001 A riqueza escondida nos jornais
O teto alternava entre tons amarelados e brancos, o corrimão exibia marcas de tinta descascada, os colchões carregavam o cheiro de suor, adesivos ultrapassados decoravam as paredes; era um mundo simplório, mas vibrante.
Ao abrir os olhos, Fang Zhuo precisou de cinco minutos para confirmar que havia retornado aos seus anos universitários, no terceiro ano, trazendo consigo memórias de uma vida marcada por tempestades. Ele estava novamente no limiar de setembro do ano dois mil, pronto para recomeçar.
Despertando de seu devaneio, agarrou o jornal e se agachou junto à porta, folheando-o com pressa.
A porta do dormitório se abriu, e Lin Cheng, seu colega de quarto, entrou carregando uma garrafa térmica. Com tranquilidade, preparou uma xícara de chá, mas logo percebeu o comportamento estranho do amigo.
— Ei, Fang, o que está fazendo aí? Não bagunce minhas coisas, ainda nem li o jornal que comprei.
— Daqui a alguns dias compro mais pra você, só preciso dar uma olhada primeiro — respondeu Fang Zhuo, sem virar a cabeça.
Lin Cheng ficou confuso:
— Você está lendo tudo de uma vez, procurando o quê?
— Dinheiro, dinheiro, dinheiro — repetiu Fang Zhuo, enfatizando a importância, e acrescentou melancolicamente: — Daqui a pouco minha prima vai ser internada, preciso de dinheiro.
Prima internada? Daqui a alguns dias? Vai ser transferida?
Lin Cheng pensou por alguns segundos, organizando as informações, e perguntou:
— Que doença? Doente, mas não é você quem tem que pagar, certo? E se falta dinheiro, por que está vasculhando o jornal?
Fang Zhuo balançou a cabeça:
— É grave, nem na minha família nem na dela há dinheiro suficiente. Não posso simplesmente assistir à tragédia se repetir diante de mim.
Levantou-se, tentando aliviar as pernas dormentes e refletiu:
— Agora, preciso de dinheiro, de riqueza. Neste tempo, a riqueza está escondida nos jornais.
— Riqueza escondida nos jornais? — Lin Cheng zombou. — Os jornais do dormitório sempre fui eu quem compra, e vocês nem costumam ler. Que riqueza? Nunca vi nada disso.
Fang Zhuo apertou os lábios, avançou alguns passos com o jornal na mão e puxou as cortinas, deixando que o sol do milênio iluminasse o quarto da Escola Técnica de Impressão de Luzhou.
Recomeçando a vida, tinha uma convicção clara: quase tudo neste mundo pode ser resolvido com dinheiro. Ainda não era a era da informação; os detalhes das ondas de desenvolvimento estavam nas páginas dos jornais, esperando por alguém atento.
Fang Zhuo abriu o jornal sobre a mesa de Lin Cheng, apontando para uma pequena notícia:
— Aqui, o “Jornal da Nova Paz” reproduz uma matéria do “Mensageiro de Referência”, falando sobre aumentar a competição, romper monopólios, separar e reestruturar empresas.
— E daí? — perguntou Lin Cheng, sem entender.
Fang Zhuo folheou outro jornal:
— Em novembro do ano passado, fizemos um acordo com os americanos; provavelmente no próximo ano entraremos na OMC. Veja aqui: segundo as regras da OMC, uma vez que entremos, em um ou dois anos as tarifas de importação de derivados de petróleo cairão para 6%, em três anos o varejo será liberado, em cinco anos o atacado.
Lin Cheng estava completamente perdido.
— Há dois anos, o Ministério do Petróleo foi reorganizado, surgiram três empresas: Petróleo, Petroquímica e Marítima. Todas elas vão enfrentar a competição após a entrada na OMC, e entre si também.
— Essa competição, no final das contas, se manifesta onde? Nos postos de combustível.
— Agora há muitos postos privados, e eles serão alvo da disputa entre Petróleo e Petroquímica.
Fang Zhuo pegou outro “Jornal Econômico”, folheou algumas páginas e apontou para um trecho:
— Veja, aqui diz que há dezenas de milhares de postos privados no país. Nos próximos anos, seus preços vão subir. Se tivermos um posto, podemos vendê-lo pelo dobro, oitocentos mil viram um milhão e seiscentos mil, dois milhões viram quatro milhões, é dinheiro fácil!
