100: Derramar até a última gota de sangue
A pergunta de Masaki Satou não apenas trouxe uma reflexão profunda para Sombra do Abismo, como também fez com que os espectadores do outro lado da tela franzissem a testa, imersos em seus próprios pensamentos.
— É mesmo, qual será afinal a profissão desse homem do Reino do Dragão?
— Pensando bem, desde que entrou neste mundo, ele já usou duas profissões.
— “Timoneiro” e “Motoqueiro”, esses nomes me soam familiares, acho que os fugitivos do Reino do Poente também têm profissões parecidas.
— Mas não importa qual seja, um fugitivo jamais poderia possuir mais de uma profissão!
É um consenso inquestionável: um fugitivo só pode ter uma profissão.
No entanto, Ye Huan desafiava todas as convicções dos demais.
Até mesmo os espectadores do Reino do Dragão murmuravam admirados:
— Agora entendo por que Huan é tão confiante. Não só é um caçador formidável, como também um fugitivo assustadoramente poderoso.
— Será que ele só tem essas duas profissões, ou apenas nos revelou essas duas?
...
Mundo do Pesadelo.
Ye Huan olhou para a imponente Montanha Fuji à frente, enquanto uma cena se desenrolava diante de seus olhos.
Era uma lembrança de sua vida anterior: o Reino do Dragão estava em frangalhos, parte de seu território havia sido anexado pelo Reino das Cerejeiras, e quase todos os compatriotas que viviam ali haviam sido massacrados.
Os poucos sobreviventes vagavam como mortos-vivos.
Naquela época, Ye Huan jurou para si mesmo exterminar aquele povo até o último.
Nada o impediria, nenhum método seria poupado.
Por isso, os habitantes do Reino das Cerejeiras tinham que morrer.
Após alguns passos, Chen Yan chamou Ye Huan de repente.
— Huan, tem algo estranho.
Ye Huan seguiu o olhar de Chen Yan e viu que ele apontava para a direção da Montanha Fuji. Seu rosto estava tenso, fixo na fumaça branca que subia da montanha.
— Que vulcão aterrador... Se ele entrar em erupção... só há uma forma de sobreviver: sair deste país...
Graças à sua habilidade de “Percepção”, Chen Yan parecia vislumbrar temporariamente cenas do futuro.
Mesmo após os acontecimentos dos últimos dias, seu rosto estava pálido como cera.
— Só vi algumas imagens isoladas... tudo muito borrado...
Ao falar isso, o suor escorreu em torrentes por sua testa, e seu nível de medo disparou.
De vinte e dois por cento, saltou diretamente para trinta e cinco.
Vendo aquilo, Ye Huan aproximou-se, bateu forte em seu ombro e exclamou:
— Volte para si!
O corpo de Chen Yan estremeceu, e então ele abriu os olhos, ainda atordoado.
Ao ver Ye Huan, murmurou, trêmulo:
— Huan, foi terrível... realmente terrível...
O que Chen Yan viu, Ye Huan já podia imaginar.
Provavelmente, eram cenas do terremoto de magnitude doze.
Para uma criança, aquele espetáculo era realmente demasiado chocante.
Se Chen Yan estava assim, os habitantes do Reino das Cerejeiras reagiriam de forma ainda mais deplorável.
Esse era o objetivo de Ye Huan.
Ele queria, através desse mundo, quebrar a espinha daquele povo, de dentro para fora.
Ye Huan apoiou a mão no ombro de Chen Yan e disse baixinho:
— Daqui em diante, não precisa usar sua percepção. Descanse um pouco.
Chen Yan assentiu, mas não pôde evitar de perguntar:
— Huan, por que é preciso exterminá-los completamente?
Ye Huan olhou para ele e devolveu a pergunta:
— Porque não temos o direito de perdoá-los em nome dos que morreram.
Chen Yan assentiu, sem compreender por completo, e os dois retomaram o caminho para o sul.
Talvez por estarem próximos da capital de Inverno, o trânsito no condado de Inverno era muito melhor do que no condado de Gao, já submerso pelo mar.
