O Estranho
— Bom dia, diretor Sun, sou Fan Rong, repórter da coluna de assuntos cotidianos do Jornal Vespertino de Luzhou.
A jovem repórter que bateu à porta aparentava pouca idade, um crachá de jornalista pendurado no pescoço e um sorriso aberto no rosto.
Sun Xingqun também sorriu e, involuntariamente, comparou-a com a mulher que encontrara pela manhã. Não é à toa que é jornalista, pensou ele, sabe abordar as pessoas.
— Olá, olá — respondeu o vice-diretor com cordialidade. — Em que posso ajudar?
Fan Rong fez um leve aceno de cabeça.
— Diretor Sun, recebemos relatos de cidadãos informando que, no nosso Primeiro Hospital Anexado, há médicos recebendo gratificações indevidas. O senhor tem conhecimento disso?
O ânimo de Sun Xingqun despencou no mesmo instante. Apesar de a repórter falar em “médicos”, ele suspeitava que o alvo fosse ele próprio.
O vice-diretor ativou rapidamente todo o seu raciocínio.
Dois segundos depois, negou categoricamente:
— Pelo que sei, não há esse tipo de situação em nosso hospital. Jovem, não se deve acreditar em qualquer boato que se ouve por aí.
Sun Xingqun inclinou-se à frente, observou de propósito o crachá de Fan Rong, como se quisesse memorizar os dados, e então sentou-se direito novamente:
— Você é do Jornal Vespertino de Luzhou? O diretor do seu jornal é o camarada Li Xing, não é?
Fan Rong confirmou:
— Sim, é o diretor Li. Diretor Sun, posso fazer-lhe mais uma pergunta?
Sun Xingqun percebeu que a repórter já estava ciente do terreno em que pisava e respondeu, com certa indiferença:
— Pode perguntar.
— Ouvimos dizer que circula na instituição o boato de que um dos vice-diretores possui várias mansões. O senhor tem conhecimento disso?
Os olhos de Fan Rong tinham um brilho cortante.
Sun Xingqun, surpreso e furioso, levantou-se de súbito e rebateu:
— Absurdo! Calúnias, tudo calúnia! Que mansões eu teria? Só... só uma vez fui à casa de um amigo e vi uma mansão.
Agora tinha certeza de que aquela repórter não viera com boas intenções. Fechando o semblante, disse:
— Por favor, retire-se. O hospital não recebeu agendamento para entrevista. Qualquer coisa, peça ao seu diretor para entrar em contato.
Fan Rong não insistiu. Chegou educadamente, saiu do mesmo modo; foram apenas alguns minutos de conversa.
No entanto, Sun Xingqun sentia-se pior do que pela manhã.
Hoje, as coisas estavam realmente estranhas.
Será que alguém queria prejudicá-lo?
Ele se recordou cuidadosamente da primeira vez que recebera dinheiro da tal mulher, lembrando-se de que fora indicado por um sobrinho que trabalhava no supermercado do térreo. Aquele sujeito só trazia problemas.
Pegou o telefone fixo do escritório e começou a discar números, decidido a usar suas conexões para conter qualquer possível crise.
Ao mesmo tempo, em vários cantos do hospital, começaram a circular conversas sobre um certo pedido de dinheiro ouvido ou presenciado na manhã daquele dia.
...
— Pegue esta bolsa, vá ao banheiro ali na frente, troque de roupa e lave o rosto. Prenda o cabelo.
— Saindo, pegue um táxi direto para casa. Não esqueça de rasgar e descartar os documentos do diretor assim que chegar.
— Não se apavore, não se precipite. Ninguém vai desconfiar de você, mas não ande pelo hospital nos próximos dias. Vou ficar aqui observando se aparece algum problema.
Do lado de fora da porta lateral do Primeiro Hospital Anexado, Fang Zhuo instruía de maneira sucinta e experiente uma cúmplice apressada, só retornando ao hospital depois que ela sumiu na esquina da rua.
Sua missão naquele dia era vigiar dali.
Comprou alguns jornais, sentou-se nos degraus e ficou folheando. Almoçou uma marmita e, durante todo o tempo, nada aconteceu de anormal, apenas observando o entra e sai dos seguranças.
Quando, à tarde, viu outra repórter de traje profissional, Fang Zhuo não se aproximou. Aquela abordagem era por meio dos contatos da professora Su, ele não precisava aparecer.
Além disso, não era uma entrevista formal, apenas um pretexto para abordar a coluna de assuntos cotidianos.
Segundo a professora Su, seriam duas ou três perguntas, nada que ultrapassasse limites.
Durante toda a tarde, até o horário de saída dos funcionários, Fang Zhuo não notou nenhum sinal estranho, até que viu o vice-diretor Sun Xingqun.
Notou um detalhe: o vice-diretor, em vez de voltar para casa em seu carro Mercedes, saiu do hospital pedalando uma bicicleta, carregando uma pasta.