Lin Cheng, agora, ouvia com respeito.
— Sua família tem um? — perguntou ele.
Fang Zhuo guardou o jornal em silêncio:
— Não.
Lin Cheng ficou sem palavras.
Os dois ponderaram sobre a realidade sombria.
Lin Cheng digeriu com dificuldade as conexões entre as notícias e comentou:
— Fang, nunca imaginei, você tem olhos afiados. Mas, sem capital, mesmo diante de oportunidades, não dá pra ganhar nada.
— É verdade — suspirou Fang Zhuo; esse era realmente um problema.
Antes, ele havia conseguido se acomodar no sistema, como funcionário temporário, depois pediu demissão para empreender no comércio exterior. Quando tudo parecia estar indo bem, foi surpreendido pela chegada do presidente especial e sua guerra comercial...
E então, estava de volta ao terceiro ano.
Mal voltou, já tinha que enfrentar um problema que traria desgraça à família pelos próximos anos. O tempo era curto; caso contrário, poderia comprar até um banheiro em Pequim e esperar valorização.
O almoço chegou rápido. Lin Cheng trouxe duas porções, e Fang Zhuo continuava a ler o jornal enquanto comia.
Quando estava prestes a virar a última página do último jornal, um nome familiar saltou aos seus olhos numa pequena notícia.
— A reforma das ações de ativos problemáticos de nossa cidade é uma exploração ativa para a atualização industrial. Isso requer uma liderança correta dos departamentos responsáveis e o uso ativo das funções do mercado de capitais.
— O gerente-geral da Companhia de Investimento Fiduciário da Província de Anhui, Chen Shuhu, afirmou ter confiança em concluir a substituição de ativos da Papel de Xuan Hongxing ainda este ano, o que servirá como referência positiva para o desenvolvimento do setor.
Fang Zhuo largou os talheres e fixou o olhar no nome “Chen Shuhu”. Este não era uma pessoa qualquer; no futuro, seria um grande nome.
Além disso, ele já havia pesquisado sobre Chen, por puro interesse: origem rural, carreira enraizada em finanças, personalidade extremamente autoconfiante, sim, autoconfiante...
— O que houve? — perguntou Lin Cheng, percebendo a pausa e o semblante sério do amigo.
Fang Zhuo murmurou:
— Nada, nada... Acho que encontrei uma espécie de senha para a riqueza, só estou pensando em qual seria o modo de desbloqueá-la.
— O que é isso? O que ele faz? — Lin Cheng olhou para o jornal, sem entender.
— Líder de uma empresa estatal, o chefe — respondeu Fang Zhuo, esforçando-se para lembrar os fatos que havia lido e pesquisado. Não se recordava do trabalho de substituição de ativos, mas sabia de alguns acontecimentos importantes.
E ainda poderia buscar informações públicas; a ascensão de Chen era bem conhecida no setor.
— Lin Cheng, nos próximos dias posso ficar ocupado, cuide de algumas coisas da escola pra mim — disse Fang Zhuo, sacudindo o jornal, já com uma ideia vaga na mente.
Lin Cheng assentiu, pegou o jornal e examinou-o de todos os lados, mas não conseguiu encontrar nenhuma “senha da riqueza” na pequena notícia.
Mas, depois do que Fang Zhuo disse sobre postos de combustível, com exemplos sólidos e visão ampla, Lin Cheng sentiu-se impressionado.
— Fang, devolvo a senha pra você. Se ganhar dinheiro, não esqueça de mim. Se você comer carne de carneiro, fico feliz em tomar a sopa — brincou Lin Cheng, devolvendo o jornal. — Se ficar rico, não se esqueça dos amigos.
— Claro, se eu prosperar, vou garantir que você desfrute dos frutos.
Lin Cheng sorriu, agradecido:
— Obrigado, irmão.
As ideias fervilhavam na cabeça de Fang Zhuo; um plano não muito ortodoxo começava a tomar forma.
Sim, quanto mais ousado o homem, maior será a sua conquista.