Aliança
Zhou Xin voltou cambaleando para o dormitório, trazendo uma pilha de documentos. Sentou-se, e logo foi tomado pela estranheza do dia: assim, do nada, tornara-se supervisor técnico?
“Será que fui precipitado?”, murmurou, enquanto abria os papéis, pegava o caderno e começava a pensar no projeto do site: html, Dreamweaver 4, Fireworks 4… Além disso, teria que implementar a conexão com o terminal.
Toques na porta interromperam seu raciocínio.
Zhou Xin levantou-se para atender. Viu Yu Pu entrar, coçou a cabeça e cumprimentou: “E aí, Pu, tudo bem?”
“Já passei aqui duas vezes, só agora te achei. Preciso emprestar um livro-texto para um calouro, não encontro o meu, me empresta o teu?”, disse Yu Pu, lançando um olhar casual para a escrivaninha. “Zhou Xin, você não me diga que aceitou a proposta daquele careca?”
Zhou Xin sorriu, meio sem jeito.
Yu Pu franziu o cenho: “Aquele careca não é confiável, não perca seu tempo com isso.”
“Pensei que valia a pena tentar”, Zhou Xin respondeu com seriedade. “Quando meu pai me trouxe para a capital para se tratar, tivemos que comprar um número de consulta de cambista. Acho que a ideia dele pode mesmo aliviar o problema.”
Na verdade, não só compraram o número, como o dinheiro para o tratamento foi arrecadado entre os vizinhos da vila. Naquele ano, Zhou Xin já estava no ensino fundamental. Lembrava-se de tudo: ele e o pai dormindo no saguão do hospital por causa da fila.
“Ideias boas existem aos montes, o que importa é quem executa. Já compraram o domínio? A empresa já está registrada? Tem dinheiro? Tem gente?”, Yu Pu criticou. “Chegar com uma ideia e achar que tudo vai se resolver é pura ingenuidade.”
O sorriso desapareceu do rosto de Zhou Xin. Ele apertou os lábios, sem responder.
Yu Pu continuou, em tom de conselho: “Antes se dizia ‘aprenda uma habilidade e sirva ao imperador’; hoje é economia de mercado! Sabe o que isso significa? Mercado é dinheiro.”
“Se perder tempo e energia agora, depois vai se arrepender.”
“Você está aqui em Luzhou, querendo criar um site de agendamento… Já pensou no futuro?”
Zhou Xin ponderou: “Estou só no terceiro ano da faculdade, posso tentar. Fang Zhuo também disse: ‘Vamos ver no que dá em alguns meses, se não der certo, ninguém vai forçar nada’.”
“Viu? Nem ele está confiante”, Yu Pu prontamente apontou a fraqueza. “Isso é brincadeira de criança. Não sei o que Yu Hong viu nele, levando a gente para conhecê-lo.”
Zhou Xin soltou um leve suspiro. Na verdade, não pensava tanto assim, só achava interessante aplicar a tecnologia à vida real. No país, quase não havia iniciativas desse tipo, só grandes portais ou fóruns BBS.
Era a internet interagindo diretamente com o mundo físico.
Esse pioneirismo, se não fosse um ato de coragem, ao menos era algo divertido.
E se era divertido, por que não tentar? Simples assim.
“Zhou Xin, pense bem”, Yu Pu insistiu. “Já decidi: em dois meses vou para Pengcheng abrir uma empresa de segurança de rede. Daí, a gente trabalha junto, e tenho certeza de que faremos diferença.”
Zhou Xin ergueu a cabeça, involuntariamente. Pelo menos Fang Zhuo está tentando formalizar as coisas, enquanto Yu Pu ainda vai demorar dois meses.
Yu Pu continuou: “Zhou Xin, sempre achei você muito talentoso. Não desperdice isso.”
“Tudo bem, Pu, vou pensar”, respondeu Zhou Xin.
Yu Pu saiu satisfeito.
Quando Zhou Xin voltou a se sentar, percebeu que o colega esquecera o livro. Deixou pra lá, talvez nem fosse importante.
Folheou mais algumas páginas dos documentos, mas não se concentrou, então pegou o caderno e escreveu algumas linhas:
— Economia de mercado.
— O significado da aplicação da computação.
— Interação entre digital e físico.
