Capítulo 36: Armando para mim? Dente por dente
Diante dos trinta e um credores reunidos a poucos passos de distância, o rosto de Inácio ficou lívido de desespero.
— Walter, você me traiu!
Walter ergueu a xícara de café, sorrindo calmamente:
— Não tive escolha. Você preparou armadilhas para mim nas dívidas, só me restou retribuir na mesma moeda, senhor Inácio.
Seu semblante tornou-se frio:
— Dou-lhe duas opções. Ou seguimos com o acordo: você leva um milhão e quatrocentos e cinquenta mil, e transfere a dívida de quinhentos e cinquenta mil para mim. Ou encerramos a negociação, e você mesmo trata com eles, resolvendo suas dívidas.
— Eu... — Inácio estava desolado.
Resolver? Como resolver?
Se pudesse, não teria fugido com a esposa!
— Passei a vida caçando a águia, e no final fui bicado por ela! — suspirou Inácio. — Está bem, um milhão e quatrocentos e cinquenta mil, eu aceito o acordo!
Logo os contratos foram assinados e os trâmites realizados.
Por dois milhões, Walter adquiriu por completo a Fábrica de Confecções Brilho e Cor. Evidentemente, desses dois milhões, quinhentos e cinquenta mil eram referentes aos débitos com os trabalhadores, que agora passavam para Walter.
— Você foi astuto, Walter! — Inácio saiu do café com o rosto sombrio, nutrindo profunda raiva no peito.
Walter, acha que me enganou? Pois eu também vou te pregar uma peça!
Inácio olhou para os trabalhadores ao redor, zombando:
— Agora, quem deve a vocês é ele. Só que ele só tem um milhão e quinhentos mil, dos quais me deu um milhão e quatrocentos e cinquenta mil. Depois de pagar os impostos, não sobra nada! Hahaha!
— Ele também enganou vocês! O salário que lhes deve, ele não vai pagar! Hahaha!
Ao ouvirem isso, todos se voltaram para Walter, alarmados.
Seu Francisco não se conteve:
— Senhor Walter, o senhor também vai nos enganar e ficar com o nosso suor?
— Por favor, não faça isso! — outros suplicaram.
— Senhor Walter! Minha esposa depende do dinheiro para comprar remédios todo mês!
— Senhor Walter, se não receber o que me deve, como vou pagar a hipoteca do meu filho? Já vamos perder a casa!
Walter acalmou a todos com um gesto:
— Fiquem tranquilos. Embora eu esteja sem dinheiro no momento, ainda tenho a fábrica. Prefiro hipotecar o prédio para conseguir um empréstimo e quitar todos os salários atrasados do senhor Inácio!
— Não sou como certos indivíduos que não pagam o que devem!
— Você! — Inácio ferveu de raiva, percebendo a indireta de Walter.
Mas não teve nem tempo de se irritar: logo foi empurrado para o lado pelos trabalhadores.
— É verdade? — Seu Francisco e os outros ficaram boquiabertos, incrédulos.
Hipotecar a fábrica para pagar nossos salários?
Existe mesmo alguém assim?
A fábrica vale dois milhões; hipotecar por mais de um milhão é fácil, quitar os quinhentos e cinquenta mil é simples.
— Senhor Walter, o senhor vai mesmo hipotecar a fábrica por nossa causa? — insistiu Seu Francisco.
— Claro que sim — Walter indicou um homem ao seu lado. — Este é o gerente João da agência do Banco Popular. Assim que terminar esta papelada, vou tratar do empréstimo. Quando o dinheiro sair, pago imediatamente os cinquenta e cinco mil!
— Se não confiarem, podem voltar à fábrica e me vigiar. Podem também continuar trabalhando lá, recebendo normalmente.
— A fábrica que comprei está lá, não tem como sumir!
Diante dessas palavras, muitos se tranquilizaram, alguns concordando em voltar ao trabalho. Outros hesitaram, ainda temendo novos calotes.
Walter notou a preocupação:
— Façamos assim: quem quiser voltar, recebe o salário no mesmo dia! Quem não quiser, não será forçado.
— O quê? Salário no mesmo dia? Isso existe?
— Eu volto!
— Temos que voltar! E ficar de olho para garantir que o empréstimo saia e a dívida seja paga!
— Faz sentido!
De repente, todos se dispuseram a ficar e trabalhar. Pagamento diário: essa é a maior prova de honestidade.
Walter olhou ao redor:
— Muito bem, por hoje retornem à fábrica. Se alguém não confiar, pode designar um responsável para me acompanhar. Assim que tudo estiver pronto, começaremos, e o pagamento será feito no mesmo dia.
