O trigésimo segundo feto maligno desaparece (Parte Um)
O feto maligno estava prestes a romper o selo? Senti meu rosto empalidecer e um tremor percorreu meu corpo. Naquela noite, o bebê morto, mesmo sem ter despertado, já exalava um terrorífico ar sombrio; agora, no instante em que Li Tong se transformou em um espírito vingativo, temia que o bebê morto também tivesse despertado. Pela voz aflita de Chen Ruowei, percebia que a situação era urgente.
Olhei para Xiao Zizhuo, que continuava parado como um tronco, e um amargor tomou conta do meu peito. Desde pequeno, fui marcado por um destino infeliz, sem amigos, trazendo desgraça aos poucos que tentavam se aproximar de mim. Só na universidade consegui, aos poucos, fazer três bons amigos com quem podia dividir tudo. Agora, parecia que, por minha causa, eles também estavam sendo envolvidos em acontecimentos sobrenaturais. Nunca imaginei que acabaria afetando-os dessa forma.
Desta vez, Xiao Zizhuo foi o primeiro. Quem seria o próximo...? Não ousei continuar esse pensamento. Apoiei-me na parede e levantei devagar. Coloquei Dodó, de olhos fechados, na mochila e a prendi às costas. Minha espada de madeira de pessegueiro estava completamente negra, desprovida de energia.
— Zizhuo, lamento muito. Agora, o que você precisa fazer é cumprir o último desejo de Li Tong.
Ao ver Xiao Zizhuo, que deixava lágrimas masculinas rolarem sob o luar pálido, meu coração apertou. Não era por outro motivo senão pelo fato de que ele foi o primeiro a falar comigo quando entrei no dormitório. Era, de fato, o chefe do nosso quarto, mesmo que só de nome.
— Yang, obrigado!
Eu não disse nada. Xiao Zizhuo, com todo o cuidado, encontrou um saco para corpos e colocou ali o cadáver frio e ensanguentado de Li Tong, depois o ergueu no ombro.
— Zizhuo, vou descer com você. Preciso ainda encontrar meu amigo. Não volte para o dormitório agora. Procure um hotel simples, daqueles que não exigem identidade, e fique lá. Amanhã, logo cedo, pegue dinheiro suficiente e providencie a cremação de Li Tong o quanto antes.
Xiao Zizhuo assentiu e desceu comigo. Pelo caminho, a energia maligna parecia ter enfraquecido, mas a inquietação não me abandonava.
Ao vê-lo partir, mergulhei novamente no prédio do hospital.
Segui por onde sentia a energia mais densa, à procura de Li Bing, tomado por uma preocupação crescente. Pela voz de Chen Ruowei, o bebê morto parecia mesmo prestes a romper o selo, e eu não sabia se ela seria capaz de detê-lo.
Acelerei o passo, e, após meia hora, cheguei diante de uma porta escura. Tinha certeza de que ainda estava dentro do prédio. Ao me aproximar, uma densa energia sombria me envolveu. Parecia ouvir gritos lancinantes...
Li Bing?
Aqueles gritos se pareciam demais com os de Li Bing. Ignorando o cansaço, disparei para dentro. Assim que entrei, meu rosto se contorceu em horror.
O espaço diante de mim era do tamanho de um estacionamento, repleto de corpos espalhados, alguns frescos e ensanguentados, outros já apodrecidos e exalando um fedor insuportável. Sob a luz pálida e espectral, a cena era de arrepiar qualquer um.
Havia corpos rastejando só com metade do tronco; outros brincavam com as próprias entranhas; crianças jogavam estranhos jogos em que o vencedor arrancava o olho do perdedor; alguns ainda rasgavam a própria pele e costuravam de volta...
Fiquei paralisado diante de uma cena tão absurda.
— Yang Sen, me salve! — ouvi de repente.
Ao me ver entrar, todos os espíritos cessaram suas ações. Imediatamente, percebi Li Bing sendo segurada por dois fantasmas masculinos de rostos já corroídos, um deles arrancando-lhe um olho, enquanto outros espíritos femininos, com unhas afiadas, abriam sua barriga e puxavam um pedaço do intestino.
Com o semblante sério, mordi minha própria língua até sangrar, misturei o sangue à saliva e cuspi na direção dos dois fantasmas que a prendiam.
Esses fantasmas não tinham mais rosto; vermes grossos deslizavam por suas cabeças e caíam em seus corpos.
Chi! Chi!
Aqueles fantasmas urraram tão alto que atraíram todos os olhares para mim. As miríades de olhos vermelhos me encheram de terror.
— Vamos! — gritei, agarrando Li Bing e puxando-a na direção da porta.
— Matar! Matar! — rugiram os fantasmas feridos pelo meu sangue.
— Li Bing, corra! — lancei-a para fora da sala.
