Capítulo 34: Um Pai Benevolente e um Filho Piedoso
— A culpa é toda daquele garoto terrível! Ele sai por aí se empanturrando de comidas caras, se metendo com mulheres, e quem paga o pato sou eu, que acabo tendo as orelhas puxadas e dormindo no sofá!
— Mas que absurdo!
Wang Qingzhi estava sentado no sofá, resmungando:
— Espera só até aquele rapaz voltar, ele vai ver só!
O que ele não esperava era que, naquela noite de bebida, Wang Yi se divertiu tanto que só voltou para casa quase às onze horas. Para sua surpresa, encontrou Wang Qingzhi ainda acordado, sentado sério no sofá, esperando por ele. Sua mãe também não dormira, observando-o com atenção. O clima estava estranho.
Wang Yi pensou um pouco, não entendeu o motivo, mas percebeu que algo estava errado. Decidiu então tomar a iniciativa e sacrificar o pai.
— Então você ainda sabe voltar para casa, hein? — resmungou Wang Qingzhi, claramente aborrecido.
“Esse filho tão devoto, vai acabar comigo!”
“Se essa conta não for resolvida, ninguém dorme!”
— Está mesmo estranho! — Wang Yi, ainda lúcido apesar da bebida, sorriu: — Pai, está bravo comigo?
— Ora, claro que estou! Depois do que você aprontou, como não ficar? Estou indignado!
— Ah, não há motivo para tanto, — suspirou Wang Yi. — Só peguei seu dinheiro escondido para abrir um negócio. Não perdi nada.
— O quê?! — Wang Qingzhi mudou de cor, sentiu a cabeça girar.
Isso não era para ser dito!
Que filho mais ingrato!
Shulin, que observava Wang Yi, virou-se para Wang Qingzhi, o olhar gelado.
O suor frio escorria pelas costas de Wang Qingzhi:
— Que bobagem é essa, rapaz? Que dinheiro escondido? Todo meu dinheiro está com sua mãe. Não tenho um centavo!
— Ah, não é? E aqueles seis mil que estavam debaixo da minha cama, de quem eram?
— Nada disso, eram só cinco mil e novecentos! — escapou sem pensar, arrependendo-se logo em seguida. — Malandro, você me pegou!
— Isso, isso, cinco mil e novecentos, não seis mil! — Wang Yi bateu na testa. — Olha só, me confundi.
— Você... — Wang Qingzhi, tremendo de raiva, olhou para Shulin: — Querida, deixa eu me explicar!
— Pois vamos, quero ouvir bem essa explicação! — Shulin sorriu, levantando-se e pegando o espanador de penas do sofá.
— Amor, espere! É tudo um mal-entendido!
Wang Qingzhi correu atrás dela, desesperado.
Vendo a cena, Wang Yi suspirou: — Me desculpe, pai. Para proteger seu filho, tive que sacrificá-lo. Fique tranquilo, depois te compro uma garrafa de Maotai!
Wang Qingzhi, furioso, gritou: — Você vai ver, rapaz, isso não vai ficar assim!
Wang Yi riu: — Mãe, não fique brava. Meu pai só cometeu o erro que todo homem comete.
Wang Qingzhi fuzilou Wang Yi com os olhos.
Wang Yi continuou: — Dinheiro escondido, só cinco mil e novecentos, não é nenhum absurdo! Não é, pai?
— Cale a boca! — Wang Qingzhi bateu a porta do quarto, decidido a não prolongar ainda mais a discussão.
Logo, sons de reclamações e barulhos vinham do quarto principal.
Wang Yi não conteve o riso: — A posição do meu pai nessa casa é lamentável. Não posso acabar assim!
No quarto, Wang Qingzhi resmungava:
— Esse filho é uma bênção... Ai! Não aguento mais, ai!
[...]
Na manhã seguinte, com olheiras profundas, Wang Qingzhi saiu do quarto:
— Venha já aqui, seu moleque!
Mas Wang Yi já tinha sumido há muito tempo.
— Esse garoto! — Wang Qingzhi estava furioso. — Pode fugir de manhã, mas à noite não escapa. Quero ver se não volta para casa!
Fábrica de Calçados Taishi.
