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Sobrevivi a Todos os Mundos Pão cozido no vapor e pão recheado 2370 palavras 2026-02-09 14:17:23

Como é a sensação da morte? Para Ye Chen, parecia não ser nada demais. Apenas uma onda de dor, seguida por uma escuridão profunda — claro, isso porque o Irmão Tigre lhe deu um fim rápido. Se ele não tivesse quebrado seu pescoço de uma vez e preferisse devorá-lo enquanto ainda estava consciente, talvez o desfecho fosse bem diferente.

“Não imaginei que seria mesmo imortal. Não só isso, como também posso escolher quando reviver.” Era o mesmo corpo, mas agora estava ali, nu, de pé no mesmo lugar, ressuscitado. Na verdade, poderia ter voltado antes? O corpo estava irreconhecível... Ye Chen desviou o olhar, desconfortável; embora fosse ele mesmo, sentia-se como se tivesse visto um fantasma.

Reprimindo o mal-estar, arrancou as roupas rasgadas e ensanguentadas deixadas pela fera. Apesar do estado deplorável, ainda serviam para cobrir o necessário, e Ye Chen não queria expor seu corpo belo e jovem ao mundo. A calça ao menos mantinha-se minimamente inteira, faltando apenas uma perna; a camisa, por sua vez, restava em farrapos, só duas mangas pendendo...

Mas, de todo modo, era melhor ter algo do que nada. Suspirou, prestou uma última homenagem ao antigo eu e pôs-se a correr descalço pela trilha. Não pretendia virar refeição de fera outra vez. Apesar de ser uma experiência inédita, não era nem de longe agradável. Precisava sair dali o quanto antes!

Correu sem parar, ignorando se os joelhos aguentariam ou se ficaria sem fôlego. Afinal, era imortal; no máximo, morreria mais uma vez e se livraria de qualquer mal-estar.

Quando o crepúsculo caiu, Ye Chen chegou enfim a uma pequena aldeia. Modesta, contava apenas com sete ou oito famílias, vivendo da caça, a julgar pelos homens armados de arcos.

“Senhor, por acaso se deparou com alguma fera selvagem?” Na entrada da aldeia, um homem de barba densa, por volta dos trinta anos e vestido em pele de animal, observou as roupas destroçadas de Ye Chen e logo deduziu algo.

“Cruzei com um tigre e quase virei jantar dele.” Ofegante, Ye Chen respondeu.

“Escapou das garras de um tigre, o senhor tem sorte. Mas não vejo ferimentos em sua pele...” O caçador examinava Ye Chen, intrigado. Sua aparência condizia com quem enfrentara uma besta, mas, curiosamente, o corpo exposto não exibia nenhum arranhão.

“Tive sorte de encontrar um mestre das artes marciais, graças a ele sobrevivi. E, para falar a verdade, essas roupas peguei de alguém que não teve a mesma sorte com o tigre.” Ye Chen justificou.

A aldeia era simples, e embora estranhassem, não duvidaram de suas palavras.

“O dia já se vai, por que não passa a noite aqui conosco? Amanhã, ao amanhecer, poderá seguir viagem.” O homem ofereceu.

“Muito obrigado!” Ye Chen agradeceu, juntando as mãos como vira nos dramas de época. Era tudo o que queria — pensava até em inventar uma desculpa para ficar, mas foi recebido de braços abertos.

O homem era caçador, vivia com a esposa e o filho, todos igualmente cordiais e acolhedores. Serviram-lhe carne de cervo no jantar; não era um prato primoroso, mas, para Ye Chen, esfomeado e exausto após o dia inteiro de corrida, tratava-se de um verdadeiro banquete.

No dia seguinte:

“Irmão Wang, quero ficar na aldeia, aprender a caçar com você e viver aqui. Acha que é possível?” Ao amanhecer, Ye Chen deveria partir, mas não queria. Acabara de chegar a esse mundo antigo, nada sabia sobre nada — comida, abrigo, costumes; estava completamente perdido. Queria primeiro se adaptar à pequena aldeia.

E o homem à sua frente era o mais respeitado ali; se concordasse em acolhê-lo, Ye Chen teria um lar, caso contrário... teria que partir.

“Não pode voltar para casa, senhor?” O homem olhou desconfiado. Apesar da fragilidade de Ye Chen, não temia que ele causasse problemas, mas preocupava-se que atraísse confusão para o vilarejo.

“Fique tranquilo, irmão, não trarei problemas. Não tenho mais família, todos já se foram. Estou sozinho no mundo e não tenho para onde ir. Peço, por favor, que me aceite.” Ye Chen fez uma reverência profunda, falando com sinceridade. Com gente simples, honestidade é a melhor moeda.

“Não tenho grandes habilidades, mas tenho algum conhecimento, posso ensinar as crianças da aldeia.”

“Está bem!” Wang Hu aceitou prontamente. Naquele tempo, o saber era um bem precioso; Wang Hu sonhava em ver as crianças do vilarejo aprendendo algo, mas quem as ensinaria? De onde tirariam dinheiro para pagar um mestre?

Agora, tendo um mestre caído do céu, Wang Hu não podia desperdiçar a oportunidade.

“Senhor, não precisa aprender a caçar comigo. Daqui em diante, ensine as crianças; alimentação e vestuário nós providenciaremos.” Wang Hu garantiu batendo no peito.

“Está brincando, irmão Wang! Gosto de conquistar o meu sustento.” Ye Chen suspirou aliviado — pelo menos, estava seguro ali.

Wang Hu foi conversar com os outros moradores, contando sobre Ye Chen. Todos ficaram contentes; ter um homem letrado era motivo de grande celebração.

“Senhor, fique em minha casa por uns dias, nesses dois meses construiremos sua casa juntos.” Ye Chen sentia-se mimado, algo inédito para ele. Wang Hu antecipava todas as necessidades sem que precisasse pedir.

“Muito obrigado, irmão Wang.” Ye Chen agradeceu sinceramente. Nunca experimentara tamanha solidariedade; sentia-se verdadeiramente acolhido.

Enquanto preparavam-lhe a casa e utensílios, Ye Chen também quis mostrar seu valor. Naquele mesmo dia, iniciou as aulas.

A aldeia tinha trinta e seis habitantes, dez crianças com menos de quinze anos. Era com elas que Ye Chen se ocupava, mas outros moradores podiam assistir às lições.

“Hoje vou ensinar os números. Quando crescerem, sairão para caçar, vender no mercado, tudo isso exige saber contar. Se não aprenderem, poderão ser enganados.”

Ye Chen não conhecia a escrita ou os clássicos daquele tempo, por isso trouxe ensinamentos modernos.

Usando uma grande casca de árvore e um graveto queimado na ponta, escreveu de 0 a 10 com números arábicos.

“Isto é o zero, quando não temos nada. Isto é o um; olhem para o dedo de vocês, um dedo é um...” Eram crianças sem qualquer contato com o saber, então Ye Chen ensinava de forma simples, direta e básica.

PS: Novo livro! Peço que adicionem aos favoritos, recomendem e apoiem! Muito obrigado pelo carinho, leitores!