Capítulo 1: O Homem Sigma
Na maciez de uma cama ampla, a tempestade havia se dissipado e restava apenas a paz. Wang Yi esvaziava a mente, desfrutando de um raro momento de tranquilidade. Ao seu lado, porém, sua bela namorada não conseguia se acalmar.
Palácio Tianyu, apartamento de 170 metros quadrados! Ao norte, a dois quilômetros, arranha-céus do centro financeiro rasgavam o céu. Ao sul, a três quilômetros, condomínios de luxo se aninhavam ao redor das montanhas. A oeste, a um quilômetro, ficava o centro administrativo e o parque tecnológico. A leste, a oitocentos metros, uma escola de destaque, do ensino fundamental ao médio! Dentro, silêncio e paz; ao sair, a efervescência da cidade. Definitivamente, uma área nobre para os mais ricos, o sonho de moradia de incontáveis pessoas.
Feng Yaoyao gostava cada vez mais do lugar; sua voz tornou-se doce e lânguida:
— Querido, quanto está valendo este apartamento hoje?
— O vizinho de baixo vendeu no mês passado, por sete milhões e seiscentos mil, incluindo duas vagas de garagem — respondeu Wang Yi, com indiferença.
— Caramba! Tão caro, mais de quarenta mil por metro quadrado!
Apesar do espanto, Feng Yaoyao sentia-se cada vez mais feliz por dentro.
— Você, com pouco mais de trinta anos, já conseguiu comprar um apartamento de mais de sete milhões... realmente um jovem promissor!
— Não é para tanto. Comprei em 2015, por oito mil o metro quadrado, no total um milhão e trezentos e sessenta mil, ainda com as duas vagas de garagem incluídas.
Comprar este imóvel foi, para Wang Yi, a escolha mais acertada. A outra decisão sábia foi não se aventurar no mercado de ações. Com a primeira, garantiu um patrimônio substancial; com a segunda, protegeu as poucas economias que tinha.
— Oito mil por metro! Isso... isso é mesmo possível? — Feng Yaoyao estava incrédula.
Aqueles anos de euforia imobiliária não eram familiares para muitos nascidos após 1995. Wang Yi olhou pela janela:
— Em 2015, isto ainda era o distante leste da cidade.
— O centro financeiro nem estava planejado, o condomínio de luxo era só um bosque. Havia apenas o centro administrativo recém-transferido e alguns prédios de escritórios isolados, erguidos em meio a um campo de milho.
Apartamentos amplos em meio a plantações de milho na periferia, a oito mil por metro com vaga de garagem, não atraíam os citadinos. Wang Yi, então recém-empregado e sem muitos recursos, não tinha condições de comprar imóveis caros no centro. Usou as economias dos pais, cinquenta mil, como entrada para adquirir um apartamento que ninguém queria na periferia leste.
Por isso, foi alvo de piadas dos colegas por dois anos. Mas, no terceiro ano, as piadas deram lugar à admiração; depois, à inveja, ao ciúme, à irritação.
O crescimento da cidade para o leste, o novo centro financeiro, a expansão dez vezes maior do parque tecnológico, além da transferência das sedes de empresas estatais e provinciais, tudo contribuiu para que aquele antigo campo de milho superasse o centro velho e se tornasse o novo coração da cidade.
Além disso, os moradores dos condomínios próximos — jovens bem-educados, mestres e doutores, que valorizavam a educação dos filhos — transformaram uma escola antes medíocre em uma das melhores da cidade.
Seu apartamento valorizou de um milhão e trezentos e sessenta mil para sete milhões e seiscentos mil! Uma mudança tão espetacular faria até mesmo os desapropriados roerem de inveja.
O salário do departamento de TI da empresa estatal era estável e generoso; ao longo dos anos, Wang Yi conseguiu juntar algum dinheiro.
Quitou o financiamento, comprou um carro de luxo, e ainda tinha mais de seiscentos mil de poupança. Encontrou uma namorada jovem, doce e bonita, e estava planejando casamento — uma vida praticamente perfeita.
Wang Yi sentia-se realizado!
— Agora entendi. Mesmo assim, você foi muito perspicaz — disse Feng Yaoyao, com um brilho diferente no olhar, abraçando Wang Yi com ternura. — Falei com meus pais sobre nosso casamento. Eles não se opuseram.
Wang Yi soltou um suspiro de alívio, superando uma grande barreira.
— Quanto ao dote... — Feng Yaoyao hesitou. — Minha prima pediu cinquenta mil, mas minha família quer só quarenta mil.
Wang Yi silenciou.
