem de A He, os olhos estavam vermelhos e úmidos, cheios de esperança.

Ye Chen, diante daquele olhar tão cheio de expectativa, não teve coragem de decepcioná-lo, mas a verdade precisava ser dita.

— Nunca fiz um parto, nem enfrentei uma situação de parto difícil. Para ser sincero, ainda não curei de verdade nenhum paciente.

— Mas eu entendo um pouco de medicina. Se você quiser, posso tentar. Mas não posso garantir o resultado.

Não era fuga de responsabilidade. Ye Chen não queria que A He despencasse do pico da esperança ao abismo da decepção.

O choque seria grande demais.

Com um baque, A He ajoelhou-se diante de Ye Chen.

— Senhor, eu confio no senhor. Deixo Huá e a criança sob seus cuidados. O que quer que aconteça, jamais o culparei.

E bateu a cabeça no chão com força, três vezes seguidas, até a testa ficar vermelha.

Ye Chen o levantou rapidamente, deu-lhe um tapinha no ombro e, em silêncio, dirigiu-se ao quarto de parto.

Na porta, Ye Chen parou de repente e se virou para A He, que era amparado por Wang Hu.

— A He, me responda... Se for preciso escolher entre mãe e filho, qual devo salvar?

O ideal é sempre reconfortante, mas a realidade é dura.

E agora era a realidade.

Sem hesitar, A He, que antes tremia, endireitou o corpo, respirou fundo e, com toda a força, murmurou entre os dentes:

— Salve a mãe.

— Está bem.

Ye Chen assentiu e entrou no quarto.

Ao vê-lo desaparecer no cômodo, o corpo robusto de A He pareceu esvaziar-se de repente, ficando trêmulo. Mas os anos de vida na floresta deram-lhe firmeza e ele permaneceu imóvel, como uma árvore, olhando fixamente para a porta.

Como se seu olhar pudesse atravessar as paredes e ver o que se passava lá dentro.

— A He, confie no senhor. Ele nunca nos decepcionou. Vai dar tudo certo, Huá e a criança também ficarão bem — Wang Hu bateu no ombro de A He e ficou ao seu lado, esperando.

Nesses momentos, palavras de consolo são inúteis. Como bom amigo, só resta estar junto.

Os que estão fora confiam em quem está dentro.

Mas, naquele instante, os de dentro não confiavam em si mesmos.

— Senhor, ainda bem que o senhor veio.

A parteira, uma idosa de cabelos brancos, mostrava o mesmo alívio que A He ao ver Ye Chen.

— Eu ter vindo pode não ser suficiente.

Ye Chen balançou a cabeça e observou Huá, suando em bicas, o ventre inchado, o líquido amniótico e o sangue misturados, além de um pezinho de bebê já à mostra. Para ser sincero, sentiu as vistas escurecerem.

Não era medo de sangue, mas a situação era tão tensa que seu coração retumbava no peito.

— Senhora, segundo sua experiência, qual é exatamente o problema?

Respirou fundo, tentou se recompor e, enquanto examinava o pulso de Huá, perguntou.

— O bebê está mal posicionado, o pé veio primeiro. Mas o pior é que o cordão umbilical está enrolado no pescoço do bebê. Assim, não há o que eu possa fazer.

— Se forçar, o bebê pode morrer enforcado e Huá pode sofrer uma hemorragia. Se demorar, o bebê morre sufocado e Huá também corre perigo. Veja, senhor, a pele do bebê já está azulada.

Cordão enrolado, hemorragia... Ye Chen ouvira muito esses termos em dramas palacianos.

Jamais imaginou que um dia passaria por isso.

— Felizmente, o estado interno de Huá está dentro do esperado.

Após conferir o pulso e o ritmo cardíaco, percebendo que o bom condicionamento físico de Huá, adquirido pelo trabalho duro, ajudava, Ye Chen sentiu enorme alívio.

O olhar pousou no pezinho azulado que a parteira apontava. Refletiu um instante e pousou a mão sobre o ventre de Huá, deixando fluir o qi vital para o interior do corpo dela.

O qi não era como ultrassom, não permitia ver imagens, mas ao percorrer os meridianos, Ye Chen conseguia sentir a situação interna por outro ângulo.

O qi foi guiado até o cordão umbilical, que se enrolava em espirais, conectando-se ao novo ser.

— Duas voltas... Pequeno, você brincou de piruetas mortais na barriga da mãe?

Ye Chen não pôde deixar de resmungar em pensamento.

Brincou tanto, mas não imaginou que ia dar nisso?

Ye Chen ficou angustiado. O que deveria fazer diante daquela situação?

— Senhor, e agora? — apressou-se a parteira ao ver Ye Chen parado.

— Senhora, se eu conseguir desenrolar o cordão do pescoço do bebê por dentro, consegue fazer o parto?

— Se for assim, não é problema.

— Então vou tentar liberar o cordão.

Ye Chen começou a agir. Cravou agulhas de prata nos pontos da região inferior de Huá. Isso não fazia o bebê girar sozinho, mas ampliava um pouco a bacia, abrindo espaço para manobra.

Obviamente, esse espaço não permitia mexer manualmente, ainda era limitado.

O plano de Ye Chen era simples: usar o qi vital para girar o bebê e soltar o cordão.

Manipular objetos com qi... Daqui a trinta anos, Qiao Feng poderia agarrar dragões e controlar garças — coisas extraordinárias.

Mas Ye Chen, no momento, não tinha essa precisão, nem tanto qi, nem as técnicas certas. As artes que praticava não serviam para isso.

Entretanto, o qi era qi. Mesmo sem a técnica, possuía suas propriedades.

Durante os treinamentos, ao praticar a mão de areia ou ao cravar agulhas, Ye Chen já conseguira mover pequenas quantidades de areia com o qi.

Inspirou fundo, reuniu todo o qi nas mãos, deixou-o fluir para o interior de Huá e, de súbito, desencadeou uma onda de força sobre o bebê.

O bebê se mexeu, deu uma cambalhota e, com isso, o qi de Ye Chen se esgotou.

Não havia outro jeito. O bebê era pesado, não era como brincar com areia ou agulhas.

Por isso, ele precisava se esforçar ao máximo. Por sorte, surtiu efeito.

Sem qi, Ye Chen lançou o pouco que restava para o cérebro, provocando uma morte súbita, e então voltou à vida, com o qi renovado.

Repetiu isso várias vezes. Depois de cinquenta e seis tentativas, cerca de dez minutos depois, finalmente o cordão estava livre do pescoço do bebê.

— Agora é com a senhora.

Ye Chen respirou aliviado. Após tantas mortes e renascimentos, estava exausto. Forçou um sorriso para a parteira ao lado.