Aula de Um Milhão de Reais (Parte Um)
— Irmão Fang, não acha que esse layout está um pouco grosseiro? — Como chefe técnico, Zhou Xin não pôde deixar de expressar sua opinião.
— Dá pra fazer algo mais refinado, claro. Fonte, cores, disposição dos espaços... Bem, disso eu não entendo muito. Vocês decidem como acharem melhor — respondeu Fang Zhuo, acariciando o queixo e observando atentamente a tela do computador.
Zhou Xin ficou um tanto aflito. Para justificar os mil e quinhentos que recebera, vinha trabalhando quase sem parar, chegando a discutir com Song Rong por causa disso.
Depois de tanto esforço para estruturar o site, seria mesmo necessário vesti-lo com roupas tão pobres?
— Irmão Fang, que tal pedir pra Yu Hong dar uma olhada também? Ela já sugeriu vários detalhes sobre o estilo do site — Zhou Xin, percebendo que só dois técnicos não convenceriam o chefe, buscou uma aliada de presença marcante.
— Ouvi meu nome, o que estão conversando? — Yu Hong saiu sorrindo, com uma espátula na mão. — As costelas ainda precisam cozinhar, mas o arroz já está pronto. Ei, Xiao Fang, você está acostumado com arroz?
Fang Zhuo sempre achou Yu Hong de avental e espátula um contraste curioso com sua imagem de capacete na moto. Fez uma careta: — Estamos falando da primeira impressão do site.
Su Wei, que estava na cozinha, também saiu e ficou atrás deles.
— Não está bonito? Pra te consultar é difícil, então nesses dias eu, Zhou Xin e Song Rong demos uma olhada em todos os sites famosos do país. Esse é o melhor modelo que conseguimos imitar e aprimorar — Yu Hong comentou, orgulhosa.
Fang Zhuo teve que repetir o que dissera antes, tomando cuidado para ficar fora do alcance da espátula.
Yu Hong agitou a espátula, animada: — Ah, mas está feio demais! Não existe site tão feio assim no país!
— O que importa é funcionar — exemplificou Fang Zhuo. — É como aquele comercial do feriado deste ano...
Ele hesitou. Ainda passava o anúncio do Platina Cerebral?
Su Wei seguiu a ideia: — Não aceitamos presentes, só aceitamos Platina Cerebral.
O comercial havia estreado em 1998 na televisão central e já estava no ar há dois anos.
— Isso mesmo, esse comercial, simples, direto, brutalmente explícito — Fang Zhuo sorriu para a professora Su. — Para uma empresa pequena como a nossa, o marketing inicial tem que causar esse impacto, forçando o usuário a nos aceitar.
Yu Hong silenciou; para uma estudante de marketing, o sucesso do comercial era inescapável.
Depois de pensar um pouco, percebeu que negligenciara um ponto crucial.
— Espere, Fang Zhuo, nós não vamos cobrar? O serviço de agendamento será gratuito?
Yu Hong ficou tão surpresa que nem chamou pelo diminutivo. Sempre pensara que ao fornecer o serviço, receberiam pagamento dos usuários; caso contrário, como sobreviveriam?
— Por ora, não pensamos em lucro.
Ao menos, posso quitar meus gastos médicos primeiro.
Fang Zhuo voltou, pegou um copo d'água, tomou alguns goles e continuou: — O agendamento nos hospitais é gratuito. Se cobrarmos, como competir? Não é fácil definir.
Yu Hong puxou uma cadeira e sentou-se: — Mas o nosso serviço economiza tempo e esforço, reduz custos. É fácil calcular que o gasto do usuário é menor que o benefício.
Su Wei ouviu essas palavras e sentiu uma estranha familiaridade. Ora, era exatamente a lógica de Fang Zhuo ao pegar os laudos médicos para os outros.
Yu Hong prosseguiu: — Além disso, há demanda, Fang Zhuo! Está sendo ingênuo! Sem lucro, como sustentar o projeto, mesmo no começo?
— Aluguel, pessoal, divulgação... de onde virá esse dinheiro?
Fang Zhuo ouviu tudo com paciência, assentiu: — Yu tem razão, há justificativa para cobrar.
Yu Hong suspirou aliviada, achando que havia convencido o chefe.
Mas Su Wei desconfiava que não era tão simples.
E de fato, Fang Zhuo virou o jogo: — Mas você já pensou se esse dinheiro pode ser realmente recebido?
Quatro rostos perplexos.
Su Wei, Yu Hong, Zhou Xin e Song Rong fixaram o olhar em Fang Zhuo.
Yu Hong foi a primeira a perguntar: — O que quer dizer?
— No país, ainda não existe, mas lá fora, grandes empresas têm departamentos de análise de políticas públicas, contratando ex-funcionários e advogados para evitar riscos legais.
— O agendamento é o acesso à saúde.
— Em termos amplos, é uma infraestrutura pública. Vocês acham que o Estado vai permitir que ganhem dinheiro com isso sem preocupação?
Fang Zhuo explicou com convicção, vendo o futuro a partir do presente.
Yu Hong ficou atordoada; nunca considerara esse aspecto.
Murmurou: — Nunca ouvi falar de leis sobre isso...
— Isso porque nem começamos; talvez a lei seja atrasada, mas as resoluções dos órgãos reguladores podem sair rapidamente. Imagine: depois de estruturar tudo, com o caixa apertado, chega uma regra proibindo cobrança...
Fang Zhuo desenhou um possível futuro.
Yu Hong visualizou o cenário e logo sentiu calafrios: seria o fim do modelo principal da empresa, tudo ruiria!
— Grandes navios demoram para virar. Por isso, já precisam saber disso agora, para navegar na direção certa — disse Fang Zhuo.
Não era uma ameaça; o país não permite cobrança pelo agendamento básico. Serviços derivados podem ser outra história.
Mesmo que agora, aproveitando o início da internet, se cobre e se crie um “fato consumado”, no futuro haverá problemas, e o prejuízo será grande.
Yu Hong desanimou: — Então, qual é o objetivo...
— Que ninguém tenha dificuldade para marcar consulta — Fang Zhuo sorriu.
— Não estou brincando — Yu Hong protestou, irritada.
— É sério — respondeu Fang Zhuo, ao mesmo tempo sério e animado. — Não se preocupem. Não ganharemos dos usuários, mas podemos faturar com quem assumir depois... digo, com investidores.
— Este ano, uma empresa tão inovadora na internet vai chamar atenção. Ao menos podemos conquistar o mercado de Luzhou e do Anhui.
— Digo que o agendamento não terá taxa, porque cobrar traz risco regulatório. Os investidores não sabem disso.
— Se perguntarem, ‘Senhor Fang, por que não cobram?’ Eu respondo: ‘Ainda não é hora, estamos focados em expandir rápido’.
— Parece muito razoável.
— Talvez não dê para ganhar muito, mas o suficiente para independência financeira, isso é possível.
Fang Zhuo deu de ombros: — Por isso falei que a exposição na mídia é essencial; precisamos de movimento para sermos notados, entenderam?
Yu Hong ainda estava sem ânimo: — Investidores... onde encontrar? Será que funciona?
— Cadê o quadro branco? Tragam o quadro, hoje vou dar uma aula de milhões para vocês.
Fang Zhuo falou com autoridade, dissipando o clima pesado.