Não que ali o tempo estivesse em calmaria, na verdade Ye Huan ainda observava muitos rostos aflitos fugindo do condado de Inverno.
Mas o fluxo de fugitivos era menor; pelo menos, após tomar um carro, Ye Huan podia dirigir tranquilamente pela estrada.
Em poucos minutos, já havia deixado o condado de Inverno e chegava diante de uma ponte sobre o mar.
Era o único caminho para seguir ao sul.
Enquanto esperava, uma luz vermelha intensa surgiu de repente no centro da ponte.
Um estrondo.
Logo em seguida, uma nuvem em forma de cogumelo subiu lentamente.
A ponte, antes sólida, não suportou mais o peso e partiu-se no meio, abruptamente.
Carros despencavam no mar como bolinhos em água fervente, explodindo antes mesmo de tocar a superfície, transformando-se em bolas de fogo.
Diante disso, Ye Huan franziu o cenho.
Como isso era possível?
Em sua memória, essa ponte não havia sofrido danos antes do terremoto.
Seria possível que...
De repente, uma ideia lhe ocorreu. Saiu do carro, observou ao redor e logo avistou uma figura familiar adiante.
A Sombra do Abismo, agora com apenas um braço.
Ela lançou-lhe um olhar, fechou a porta do carro, virou-se e foi embora.
Ao ver isso, Ye Huan compreendeu tudo.
A destruição da ponte não era resultado de alguma mudança nas linhas do tempo, mas sim de uma ação deliberada.
A responsável, claro, era Masaki Satou.
Mesmo sendo adversária, Ye Huan não pôde deixar de admirá-la um pouco.
Ela não só cortou a rota de fuga de Ye Huan, mas também a sua própria.
Ela encontrara outro caminho: usar a força da natureza para matar Ye Huan.
Vendo a retaguarda cortada, o pânico tomou conta do rosto de Chen Yan.
— Huan, estamos muito perto da Montanha Fuji.
O Monte Fuji era um supervulcão, e o terremoto certamente o faria explodir.
Quando isso acontecesse, ninguém sobreviveria.
Ye Huan, entretanto, manteve-se calmo.
— Espere aqui, preciso resolver uma coisa.
Dito isso, deixou Chen Yan no carro, tomou de assalto a moto de um transeunte e partiu na direção por onde Sombra do Abismo havia desaparecido.
Faltavam dez minutos para o início do terremoto devastador.
Antes disso, Ye Huan precisava acertar as contas com Masaki Satou.
Logo à frente, Ye Huan avistou Sombra do Abismo à beira da estrada.
Ao perceber que Ye Huan a seguia, ela não disse nada, apenas entrou em uma floresta próxima.
Ye Huan a viu sumir entre as árvores, não hesitou, montou na moto e entrou atrás.
Provavelmente ferida gravemente, Sombra do Abismo estava lenta; Ye Huan logo a alcançou.
Ele sacou lentamente sua ambição, mirou nas costas dela e, quando estava prestes a puxar o gatilho, fez um movimento brusco com o guidão e caiu de lado no chão.
Ao mesmo tempo, uma flecha negra cruzou o espaço onde ele estava instantes antes, cravando-se silenciosamente no tronco de uma árvore.
Ye Huan lançou um olhar à flecha preta, sentindo uma inquietação avassaladora.
Seu instinto dizia que aquela flecha era letal: se fosse atingido, um efeito negativo seria ativado imediatamente.
E, quando o terremoto começasse, ele estaria condenado.
Do outro lado, Sombra do Abismo estava ainda mais chocada.
Aquela flecha era o golpe mais meticuloso de sua cooperação com Masaki Satou, seu trunfo mortal, e Ye Huan a desviara com facilidade.
— Sombra, não fique parada.
No fone de ouvido, a voz ofegante de Masaki Satou soou.
— A verdadeira batalha começa agora.
— Pelo bem de todos os nossos compatriotas, mesmo que tenhamos que sangrar até a última gota, precisamos detê-lo!