014 Apanhar com Facilidade
Dois estranhos.
Chamaram-me de cambista.
Bem, há um pequeno problema nesse processo de cobrar uma taxa de serviço: os familiares dos pacientes, pressionados pelos custos, acabam confiando em mim, que pareço inofensivo, mas por que o hospital confiaria em um particular para retirar um relatório patológico?
Mesmo que esse particular resolva o problema do paciente.
Nada demais, apenas um pouco constrangedor ser pego logo depois de me vangloriar para a professora Su.
Fang Zhuo tossiu, percebendo que aqueles dois eram seguranças do hospital.
Antes que ele pudesse falar, a professora Su, ao seu lado, indignada, já se adiantou.
“Ele não é cambista!”
Fang Zhuo sorriu, explicando: “Rapaz, eu realmente não sou cambista.”
Um homem bloqueava a saída, enquanto o mais corpulento agarrava o braço de Fang Zhuo, repreendendo: “Você cobrou dinheiro dos familiares dos pacientes, não foi?”
“Bem... isso...” Fang Zhuo organizava as palavras, planejando explicar que há diferentes formas de cobrar dinheiro.
O homem gordo continuou: “Não minta, perguntamos agora mesmo para quem você cobrou! Você sabe quem comanda o negócio dos cambistas aqui no hospital? Está cansado de viver?”
Fang Zhuo ia se defender, mas ficou surpreso: “Espere, espere, vocês são cambistas?”
“Exato,” respondeu o homem gordo com orgulho, levantando o queixo. “Aqui no hospital, somos nós que mandamos. Pergunte quem é o Da Qiang!”
Fang Zhuo não se intimidou, achou até engraçado.
Nunca tinha visto cambistas lidando com a área de patologia, por isso nem cogitou essa possibilidade.
Além disso, cambistas são mais que um pequeno problema, são um verdadeiro bug do sistema.
“Ei, ei, o que está acontecendo?” Su Wei não gostou nada da situação; como orientadora, precisava defender seu aluno diante de ameaças.
Ela puxou com força o braço de Fang Zhuo, soltando-o do homem gordo, e protestou: “O que é isso? Cambistas se sentindo orgulhosos agora? Solte, solte já!”
“Olha só, a mocinha é bem brava!” Da Qiang arregaçou as mangas, revelando uma tatuagem de uma fera.
“Cambistas só causam problemas, só querem extorquir dinheiro dos pacientes!”
“Vocês têm mãos e pés, por que não fazem algo decente?”
“Não têm família? Já pensaram como é levar um familiar ao hospital e ainda ser extorquido?”
Su Wei argumentava com firmeza, tentando apelar à moral dos outros.
Especialmente quando viu que Da Qiang era mais bruto, ela direcionou o olhar ao homem que bloqueava o caminho, mais calado e aparentemente mais fácil de conversar.
Mas o homem, achando que Su Wei estava provocando, também arregaçou as mangas, exibindo uma tatuagem de um tigre.
Ele soltou risadas frias, tentando intimidar.
“Vocês... vocês...” Su Wei ficou furiosa, sem medo algum, certa de que a justiça triunfaria. Teve uma ideia rápida: “Sabem quem ele é?”
Da Qiang zombou: “E quem seria?”
Num movimento rápido, Su Wei arrancou o boné de Fang Zhuo, expondo sua cabeça brilhante, e declarou com agressividade: “Vocês se acham muito, mas sabem quem ele é? Acabou de sair de lá de dentro!”
Fang Zhuo sentiu o frescor na cabeça, e olhou para a orientadora irritada. Pensou, não era necessário, professora Su...
Os cambistas se entreolharam e caíram na risada.
Da Qiang empurrou Fang Zhuo, brincando: “De onde saiu esse cara? De onde ele é?”
Su Wei ficou aflita.
Fang Zhuo, por sua vez, não se irritou; não foi ele quem tirou o boné, nem se autoproclamou, e não era ele quem estava constrangido por ser descoberto...
Ele fez um gesto tranquilo, decidido a encerrar a confusão.
“Eu cobrei dinheiro na patologia, vocês já estiveram lá? O vidro do consultório fica de frente para um longo corredor.”
Da Qiang ficou confuso, sem entender o que Fang Zhuo queria dizer.
“Então, eu cobro na frente do médico.” Fang Zhuo falou devagar, para que o cambista entendesse. Explicou com paciência: “Vocês cobrariam na frente do médico?”
Da Qiang hesitou, mas decidiu responder: “Claro que não, quem cobraria dinheiro na frente do médico? Isso só daria problema!”
Su Wei puxou discretamente a roupa de Fang Zhuo, sem acreditar que eles estavam trocando experiências de crime!
Fang Zhuo foi direto: “Meu tio é médico aqui.”
Ele fez uma pausa, lembrando-se rapidamente, e acrescentou: “É o diretor de pediatria.”
Su Wei arregalou os olhos, surpresa.
Da Qiang desconfiou, mas achou o argumento convincente: quem teria coragem de cobrar na frente do médico, se não tivesse contatos?
É como ser cambista e ter o chefe dos seguranças como parente.
Da Qiang ficou indeciso, achando ruim recuar, mas tentou manter a pose: “Ninguém pode! Só eu, Da Qiang, faço o negócio aqui!”
Fang Zhuo, paciente, explicou: “Por isso já disse que não sou cambista. Patologia não tem registro, essa área nem se enquadra no negócio de vocês. Cada um no seu lugar, nem quero incomodar meu tio com isso.”
Da Qiang fez sinal para o parceiro, que baixou a manga, escondendo a tatuagem, mas ainda falou grosso: “Tudo bem, vamos respeitar seu tio hoje. Mas não apareça mais roubando meus clientes!”
Os dois cambistas se afastaram, fazendo barulho para parecerem importantes.
Su Wei comentou baixinho: “Esse é meu tio!”
Fang Zhuo respondeu: “Eu também não acabei de sair de lá.”
Su Wei olhou para a cabeça reluzente de Fang Zhuo sob a luz, e não pôde evitar uma risada.
Ela devolveu o boné e, depois de rir, ficou intrigada: “Por que eles acreditaram em você e não em mim?”
“Para enganar, é preciso misturar verdade e mentira. Por exemplo, o ‘cobrar na frente do médico’ é mentira, mas eles aceitaram esse detalhe.” Fang Zhuo analisou com seriedade. “Com você é diferente; apesar de ser careca, olhe para meu rosto delicado, como poderiam acreditar?”
Su Wei, sob o poste de luz, observou o rosto do aluno por alguns segundos, e achou aquilo estranho...
“Ah, bem, de fato.” Ela se afastou um pouco.
Fang Zhuo sorriu com orgulho: “Viu? Enganar exige técnica.”
“Você tem experiência, hein?” Su Wei resmungou, “Cambista novato!”
Fang Zhuo recolocou o boné e não continuou a conversa sobre técnicas de engano; na verdade, não era muito bom nisso.
“Vou conversar com meu tio, esses cambistas estão demais.” Su Wei ainda estava irritada.
“A vida no hospital é complexa, esses aí são parasitas; melhor não mexer com eles à toa.” Fang Zhuo aconselhou com maturidade.
Su Wei lançou um olhar de lado, mas não respondeu.
“Vou indo, Su, obrigado pela ajuda.” Fang Zhuo sorriu e desapareceu na noite.
Su Wei ficou parada, pensando seriamente sobre parasitas e o ecossistema do hospital.
Depois de um tempo, percebeu: não é Su! É professora Su!
Não, não é professora Su!
É professora Su Wei!