Sofrimento
Zhang Lin e os demais partiram, e a vida de Ye Chen seguiu seu curso.
Três dias se passaram desde a despedida. O mestre, utilizando a vesícula retirada da grande serpente e combinando-a com diversas ervas preciosas, finalmente preparou um tônico medicinal. Observando o líquido colorido diante de si, Ye Chen não conseguia lembrar de nenhum ingrediente que tivesse tantas cores vivas!
Seguindo o princípio de que, na natureza, quanto mais vibrante a cor, maior o perigo, Ye Chen não pôde deixar de pensar: “Está na hora do remédio, meu caro.”
— Mestre, foi mesmo essa a receita do seu irmão de aprendizado?
Sem coragem de duvidar da habilidade do mestre, Ye Chen preferiu questionar a receita do tio-mestre. Wang Yang, percebendo de imediato o que se passava na cabeça do discípulo, torceu os lábios:
— Nunca ouviu dizer que o melhor remédio também é o mais venenoso?
— Chega de conversa, beba logo isso.
Movido pela confiança, Ye Chen engoliu tudo de uma vez, sem dizer palavra, como se brindasse com um copo de licor forte. Uma amargura extrema invadiu cada papila gustativa, e não parou por aí: seu estômago parecia em ebulição, mas ao menos não sentiu náuseas. No entanto, naquele instante, sentiu-se como um gato agarrado pelo rabo, com o corpo inteiro tomado por arrepios.
A amargura parecia se espalhar por todo o corpo através dos nervos. Era uma sensação impossível de descrever!
Contudo, ao contrário do que diz o ditado, o alívio não veio depois do amargor. Ainda assim, havia um estímulo peculiar misturado àquele gosto intenso; enquanto suportava as ondas de amargor, Ye Chen percebeu que seu corpo passava por transformações sob esse impacto.
— Irmãozinho, está tudo bem com você?
Vendo Ye Chen sentado na cadeira, com o rosto todo contorcido, Zhao Shan demonstrava preocupação. Para ser sincero, sempre suspeitara que o mestre preparava veneno, não remédio.
— Estou... bem! — forçou um sorriso mais feio que choro. — Consigo sentir o efeito do remédio.
— Quem quer imunidade a todos os venenos e visão aguçada não pode esperar facilidades, — comentou Wang Yang, olhando com indiferença para Zhao Shan, que se agitava. — O corpo humano absorve apenas uma quantidade limitada. Engolir a vesícula da serpente pura não permite digerir todo seu poder; combiná-la com ervas transforma sua essência num caldo potente, intensificando o efeito e espalhando o poder medicinal pelo corpo todo. Essa reação forte é normal, basta resistir.
Dito isso, Wang Yang virou-se e saiu para atender pacientes na frente da casa. Ao ouvir as palavras do mestre, Zhao Shan ficou mais tranquilo e despediu-se:
— Aguente firme, irmãozinho. Hoje está cheio de pacientes, vou ajudar o mestre. Segure as pontas aqui.
Ye Chen nada pôde fazer além de suportar. Mas apenas aguentar parecia insuportável; então levantou-se para treinar pugilismo, tentando concentrar a mente e suprimir a dor.
A princípio, seus movimentos eram distraídos, mas à medida que o corpo se aquecia, Ye Chen foi se imergindo no treino. Movia-se com agilidade, e de repente percebeu que conseguia enxergar as minúsculas ondulações provocadas por seus próprios golpes.
Sua visão havia melhorado.
Num lampejo, Ye Chen percebeu que, ao focar ao longe, conseguia distinguir claramente os desenhos nas asas de uma borboleta a vários metros de distância. Se antes sua visão era como nota 1, agora era como 2. Não só enxergava mais longe, como captava movimentos com mais precisão: o bater das asas da borboleta, antes imperceptível, agora parecia desacelerar quando se concentrava, permitindo-lhe ver cada detalhe do movimento.
— Realmente, a vesícula do rei da selva não é coisa simples... Mas quando será que essa amargura vai passar?
A mente não podia permanecer eternamente focada no treino; ao menor descuido, a amargura retornava e se espalhava pelo corpo. Tentar mergulhar novamente naquela concentração era impossível.
— Maldição!
Sozinho no quintal dos fundos, Ye Chen decidiu que era melhor ir para a frente ajudar o mestre, assim talvez conseguisse se distrair.
— Mestre, há algo em que eu possa ajudar?
O consultório da família Wang costumava ser calmo, mas agora estava lotado de pacientes, todos com o rosto pálido, mal conseguindo ficar de pé, visivelmente debilitados.
— Estão todos intoxicados por miasmas, — explicou Wang Yang. — O veneno se espalha pela respiração, entra no sangue e chega aos ossos; não mata de imediato, mas consome a vitalidade pouco a pouco. Os sintomas principais são danos nos pulmões, dificuldade para respirar, tontura, fraqueza e instabilidade. Aplique acupuntura no ponto Taiyuan para estimular os pulmões e garantir que possam respirar melhor por ora.
— Sim, mestre.
Ye Chen pegou as agulhas e começou o procedimento. Talvez não dominasse todos os pontos, mas o Taiyuan era tarefa fácil. Com a inserção da agulha, os pacientes sentiam alívio imediato.
— Doutor Ye, você herdou mesmo o verdadeiro conhecimento; essa agulhada trouxe um grande alívio, — elogiou um homem corpulento, sorrindo entre ofegos.
— Apenas um pouco de técnica, nada demais, — respondeu Ye Chen humildemente, curioso: — Irmão, como vocês foram envenenados?
— Pelo que sei, só nas profundezas do Monte Sul há miasma, mas quase ninguém se aventura por lá.
— Acontece que o senhor da terra está doente e, segundo dizem, será necessário usar a Pedra das Cinco Cores para pedir bênçãos. Quem trouxer uma dessas pedras terá cinco anos de isenção de impostos, — explicou o homem, suspirando. — Como há muitas pedras estranhas no Monte Sul e já houve quem achasse uma colorida, muitos foram tentar a sorte. Mas... quase perderam a vida lá.
O homem demonstrava tanto emoção quanto arrependimento.
— O senhor da terra está doente? — Ye Chen ficou surpreso. Nos últimos dias, estivera tão focado no treinamento que não soube da novidade. Talvez por isso os tios-mestres Sun Hua e os outros vieram em busca do fruto vermelho; se for assim, faz sentido, pois não teriam urgência se não fosse importante.
— Pelo tom do senhor, alguém conseguiu achar a pedra?
Ye Chen não se interessava pelo destino do imperador da Dinastia Song, mas sim pela tal Pedra das Cinco Cores.
— Sim. Alguém encontrou uma pedra colorida no meio do miasma e já entregou ao magistrado, que anunciou isenção de impostos por cinco anos para o felizardo, seja qual for o negócio que faça no condado, — contou o homem, cheio de inveja. — Pena que não temos a mesma saúde; não suportamos o miasma e logo desmaiamos...
— E que tipo de pedra é essa? Basta ter cinco cores diferentes?
Enquanto aplicava as agulhas, Ye Chen indagava, pensando consigo mesmo: se for só questão de cores, não basta pintar uma pedra com tintas? O prêmio de cinco anos sem impostos era muito tentador.
Se conseguisse a isenção, a vila Kaoshan poderia crescer e prosperar consideravelmente.