085: O Médium do Reino do Dragão
O maremoto no horizonte parecia estar a uma distância imensa, mas isso não passava de uma ilusão dos sentidos. Considerando a localização do Condado de Gao, o epicentro que deu origem ao fenômeno devia situar-se na zona de fronteira das placas do Mar do Norte. O fato de já ter chegado ali indicava que a velocidade atingira um patamar assustador.
Aos olhos de Ye Huan, aquela onda já não era mais um corpo de água dócil, mas sim uma muralha de bronze capaz de esmagar e despedaçar quem estivesse em seu caminho. Ele fez um cálculo mental — pela aceleração, a onda atingiria o condado em cerca de três minutos.
Restavam-lhe duas tarefas urgentes.
Primeira: afastar-se da costa antes da chegada do maremoto.
Segunda: após a passagem da onda, manter-se longe de qualquer instalação elétrica.
O mar destruiria todas as estruturas elétricas à beira da estrada e, nesse processo, os fios entrariam em contato com a água salgada, gerando um novo desastre. Naturalmente, com a invasão do maremoto, toda a rede elétrica da cidade entraria em colapso, mergulhando tudo na escuridão. Entretanto, os primeiros minutos seriam especialmente perigosos.
Depois de estabilizar a rota, Ye Huan entrou no compartimento do barco, vasculhou o interior e encontrou duas roupas seladas de borracha. Atirou uma para Chen Yan e perguntou:
— Qual é a sua profissão?
Antes mesmo da resposta, ele já intuía a verdade. Em sua vida anterior, Chen Yan tinha a profissão chamada de Selvagem, que significava “aquele que perdeu a sanidade”, e essa ocupação possuía dois talentos centrais:
Perda de Consciência: por certo tempo, o usuário perdia completamente a empatia humana, agindo apenas para cumprir seu objetivo.
Fúria Insana: durante determinado período, suprimia todas as sensações negativas, aumentando consideravelmente sua força e velocidade.
Pelas características da profissão e de suas habilidades, ficava claro que o estado mental de Chen Yan adulto não era dos melhores. E isso se comprovava: em sua encarnação anterior, Chen Yan agia como um lunático, alguém que só Ye Huan era capaz de controlar — e a quem ele obedecia cegamente.
Porém, para sua surpresa, Chen Yan mostrou-se hesitante e respondeu:
— Huan, eu... acho que não ativei nenhuma profissão.
Ye Huan franziu o cenho.
Isso era impossível.
Chen Yan fora selecionado aleatoriamente pelo Mundo dos Pesadelos para ali entrar, e sua profissão certamente estaria de acordo com as exigências. Era justamente isso que mais intrigava Ye Huan.
Vale lembrar que o mapa “Afundamento das Cerejeiras” era de categoria C; embora, em sua vida anterior, Chen Yan tivesse alcançado mapas de categoria S, isso acontecera muitos anos depois. Agora, ainda sendo uma criança, já demonstrava estar acima da média dos fugitivos comuns. Ativar o Selvagem não exigia tanto — ele certamente já o teria feito.
Com isso em mente, Ye Huan perguntou:
— Que habilidades você possui agora?
Chen Yan fechou os olhos para sentir, mas, ao abri-los, mostrou-se confuso.
— Só tenho uma habilidade, mas parece inútil.
Ye Huan franziu ainda mais a testa.
— Mostre-a para mim.
Chen Yan assentiu e, seguindo a orientação do Mundo dos Pesadelos, revelou as informações da habilidade:
Nome da habilidade: Percepção (Nível C+)
Categoria: Habilidade exclusiva de “???”
Subcategoria: Previsão de perigo
Efeito exclusivo: Consome certa quantidade de energia mental para sentir perigos iminentes ao redor.
Efeito exclusivo 2: Consome energia mental para detectar ameaças direcionadas a você.
Descrição: Você, recém-nascido, é extremamente frágil e precisa de alguém que o guie e o proteja das tempestades.
Que você possa crescer forte, e que seus esforços floresçam e deem frutos.
Tudo naquela habilidade de Chen Yan exalava uma estranheza inquietante.
Primeiro, Ye Huan jamais vira uma descrição tão peculiar. O nome da habilidade estava ali, mas a profissão permanecia oculta, o que já era singular. O mais intrigante era o fato de “Percepção” não fortalecer o corpo ou a mente do fugitivo, ao contrário do que era de se esperar.
Pelo que Ye Huan sabia, todo talento inicial de profissão deveria, de algum modo, garantir proteção ou ser ofensivo. Essa habilidade, por outro lado, assemelhava-se às de ocupações raras, como a do Observador das Estrelas.
E aquela descrição? O que significava?
Seria possível que...
Um pensamento inusitado cruzou sua mente.
No mesmo instante, no mundo real, Zhang Yang, que assistia à transmissão, prendeu a respiração de forma audível e levantou-se bruscamente da cadeira.
Ji Tian, ao ver a cena, ficou intrigada.
— Senhor Zhang, o que aconteceu?
Ele não respondeu, fitando a tela com emoção, os olhos fixos em Chen Yan, e murmurou, trêmulo:
— Um Médium...
Entre os espectadores do Dragão Celestial, muitos também perceberam.
— Uma habilidade de percepção que consome energia mental, um início tão frágil... Céus, finalmente temos nosso próprio médium!
— Embora seja muito jovem, ainda uma criança, ele é nossa esperança.
— Felizmente... felizmente, nesta primeira incursão de Chen Yan no Mundo dos Pesadelos, ele está ao lado de Huan. Se tivesse entrado sozinho, nem ouso imaginar o que poderia acontecer.
O termo “médium” era uma designação geral. Na verdade, essa profissão assumia diferentes formas conforme a cultura de cada país, mas o cerne era sempre o mesmo: era aquele que percebia o perigo antes de todos, o maior inimigo dos caçadores.
Onde houvesse um médium, os fugitivos sempre teriam vantagem. Até mesmo Ye Huan, ao atuar como caçador, mirava primeiro os médiuns.
Isso dizia muito sobre a potência desse caminho.
Profissões poderosas, contudo, eram também as mais cobiçadas.
Não era a primeira vez que um médium surgia no Dragão Celestial, mas todos haviam sido mortos graças às investidas de estrangeiros. Quando Ye Huan tornou-se caçador, a maioria dos melhores fugitivos e caçadores do país já estava morta.
Se Ye Huan era o salvador da nação, Chen Yan, naquele momento, personificava a centelha da esperança.
E ao lado dessa faísca recém-acesa, caminhava o mais forte dos guias.
...
Tudo aquilo que Zhang Yang e os outros perceberam, Ye Huan também notou.
Olhando para o atônito Chen Yan, Ye Huan estendeu a mão e pousou-a sobre sua cabeça, com expressão complexa.
Agora, tinha quase certeza de uma coisa: sua própria aparição mudara o curso do futuro. Se essa mudança seria boa ou ruim, ninguém podia prever.
Haveria ainda um Dragão Celestial daqui a alguns anos?
Ye Huan suspirou.
De repente, o barco balançou violentamente.
Ao mesmo tempo, gritos estridentes ecoaram na costa.
Um cheiro salino cortante invadiu o ar; Ye Huan farejou o vento e ergueu os olhos.
Sem que percebessem, a linha fina do horizonte se aproximara consideravelmente. O sol ardia acima de suas cabeças, mas a temperatura ao redor despencava rapidamente.
O maremoto estava prestes a chegar.
Ye Huan apressou Chen Yan a vestir o traje de borracha, entrou na cabine e acelerou rumo ao sul.
Precisava afastar-se o máximo possível antes que o mar engolisse tudo.