Não te culpo

Reinventando a Era do Milênio Yu Xue 2638 palavras 2026-01-30 12:42:24

— Ei, você é da cidade de TC, não é? Certo, já anotei. Fique tranquilo, não vou esquecer, pode confiar.
— E você, de onde é? Do condado Z? Onde fica mesmo isso? Ah, sim, é lá para os lados de Xuancheng. Fique tranquilo, irmão, você ouviu o que a senhora de Tianchang falou agora há pouco, não foi? Ela disse que se eu enganar pacientes, vai cair um raio na minha cabeça.
— E você, tio? Hã? É daqui mesmo, e veio se meter por quê? Como é? Dá trabalho, prefere que eu te ligue quando sair o resultado? Tudo bem, mas aí cobro dois reais pela corrida.

Depois de um dia inteiro de trabalho, o mestre Fang fechou o caderno, massageou o pulso e se dirigiu ao setor de internação.

No quinto andar, encontrou o quarto da prima e acenou para ela através do vidro. Em pouco tempo, a tia Xu Ru saiu.

Fang Zhuo tirou do bolso um punhado de dinheiro, contou e entregou tudo para ela:
— Tia, aqui estão os mil reais de hoje, guarde com você.

Xu Ru ficou surpresa:
— Hoje veio tanto assim?

— Quem sabe, talvez tenha mais pacientes fazendo imuno-histoquímica no setor de patologia hoje — Fang Zhuo deu de ombros, sem revelar que, dos honorários recebidos, ele próprio completou quinhentos reais do bolso, deixando mais quinhentos para adicionar no dia seguinte.

Por menor que seja, dinheiro é dinheiro.

— Está bem, assim que seu tio transferir o dinheiro, te devolvo. O dinheiro da família fica todo na conta do hospital, mas para comprar coisas para os médicos ainda precisa ser em espécie — Xu Ru pegou o dinheiro e elogiou: — Você é esperto, Zhuo, tem futuro para ganhar muito dinheiro.

Fingindo ambição, Fang Zhuo respondeu:
— Tia, falando sério, embora isso pareça pouca coisa, dá dinheiro. Estou planejando abrir uma pequena empresa para cuidar só disso, é fácil de ganhar (e lavar) dinheiro.

Xu Ru hesitou:
— Abrir empresa? Zhuo, não era melhor conversar com seu pai e sua mãe antes?

— Claro que vou conversar, mas o importante é agarrar a oportunidade de negócio. Se só com um hospital já dá esse lucro, imagine todos os hospitais de Luzhou? — Fang Zhuo desenhava seu plano — Se der certo em todos, o tratamento da Qiqi estará garantido.

Xu Ru acenou com a cabeça, ainda um pouco preocupada:
— Amanhã já vão começar a quimioterapia de indução na Qiqi, com aquela doxorrubicina e a ara... açúcar...

— Arabinosídeo de citosina — completou Fang Zhuo com um suspiro. — Tomara que funcione.

— Ouvi o médico dizer que tem muitos efeitos colaterais — Xu Ru franziu a testa — Vai ficar vomitando o tempo todo.

— Sim, é a quimioterapia padrão para M2, primeiro a vida, depois o resto — Fang Zhuo mantinha uma calma incomum.

Xu Ru assentiu em silêncio.

— Tia, melhor você voltar para dentro — disse Fang Zhuo. — Vou até a rodoviária enviar os laudos dos clientes de ontem.

Xu Ru guardou o dinheiro e voltou ao quarto. Fang Zhuo acenou mais uma vez através do vidro para Qiqi antes de descer.

No entardecer, o hospital já não estava tão lotado quanto durante o dia. Alguns pacientes e familiares comiam em silêncio nos cantos, outros tinham estendido esteiras nas áreas livres, pois morar no hospital economizava e facilitava cuidar do doente.

Fang Zhuo caminhava apático pelo primeiro andar. O tratamento da prima avançava mais rápido do que na vida passada. O tio de sua professora Su havia conseguido um desconto no hospital como favor pessoal, e ele mesmo persuadira a família a iniciar logo o tratamento.

Contudo, o resultado ainda era incerto.

Enquanto pensava nas estratégias para lidar com os efeitos da quimioterapia, um barulho vindo da entrada do ambulatório tirou-o dos pensamentos.

— Irmão, não tem como fazer mais barato? Já passei com meu filho num hospital da cidade, mandaram a gente marcar consulta com o doutor Meng aqui — um homem de meia-idade, vestido com roupas surradas, agarrava o braço de um sujeito gordo, quase chorando de súplica.