— Meu olho! — ela gritou. Impaciente, saltei e agarrei o globo ocular ensanguentado que voava no ar. Mordi meu dedo médio até sangrar e, ao encarar os fantasmas, desenhei um corte no ar.
— Sangue vital, forma a espada! Que corte os maus espíritos!
Assim que terminei, uma luz vermelha brotou do meu dedo médio sangrando. Fiquei excitado, pois era a primeira vez que usava a técnica do livro encadernado antigo para lidar com fantasmas.
Essa técnica, chamada de Espada de Sangue Vital, era eficiente contra fantasmas comuns, mas inútil contra espíritos vingativos, motivo pelo qual, ao enfrentar Li Tong, utilizei a espada de madeira.
Para minha surpresa, ao ativar a Espada de Sangue, todos os espíritos recuaram assustados, até mesmo os dois fantasmas que mais me ameaçavam se encolheram num canto.
Sem entender o motivo, aproveitei para correr, devolvi o olho a Li Bing, que o enfiou de volta na órbita sangrenta, assim como o intestino de volta à barriga.
Ao me virar, vi acima da porta uma velha espada de madeira, pendurada. Só então percebi por que os fantasmas não conseguiam sair daquele recinto.
— Vamos! — disse, aflito. Se o bebê morto rompesse o selo e Chen Ruowei não conseguisse detê-lo, as consequências seriam desastrosas. Lembrei claramente do que Chen Balian dissera: se esse espírito maligno se consolidasse, sua energia letal poderia contaminar duas ou três cidades médias.
Ao sair do hospital, chamei um táxi e fui direto à funerária de Zhao Bansian. Recomendei que Li Bing voltasse sozinha. Pouco depois, ao chegar, vi no telhado um redemoinho sombrio e ameaçador.
Joguei uma nota de cem ao motorista e corri para dentro.
Como esperado, as luzes estavam queimadas, o corredor escuro parecia um caminho de fantasmas.
Quanto mais me aproximava do último andar, mais ouvia estrondos. Sabia que Chen Ruowei estava lutando contra o feto maligno.
Assim que abri a porta do terraço, uma massa de energia sombria se lançou contra mim como uma mão gigante.
— Yang Sen, venha rápido! — gritou Chen Ruowei.
Assenti e corri em sua direção.
Ela estava num círculo encharcado de sangue de cão preto. A menos de três metros, o chão estava coberto de talismãs amarelos, banhados em sangue colorido, ainda mais potente que o sangue de cão. Em torno dos talismãs, doze lampiões com figuras dos signos do zodíaco estavam acesos.
No centro, entre o sangue colorido, estava o jarro de vidro já começando a rachar. À luz dos lampiões, vi claramente os olhos abertos do bebê morto no interior do jarro.
Aqueles olhos me encararam e giraram levemente. A boca vermelha começou a se abrir, e, de repente, a mistura de arroz glutinoso e sangue colorido foi empurrada para dentro, produzindo um som chiado e sinistro.
— Por que isso está acontecendo? — perguntei, aliviado por ver que o feto maligno ainda não havia rompido o selo, mas o panorama à frente era tudo menos otimista. A julgar pela situação, não demoraria para que o jarro fosse destruído.
Chen Ruowei cuspiu sangue e sorriu amargamente:
— Não esperávamos por isso. O feto queria, na verdade, que o selássemos. Assim, durante sete dias, nada o perturbaria e ele recuperaria suas forças. Ao final desse tempo, usando a energia sombria acumulada no hospital pela mãe, atrairia toda a energia negativa num raio de cem quilômetros. Nosso pequeno selo já não é suficiente. Em dez minutos, ele vai se libertar, e aí as consequências serão catastróficas!
— Rápido, ligue para o tio Zhao! — exclamei.
Chen Ruowei assentiu. Peguei o telefone e tentei várias vezes até conseguir. Assim que Zhao Bansian ouviu a situação, passou imediatamente o telefone para Chen Balian.
— Xiao Yang, você não pode mais usar o ponto letal. Já utilizou duas vezes em sete dias, isso vai lhe custar um mês de vida. Passe o telefone para Ruowei, preciso falar com ela.
Entreguei o telefone para Chen Ruowei, que estava pálida.
Não ouvi o que Chen Balian disse, mas vi o rosto de Chen Ruowei se tornar ainda mais sombrio.
Nesse momento, um grito espectral ecoou, ao mesmo tempo alegre e selvagem, e, imediatamente, o céu escureceu por completo, até mesmo a luz da lua desapareceu.
— É o fim! O feto maligno nasceu! — gritou Chen Ruowei, erguendo-se e puxando-me para trás de si.
— Se eu morrer, jogue minhas cinzas ao mar. Não quero repousar em um caixote! — disse, fria.
Logo depois, enfiou os dedos ensanguentados na boca e, cerrando as sobrancelhas, mordeu-os com força.
— Que minha vida se faça espada! Desperte!
...