Zhou Xin encarou por alguns segundos a primeira frase. Pensou: talvez o site de agendamento tenha, sim, mercado. Além disso, a proposta tem muito a ver com o uso prático da tecnologia.
Balançou a cabeça, decidido a não perder tempo com o que não compreendia. Faria o que estivesse ao seu alcance; se não desse certo, em alguns meses poderia arrumar outro trabalho.
Quanto aos planos de Yu Pu, que ele seguisse seu caminho.
…
No início da noite, Fang Zhuo e Su Wei chegaram ao hospital.
“Nessa hora, seu tio ainda deve estar de plantão. Vamos levar algo para facilitar a conversa?”, sugeriu Fang Zhuo.
Su Wei respondeu, desinteressada: “Nem sei se ele vai poder ajudar, melhor encontrar primeiro. Afinal, é o meu tio.”
Fang Zhuo suspirou, paciente: “Su, gentileza sempre abre portas. Vamos comprar umas laranjas para seu tio, ele é mais velho, merece.”
“Fang, você está cada vez mais desenrolado, hein? Olha, daqui pra frente me chame de ‘Professora Su’ e, mais uma vez, é o meu tio”, Su Wei fez cara séria.
Fang Zhuo desviou do assunto do “tio”, indo em direção à barraca de frutas: “Tudo bem, mas e se estivermos resolvendo algo oficial? Eu chamando de ‘Professora Su’ enquanto outros pensam: ‘Esse aí é só um aluno, será que dá conta?’”
Su Wei pensou um pouco: fazia sentido. Por que achava que ele tinha razão com tanta frequência?
Quando percebeu, Fang Zhuo já tinha comprado uma sacola de laranjas e outra de maçãs.
“Vamos, Su. Espero que o Doutor Su possa nos ajudar”, disse Fang Zhuo, entregando uma sacola de maçãs para que ambos não fossem de mãos vazias.
Su Wei resmungou: “Para que tanta formalidade com meu próprio tio?”, mas mesmo assim levou as maçãs em direção ao setor de pediatria.
O Primeiro Hospital Afiliado da Universidade de Anhui era um dos melhores do estado; a pediatria, um dos setores mais movimentados.
Nenhum dos dois quis usar a influência do parentesco para procurar o Doutor Su, preferindo aguardar pacientemente o fim do expediente.
Às sete e meia, Su Qiangguo terminou o trabalho e saiu do setor.
“Tio, vim te chamar para jantar”, Su Wei se aproximou, colocando as maçãs nas mãos dele.
Su Qiangguo estranhou: “Por que não foi até o setor?”
Fang Zhuo, atrasado, cumprimentou respeitosamente: “Boa noite, Doutor Su, sou Fang Zhuo.”
Su Qiangguo olhou, intrigado, do rapaz careca para a sobrinha, tentando adivinhar a situação.
“Esse é o nosso Diretor Fang”, disse Su Wei, séria.
Ora vejam! Que resposta inesperada!
“Diretor de onde? Quem é esse Fang que surgiu do nada?”
Su Qiangguo ficou confuso. Sabia que a sobrinha recém ingressara na escola, e lá não havia esse tipo de cargo.
Fang Zhuo quase se engasgou com a criatividade de Su Wei.
“Doutor Su, sou aluno da Professora Su este ano, ela deve ter comentado comigo. Minha irmã está em tratamento de leucemia aqui no hospital. Sou muito grato pela sua ajuda”, Fang Zhuo agradeceu sinceramente.
Su Qiangguo entendeu, finalmente. Sorriu e apontou para o setor: “Deixem as frutas lá, assim outros médicos também aproveitam. O tratamento de leucemia é difícil, só dei uma pequena mão. Vocês, familiares, precisam estar preparados para uma luta longa.”
“Muito obrigado mesmo, Doutor Su. Vou deixar as frutas lá. Hoje, porém, temos outro assunto pra conversar”, disse Fang Zhuo, correndo até o setor com as sacolas.
Su Qiangguo olhou para a sobrinha, intrigado: “Ele não quer conversar sobre vocês dois, quer?”
“Está viajando, tio! O assunto é sobre o hospital, uma ótima novidade”, disse Su Wei, convicta.
“Que bom”, assentiu Su Qiangguo. Aquele rapaz careca não parecia nada confiável.