O homem gordo era Da Qiang, cambista conhecido que já tinha barrado Fang Zhuo dias atrás. Ele respondeu com indiferença:
— Não é questão de querer ou não, amigo, vaga para especialista custa isso mesmo. Um homem feito desses, e não trouxe dinheiro suficiente para a consulta?

— Minha mãe chega na capital depois de amanhã, irmão, me dá a vaga agora, assim que ela chegar eu te pago — o homem, segurando o filho, sorria sem graça, quase implorando.

— Consulta com especialista é coisa rara, irmão. Mas olha, não vou dificultar para você, vejo que está com criança, então junte mais cem reais e a vaga é sua. Caso contrário, o doutor Meng só atende de manhã, depois só daqui a alguns dias — Da Qiang falava calmamente — Um pai que se preza, se a filha está doente, tinha que ter vindo logo para a capital, o que ficou enrolando na cidade?

O olhar do homem se encheu de lágrimas, mas ele conteve:
— Só tenho duzentos, irmão, reservei cinquenta para comida da criança, por favor, te peço...

Da Qiang balançou o braço, mas não conseguiu se livrar do homem e, resignado, disse:
— Então revira os bolsos aí, não acredito que não tem cem reais.

O homem não soltou o braço de Da Qiang, largou a mão da filha e vasculhou todos os bolsos de cima a baixo.

A menininha, ao ser solta, deu um passo para trás, abraçou a perna do pai e olhou o mundo com medo.

De repente, ela viu um olhar atrás do canteiro de flores, abaixou a cabeça rapidamente, mas logo depois olhou de novo e sorriu timidamente para aqueles olhos.

O sorriso era delicado e bonito, como se outra florzinha tivesse desabrochado à beira do canteiro.

— Então é verdade, não tem mais — Da Qiang balançou a cabeça — Vendo que está assim, amigo...

O homem suspirou aliviado.

Da Qiang continuou:
— Olha, vou te dar um caminho. Vai pelo beco leste, lá tem quem compre sangue.

Aquele tom de piedade:
— O que conseguir já serve, aí a vaga é tua.

O homem ficou paralisado, os lábios tremendo:
— Vender sangue, irmão...

— Fica tranquilo, é totalmente seguro! — garantiu Da Qiang com entusiasmo — E se não der, nem vou cobrar o resto. Sua vaga está garantida, dou minha palavra!

O peito do homem subia e descia, ele pegou a filha pela mão e seguiu cabisbaixo na direção indicada.

— Ei, amigo, Da Qiang, isso não é justo! — do outro lado do canteiro, Fang Zhuo apareceu, soltando a mandíbula tensa e chamando o homem — Que história é essa de vender sangue? Não tem medo de pegar doença? E depois, como vai ficar?

Da Qiang olhou de lado e reconheceu imediatamente o careca.

— E aí? Se ele não vender sangue, você vai cobrir o dinheiro dele?

Fang Zhuo olhou para a menininha que espiava por trás do pai, sorriu para Da Qiang:
— A criança é tão inocente, e você não tem pena?

— Eu também tenho família para sustentar! — retrucou Da Qiang, indiferente.

— Seu sem-vergonha! — Fang Zhuo xingou de leve enquanto tateava os bolsos — Hoje você teve sorte, minha mulher acabou de engravidar, deixa eu fazer uma boa ação. Toma, esses cem reais são para o santo.

Da Qiang não ligava para palavrões, mas essa generosidade repentina o incomodou. Gente estranha, pensou. Mulher grávida?

Lembrou da moça que estava com o careca na outra noite, olhou para a menininha tímida e decidiu acreditar. Pegou o dinheiro e, sem graça, falou:
— Tá, dinheiro é dinheiro. Aqui está a vaga, amanhã às nove e meia, não se atrase.

O homem pegou o papel atônito, olhando o cambista gordo se afastar resmungando.

— Obrigado, obrigado, irmão, depois de amanhã eu te pago — ele apertou a mão de Fang Zhuo, muito agradecido, lamentando — Cheguei tarde hoje, perdi a vaga, quase estraguei tudo, foi minha culpa, só minha!

— Cuide bem da consulta, não perca — recomendou Fang Zhuo.

Olhou para a menina que piscava para ele e respirou fundo:
— Não foi culpa sua, não foi.

Não foi culpa sua, não foi. A culpa é desse mundo que ainda tem pequenos problemas.

Mas talvez eu possa ajudar a resolver um deles.