— Irmã Han, essa é a última remessa. Suas sobras de estoque foram todas vendidas, — disse Wang Yi, sentindo-se orgulhoso.
Foi seu primeiro negócio próprio: quinze mil pares de calçados fora de linha, e lucrou mais de quarenta e cinco mil.
Han Caili estava radiante:
— Em apenas oito dias, você não só vendeu meus sapatos encalhados de anos, como ainda liberou meu depósito. Muito obrigada, Wang!
— Não precisa agradecer tanto.
— Tem compromisso hoje à noite? Quero te oferecer um jantar no Hotel Intercontinental! — Han Caili sorriu.
Wang Yi pensou que, se voltasse para casa, o pai provavelmente o esperaria para ajustar contas. Aceitou sem hesitar:
— Tenho sim, faço questão!
— Ótimo! Mando o motorista te buscar.
— Combinado.
Para sua surpresa, a última remessa ainda trouxe mais dois mil e oitocentos pares!
— Irmã Han, então eram mais de dezesseis mil pares! Foi mil a mais do que no contrato. Vou te transferir mais cinco mil pelo excedente.
— Não precisa! Fica como presente para você. — Han Caili fez pouco caso.
Ela sabia que nem todos aqueles pares seriam vendidos, sempre sobra algum encalhe. O extra era uma compensação.
O que ela não imaginava era que Wang Yi vendera mesmo tudo.
Com dez distritos e mais de cinquenta mil habitantes, sempre havia alguém para cada tamanho.
— Muito obrigado, irmã Han.
— Então até logo mais!
— Até!
Ele entregou a mercadoria para Song Yang e Huang Cui e recebeu o pagamento do dia anterior. Voltou para casa e mergulhou no desenvolvimento do código do Meiyou.
Só saiu depois das cinco, quando Wang Qingzhi estava prestes a voltar do trabalho, e foi direto para o jantar.
Além de Han Caili, havia mais uma mulher: Chen Fenfen, dona de uma fábrica de roupas, apresentada por Han. Era também mãe de Qi Kaisheng, um antigo colega e apostador.
Mas ninguém quis tocar no assunto desagradável.
Entre brindes e conversas, o objetivo era claro: pediram a Wang Yi ajuda para vender o estoque de roupas encalhadas.
Wang Yi aceitou de pronto. As vinte e duas mil duplas de sapatos de Zheng Yun provavelmente não durariam nem duas semanas. Depois, precisaria contar com as roupas de Chen Fenfen, sua única fonte de renda imediata.
Após o jantar, pensando no pai, Wang Yi resolveu acompanhar Chen Fenfen para conferir o estoque no depósito.
Mais de dez mil camisetas de manga curta, dez mil bermudas, dez mil camisas de manga longa e cerca de dez mil calças.
Mais de quarenta mil peças por vinte mil à vista, menos de cinco reais cada.
Naquela época, o comércio online não era forte nos vilarejos, e as lojas físicas predominavam. Os custos de aluguel, pessoal e logística eram bem maiores, e, por isso, os preços também.
Uma camiseta vendida por trinta reais na internet custava cinquenta ou sessenta na loja física. Uma camisa de manga longa, quarenta ou cinquenta online, e até oitenta presencialmente.
Wang Yi planejou vender três camisetas por cem, duas camisas longas por cem. Com esse preço, não teria problemas de venda e garantiria um bom lucro.
Mais uma vez, assinou um acordo: liquidação total em três meses.
Depois dessa maratona, só voltou para casa de madrugada.
— A essas horas, o velho Wang já deve estar dormindo, — pensou ele, entrando na ponta dos pés. Olhou pela sala, não viu ninguém e finalmente relaxou. Caminhou furtivamente até o quarto, tirou os sapatos, pronto para se deitar, quando ouviu uma voz fria ao lado:
— Voltou, filho?
Wang Yi ficou paralisado.
Wang Qingzhi sentou-se na cama dele, sorrindo:
— Fugiu de mim a noite inteira, mas não adiantou. Surpreso?
Wang Yi emudeceu.
Devia ter fugido de casa!
— Vem cá, filho. Vamos conversar sobre o dinheiro escondido! — Wang Qingzhi pegou o espanador do lado da cama, sorridente.
Wang Yi arregalou os olhos.