Quarenta mil de dote, mais as joias e o anel, facilmente chegaria a quarenta e cinco mil. Juntando festa de noivado, cerimônia, recepção e outros gastos, suas economias de sessenta mil seriam consumidas de uma vez.
Reprimindo o desconforto, Wang Yi perguntou em tom grave:
— E o enxoval?
— O enxoval? — Feng Yaoyao ficou confusa. — Dez jogos de lençol. É que quero amar você por dez vidas!
Que significado, pensou Wang Yi, sem saber o que dizer.
— Yaoyao, dos quarenta mil do dote, quanto retorna para nossa casa?
Se não havia enxoval, mas a maior parte do dote fosse devolvida, ainda poderiam negociar.
Feng Yaoyao franziu a testa:
— Nada volta. É uma forma de retribuir aos meus pais, que me criaram por mais de vinte anos. Sem contar meu irmão...
Agora, Wang Yi ficou completamente em silêncio, sem vontade de responder.
— O que foi, está achando o dote alto demais? — perguntou Feng Yaoyao, aproximando-se.
Wang Yi balançou a cabeça:
— Não é isso. Com uma mulher tão linda e encantadora, quarenta mil é justo. Cinquenta mil, até.
— Sabia que você era o melhor!
Feng Yaoyao sorriu e o encheu de beijos. Mas Wang Yi manteve-se impassível:
— A propósito, qual é mesmo o seu signo?
— Virgem, você esqueceu?
— Virgem... então desculpe, lembrei que um mestre disse que eu não poderia casar com alguém de Virgem. Dá azar para a esposa.
Feng Yaoyao ficou paralisada, o rosto empalideceu.
— O que você quer dizer com isso?
— Apenas o que disse — respondeu Wang Yi, sem se importar.
Para namorar, não importava não ter casa, carro ou poupança. Mas, em questões de negócio, ele não era ingênuo.
— Tudo bem, está achando o dote alto? Não tem problema, vou conversar novamente. Quem sabe baixem para nove mil e novecentos — disse Feng Yaoyao, irritada, pensando que quanto mais dinheiro as pessoas têm, mais esganadas se tornam. Logo mudou de assunto:
— Querido, meu aniversário está chegando. O que vai me dar de presente?
Wang Yi observou a bela mulher à sua frente e respondeu, em tom suave:
— Pretendo te dar a liberdade.
— O quê...?
— Vai arrumar suas coisas hoje ou amanhã?
— Eu...
— Acho melhor hoje. Amanhã pode chover.
Feng Yaoyao ficou atônita.
Era inacreditável. Depois de seis meses juntos, ela achava que Wang Yi estava completamente apaixonado. Mesmo com o pedido de quarenta mil de dote, acreditava que ele aceitaria. Até pôr o nome na escritura do apartamento não seria problema.
Mas, para sua surpresa, Wang Yi foi firme e direto: terminou o relacionamento e a colocou para fora.
Afinal, homens de trinta e poucos anos são mesmo imprevisíveis. Bem diferentes dos jovens de vinte, especialistas em manipulação emocional.
— Idiota! Só por causa de quarenta mil de dote? Não é como se você não pudesse pagar! — esbravejou Feng Yaoyao, sem a doçura de antes.
Wang Yi suspirou:
— Quarenta mil, posso pagar. Mas por que eu deveria?
Feng Yaoyao ficou muda.
— Com quarenta mil, posso viver muito bem sozinho. Ou posso buscar alguém com expectativas mais razoáveis.
Ela continuou calada.
Na idade de Wang Yi, já não tinha grandes ilusões sobre o amor. Casar era apenas encontrar alguém para compartilhar o restante da vida. O mais importante era o conforto da convivência.
Se não fosse confortável e ainda exigisse todas as suas economias, era melhor viver só.
Feng Yaoyao estava furiosa:
— Minha prima pediu cinquenta mil de dote, e o marido não reclamou!
— Lembro que você disse que sua prima recebeu um Mercedes E de enxoval, e o dote de cinquenta mil voltou como capital para começar a vida a dois — retrucou Wang Yi.
Era uma união de forças. O caso deles era pura imposição.
Não era a mesma coisa.
Feng Yaoyao se arrependeu de ter mencionado esse detalhe. Ainda bem que não pediu para pôr seu nome no apartamento. Maldito homem difícil de lidar!
Respirou fundo e suavizou o tom:
— Querido, eu realmente gosto de você. Não pode fazer isso por mim?
Wang Yi balançou a cabeça:
— Não posso. O mestre estava certo. Você não gostaria de ser amaldiçoada, não é?