Caçando o Tigre
Na manhã seguinte, Ye Chen, Li Erhu e mais três homens robustos da aldeia partiram juntos para a montanha em busca do tigre feroz.
Caçar um tigre não era tarefa pequena. Embora a vila junto à montanha já tivesse enfrentado esse desafio antes, sempre foi resultado do esforço coletivo de vários caçadores. Como um caçador experiente, Li Erhu conhecia bem a força de um tigre. Por isso, apesar de suas palavras ousadas, foi cauteloso, levando todos em grupo; ninguém se arriscaria sozinho.
— Senhor, por que decidiu vir conosco? — perguntou Li Erhu, abrindo caminho entre os galhos, enquanto Ye Chen seguia no meio do grupo.
— Talvez você ache estranho, mas tenho uma inimizade mortal com um tigre — respondeu Ye Chen, afastando ramos pendurados de uma árvore à sua frente, sorrindo. — Achei que devia vir, talvez encontre aquele meu desafeto. Se topar com aquela fera, preciso me vingar.
— Inimizade mortal? — perguntou Zhang Shan, curioso, o pai de Zhang Yuan. — Que tipo de desavença é essa? O tigre quase matou o senhor?
— Pode-se dizer que sim — Ye Chen riu. — De certo modo, aquela fera me concedeu uma nova vida.
Balançou a cabeça, lembrando-se do passado, achando graça da situação. Pensou consigo mesmo: Buda cortou sua carne para alimentar uma águia e a redimiu; ele mesmo, por inteiro, serviu de alimento ao grande tigre. Se reencontrasse aquele tigre, será que ele se emocionaria e se tornaria sua montaria?
Ye Chen ainda sonhava em ter um tigre como montaria ou animal de estimação. Só de imaginar, achava deslumbrante.
— E vocês, qual é o plano para caçar o tigre? — perguntou, curioso.
Caçar tigre não era apenas questão de força ou coragem; antes de tudo, era preciso encontrar o animal. Tigres têm territórios próprios, mas não um covil fixo. Como reis da floresta, vagam onde querem, tornando-se quase impossíveis de localizar nas montanhas. Além disso, se realmente o encontrassem, enfrentá-lo de frente seria suicídio — Ye Chen pensava que, nesse caso, eles acabariam servindo de aperitivo para o felino.
— O senhor Zhang não entra muito na mata, então talvez não saiba: nesta montanha há um tigre velho, expulso de seu território. Tigres têm forte instinto territorial e vivem brigando entre si. Este, já idoso, não conseguiu defender seu espaço e veio parar aqui, numa montanha onde quase não há presas — explicou Li Erhu.
— Para sobreviver, ele só consegue caçar javalis e veados. Por isso, seu raio de ação é limitado e logo estaremos em sua área.
— E depois? — perguntou Ye Chen, ainda mais curioso diante do conhecimento prático de Li Erhu.
— Depois, caçamos um filhote de veado e usamos como isca para armar uma emboscada — respondeu Li Erhu, rindo. — Um tigre velho não tem mais forças para caçadas longas, então a fome é grande motivação. Vamos atraí-lo e, quando aparecer, testaremos nossa habilidade.
— Então, nosso primeiro passo é pegar um filhote de veado? — Ye Chen sorriu. — Isso é bem mais fácil.
O grupo agiu rápido. Guiados pela vasta experiência de Li Erhu e dos outros caçadores, logo encontraram uma manada de veados e se aproximaram sorrateiramente.
— Não avancem mais — ordenou Li Erhu, ao avistarem a manada, a cem passos de distância. — Se formos mais perto, vamos assustá-los.
— Foquem naquele filhote que está mamando; todos juntos, atirem as flechas — instruiu, apontando para um filhote sob a mãe.
A distância era de quase cem passos; o vento, os galhos e o movimento do alvo tornavam o disparo difícil. Ye Chen mirou com calma. Com o crescimento diário de sua energia interior, sua percepção e força aumentavam silenciosamente, e seu arco estava cada vez mais certeiro. Mas acertar um animal a cem passos era, ainda assim, um desafio inédito.
Enquanto Ye Chen buscava o momento ideal, os demais já haviam disparado suas flechas — caçada não espera pela perfeição. Sentindo o impulso do grupo, Ye Chen não hesitou mais; soltou a corda e a flecha voou.
Um brado ecoou na floresta. As flechas acertaram o filhote, que tombou enquanto a manada fugia em desespero, levantando uma revoada de pássaros e alarmando os demais animais.
— Que sorte! Achei que não conseguiríamos, mas acertamos de primeira! — comemorou Li Erhu, indo recolher a presa.
— Foi graças à flecha do senhor. O senhor acertou em cheio a pata traseira do filhote. Se dependêssemos só das nossas, teríamos que correr atrás por um bom tempo — disse Zhang Shan, sorrindo.
— Senhor, essa energia interior que o senhor cultiva é mesmo tão poderosa? Eu também posso aprender? — perguntou Zhang Shan, olhando para Ye Chen com esperança.
Todos haviam notado a rápida evolução da habilidade de Ye Chen no arco e flecha. Embora ainda não superasse os mais experientes em todos os aspectos, em precisão já os ultrapassava. Nenhum caçador dispensaria a chance de aprimorar sua pontaria.
— Não é impossível. Já estou ensinando Yuan e Huniu. Quando voltarmos, vocês podem aprender com eles. Mas não criem muita expectativa; com a idade, é difícil sentir a energia — respondeu Ye Chen, sorrindo diante dos olhares ansiosos.
Para ele, não havia motivo para guardar tal conhecimento só para si. Imortal como era, não via ameaça em quem aprendesse — preocupações tão comuns entre mortais lhe pareciam agora coisas de criança.
— Senhor, podemos mesmo aprender? — perguntou Li Sanhu, radiante, segurando o filhote de veado ainda ofegante.
Todos tinham interesse, mas sabiam respeitar segredos alheios. Zhang Shan perguntara sem grandes intenções; ninguém esperava que Ye Chen consentisse tão prontamente, causando grande surpresa e alegria.
— Chega de conversa, vamos focar no tigre — disse Ye Chen, sorrindo ao ver o filhote ainda se debatendo nas mãos de Li Sanhu.
— Fique tranquilo, senhor! — garantiu Li Sanhu, confiante.
O grupo chegou a uma floresta densa, onde os caçadores começaram a cavar e preparar a armadilha.
— Este é o caminho que o tigre costuma percorrer. Vamos cavar aqui, deixar o filhote como isca e subir nas árvores. Quando o tigre cair na armadilha, descemos e atacamos — explicou Li Sanhu.
— Senhor, prepare seu arco e fique de prontidão lá em cima. Se algo der errado, suas flechas serão nossa maior esperança.