Fang Zhuo não se apressou, terminou o jantar ainda sentado nos degraus.
Entediado, folheou novamente os jornais já lidos, e só ao anoitecer foi até a enfermaria visitar a tia e a irmã.
À noite, de volta ao alojamento, Fang Zhuo não entrou em contato imediatamente com a professora Su e com Yu Hong. Só por volta das onze da noite recebeu uma ligação do telefone residencial de Yu Hong.
Mesmo pelo telefone, era impossível disfarçar a tensão e o entusiasmo daquela que cometia o primeiro delito.
— Xiao Fang, nenhum problema por aí?
Fang Zhuo respondeu:
— Nada de anormal, tudo certo. Só notei que o velho Sun hoje não foi de carro, voltou de bicicleta. Aposto que chegou em casa exausto.
Yu Hong, excitada, perguntou:
— Você ficou sabendo como foi a entrevista da repórter?
Fang Zhuo respondeu com seriedade:
— Tudo já estava combinado. Para saber detalhes, só esperando um pouco. Mas, para falar a verdade, não faz diferença. O que tinha de acontecer já aconteceu, agora é aguardar o resultado. Afinal, foi uma emboscada contra um idoso, nem tenho muita vontade de saber os detalhes.
Yu Hong concordou, mas não resistiu a compartilhar suas impressões sobre o nervosismo e a inquietação ao retornar para casa.
Entre conversas e confidências, gastaram boa parte dos créditos do telefone.
Naquela noite, Fang Zhuo adormeceu pensando nos rumos da empresa como de costume, mas tanto o velho Sun quanto a jovem Yu Hong passaram a noite em claro, inquietos e aflitos.
Yu Hong, como se estivesse num palco, concluiu toda a ação ansiosa pelo resultado e com um pouco de temor.
O velho Sun, por sua vez, estava desconfiado, sem saber se era vítima de uma armação ou apenas azar. Além disso, entrevistas de repórteres às vezes não têm maiores consequências, mas por vezes são delicadas.
Faltando um ano para a aposentadoria, não pôde evitar pensar em mil possibilidades, inclusive se o outro vice-diretor, aparentemente inofensivo, não esconderia intenções sombrias.
No dia seguinte, Fang Zhuo acordou cedo como sempre e não foi procurar nem a professora Su nem Yu Hong. Seguiu o plano e foi com Zhou Xin procurar um local adequado para instalar os servidores.
Os dois passearam e conversaram um pouco. Fang Zhuo percebeu que o gerente técnico queria lhe contar algo, mas apenas esperou pacientemente.
— Fang, tenho algo meio constrangedor para falar — Zhou Xin começou com dificuldade.
— O que é isso, entre nós não há cerimônia — respondeu Fang Zhuo, pensando consigo mesmo: veja só, até Yu Hong ficou envergonhada, mas não deixou de interpretar o papel de atriz de cinema.
Zhou Xin, um pouco encabulado, explicou:
— Esse local foi indicação do meu orientador. Ele me perguntou sobre o projeto em que estou envolvido, soube que era uma empresa e que o colega Song Rong também faz parte. Então, disse que tentaria nos ajudar a obter o selo de empresa de ex-alunos da universidade.
— Como você detém a maior parte das ações, fiquei sem jeito de explicar tudo ao orientador, então acabei não recusando.
Como assim? Que oportunidade excelente!
Fang Zhuo abriu um largo sorriso:
— Isso é ótimo! O nome da Universidade de Ciência e Tecnologia da China tem peso, é maravilhoso. Além disso, não sou o único sócio, se tem ex-alunos, então é empresa de ex-alunos.
Sim, isso só aumenta nosso prestígio.
Zhou Xin se animou:
— Que bom que você não se importa.
Ele então tirou do bolso um exemplar cuidadosamente impresso do jornal:
— Este é o Jornal da Universidade, resultado da entrevista feita no último feriado nacional. Só agora saiu da gráfica.
— Ah, Fang, a Wei Zhen, aquela repórter que nos entrevistou, deixou o jornal comigo e ainda perguntou de você, disse que, quando puder, gostaria de nos convidar para jantar, conversar sobre a empresa e sobre internet.
— Ah, ela? Depois vemos isso — respondeu Fang Zhuo, folheando o jornal da universidade sem demonstrar emoção. — Pegue mais alguns exemplares, vão ser úteis quando formos encontrar certas pessoas.
Zhou Xin, surpreso, perguntou:
— Encontrar quem?
Fang Zhuo sorriu de leve:
— Pessoas que possam nos ajudar a integrar oficialmente os recursos do hospital. Temos que mostrar nosso lado mais simples e motivado. Ah, me empreste uma camiseta da universidade e um crachá de estudante.
— Está bem — respondeu Zhou Xin.