Um homem se adiantou:
— Façam o que o chefe diz, pessoal. Quando for a hora, aviso todos.
Diante disso, foram se dispersando.
Inácio, ao presenciar a cena, rangeu os dentes até quase quebrá-los:
— Esse garoto, apesar da pouca idade, sabe mesmo se virar. Controlou a situação e ainda conquistou a confiança de todos! Maldito!
— Pena que, assim que finalizar a transferência e receber o dinheiro, vou desaparecer.
E aqueles credores não eram os únicos.
Na cidade de São Clemente, ele não poderia mais ficar.
Na verdade, nem na metrópole de Jizhou seria seguro.
— Chefe, prazer, sou Mário. Fui eu que gerenciei a produção da fábrica até agora.
Walter assentiu:
— Ótimo. Continue responsável. Se fizer um bom trabalho, aumento seu salário em cinquenta por cento. Se não, pode arrumar suas coisas e ir embora.
— Cinquenta por cento? Isso dá quatro mil e quinhentos! — Mário abriu um largo sorriso, empolgado. — Pode deixar, chefe, vou trabalhar com afinco!
— Veremos.
Concluídos todos os trâmites, Inácio fugiu com o dinheiro, temendo ser cercado pelos credores, sem nem tempo de sabotar Walter.
Este, por sua vez, voltou à Fábrica de Confecções Brilho e Cor com Mário.
A partir de agora, a fábrica era inteiramente sua!
E seria ali que daria início à sua empreitada no comércio eletrônico da Ameixa Rosa!
Walter planejava cuidadosamente: nos próximos meses, poderia se dedicar à produção de vestidos no estilo angelical.
Quando chegasse outubro e fosse decretado o congelamento para desapropriação, começaria a negociar a indenização.
Na vida anterior, a fábrica estava paralisada, e a compensação pela desapropriação foi de pouco mais de dez milhões.
Desta vez, Walter manteria a produção ativa e, assim, a indenização seria muito maior.
Só a compensação pela paralisação e pela perda de giro já seria uma fortuna!
Quanto será o total? Walter mal podia esperar!
Decidido, resolveu: iniciaria a produção o quanto antes.
Mário guiou Walter por toda a fábrica, apresentando cada setor e, ao final, entregou-lhe um grosso volume:
— Chefe, aqui está o inventário atual: equipamentos, materiais e aquele lote de roupas encalhadas.
Walter conferiu: tudo registrado nos mínimos detalhes — modelos, tamanhos, quantidades.
Mário demonstrava responsabilidade, o que agradou Walter.
O lote de roupas encalhadas somava mais de trinta e quatro mil peças. Na cidade não tinham mercado, mas nos vilarejos poderiam render mais de dez mil, o que já era excelente.
Walter tirou um desenho e entregou a Mário:
— Veja esse modelo de vestido.
Mário analisou, franzindo a testa:
— Tem alguma dúvida? — perguntou Walter.
Mário hesitou:
— Chefe, eu... eu...
Walter sorriu:
— Aqui, quero transparência. Pode falar sem reservas.
— Sim! — Mário assentiu. — O vestido que desenhou é muito bonito e chamativo, mas talvez seja avançado demais. Tenho receio de que o público não aceite!
— Não se preocupe. Os tempos mudam rápido. Não limite a visão à cidade pequena. Quando tiver chance, visite as grandes capitais.
Aqueles modelos encalhados eram justamente fruto de uma visão ultrapassada.
Walter deu um tapinha no ombro de Mário:
— Providencie o molde e faça um protótipo.
— Pode deixar, chefe. Eu mesmo cuido disso.
— Você? — Walter se surpreendeu. — Não é gerente?
— Chefe, em fábrica pequena não existe só gerente administrativo. Todo mundo faz de tudo. Sou modelista de formação. Quando acabo os moldes, aí sim gerencio a produção.
— Entendi.
De fato, em pequenas fábricas, o importante é cortar custos — não há espaço para funções muito especializadas.
Como na Fábrica de Calçados Família Costa, onde Rita, a contadora, acumulava diversas funções e economizava vários salários.
— Muito bem, faça o quanto antes. Se precisar de funcionários, pode chamar quem quiser.
— Não precisa, chefe. Temos material e eu mesmo resolvo.
— Sabe economizar, é um homem prático — Walter formou uma boa impressão.
Afinal, se chamasse mais dez pessoas, teria que pagar o dia para todos.
Walter preferia esse tipo de colaborador dedicado, a bajuladores ineficazes!