Um contrato de casamento
A língua de Borboletinha era muito fria, como se, em pleno verão, eu tivesse mordido um picolé gelado até os ossos. O medo me paralisava; ela me abraçava e eu só sentia um arrepio gélido, o corpo tremendo incontrolavelmente.
Se fosse um sonho, eu ainda pensaria que algo aconteceria entre mim e essa beldade. Afinal, esse rosto, esse corpo, essa postura, essa atmosfera... tudo sugeria que algo grandioso estava prestes a acontecer.
Mas aquilo definitivamente não era um sonho. Apertei com força a carne macia da minha cintura, e a dor foi tão aguda que perdi momentaneamente o equilíbrio.
“O que houve, marido?”
Borboletinha parou o que estava fazendo e olhou para mim com aqueles olhos belos. Mas, olhando para ela, não sentia nenhuma emoção senão puro terror. Naquele instante, avistei pela janela um vestido vermelho esvoaçando, perturbador, e o barulho do lado de fora era ensurdecedor. Mas o que ecoava nos meus ouvidos eram as palavras do Mestre Zhao:
“À noite, você não pode contrariar os desejos dessa mulher fantasma... Ela lhe deu a pele das costas, quer dormir com você... Se sobreviver essa noite, eu dou um jeito de te salvar...”
“Marido, está tão fraco, por que está todo suado?”
Borboletinha não parecia irritada; continuava deitada nos meus braços. Meu corpo semierguido já estava cansado, então me deitei devagar na cama. O colchão era macio, mas meu coração só sentia estranheza.
Tudo que eu vira de dia era diferente agora à noite. A realidade era que eu estava num prédio abandonado há anos, onde, segundo diziam, houve um incêndio terrível que matou muita gente. O lugar ficou conhecido por sua atmosfera sinistra, ninguém quis investi-lo, e assim tornou-se a maior cova mal-assombrada da cidade.
Fora o Mestre Zhao quem me contou tudo isso. Eu era só um estudante do interior, totalmente alheio a essas histórias. Se não fosse pelo que aconteceu na noite anterior, talvez eu jamais acreditasse que fantasmas realmente existem.
“N-não é nada...”
A mão gélida dela tocou meu rosto, cortante como uma lâmina.
“Marido, tantos anos e você nunca me olhou de verdade, venha...”
A voz era tão suave, mas ao ouvir aquilo, um calafrio percorreu meu corpo. Não havia como resistir; aquelas mãos brancas e frias seguraram meu rosto.
Engoli em seco, temendo que ela arrancasse minha cabeça dali mesmo.
“Você acha Borboletinha bonita?”
Com ela segurando meu rosto, meu corpo começou a se acostumar ao frio, e pude observar o quanto era bela. Nenhum artista, por melhor que fosse no Photoshop, conseguiria criar uma face como a dela; era perfeição absoluta.
A voz de Borboletinha fez meu coração disparar de novo.
Como deveria responder? Se dissesse que era bonita, ela pensaria que eu estava sendo bajulador? Em filmes de terror, há sempre aquela trama em que mulheres feias, depois de mortas, mudam de rosto e ficam belíssimas. Não seria o caso dela...?
Não podia mais pensar; soltei um longo suspiro, sentindo o medo crescer. Precisava tirar o foco da situação, então, vendo que Borboletinha parecia não me oferecer perigo imediato, tentei recitar textos de cor.
O Manifesto da Expedição, O Prefácio ao Pavilhão do Rei Teng...
“Marido, você sabia que Borboletinha esperou muito tempo por esse dia?”
Enquanto falava, sentia um frio no peito, e nem ousava me mexer. Meu coração batia tão forte que quase podia ouvi-lo. Dormir abraçado com uma mulher bonita era o sonho de qualquer um, mas, naquela situação, só havia pavor.
De repente, um clarão vermelho cruzou a janela iluminada. Tremi todo, assustando Borboletinha no meu colo.
“Marido, o que foi?”
Com o dedo trêmulo, apontei para a janela. Desta vez, vi claramente: era um vestido longo, vermelho como sangue.
“Ah, é só a irmã Li Bing”, disse Borboletinha, como se falasse de uma vizinha.
Mas estávamos no décimo quarto andar, e o que eu via era só um vestido sangrento flutuando! Aquilo me deixou ainda mais desnorteado.
O que eu fiz para merecer isso?
“Marido, não tenha medo. Com Borboletinha aqui, ninguém vai te machucar, nem sequer te dar um tapa!”
Percebendo meu medo, a voz de Borboletinha era doce, como a de uma esposa dedicada. De súbito, lembrei das palavras do Mestre Zhao, engoli em seco e perguntei, cauteloso:
“Borboletinha, você tem alguma mágoa? Pode me contar, eu faço o possível para te ajudar.”
Se um fantasma me levou até ali, certamente queria algo de mim. Eu ainda não sabia o motivo, mas, já que estava envolvido, precisava encarar.
“Marido, você não lembra de Borboletinha? Sou sua esposa, há vinte e quatro anos estamos juntos. Você nunca percebeu?”
Quase pulei da cama ao ouvir aquilo.
Vinte e quatro anos comigo? Fantasma também enlouquece? Eu sou virgem até hoje! No ensino médio, até conhecia bem o “caminho da mão”, mas larguei o vício na faculdade; até hoje minha única companhia são as próprias mãos. Esposa, para mim, é um luxo inalcançável.
“Você não acredita, marido?”
Balancei a cabeça. Em pleno século XXI, “marido” e “esposa” parece coisa de novela rural.
“Eu sabia que você não acreditaria. Ainda bem que vovó deixou nossa certidão de casamento.”
“Vovó?”
Aquilo só deixava tudo mais estranho. Nunca conheci meus avós; meu pai dizia que minha avó morreu quando ele nasceu. Na minha lembrança, vovó era só uma foto amarelada e histórias contadas por meu pai.
“Sim, quando você nasceu, vovó me prometeu a você, dizendo que se Borboletinha o protegesse até os vinte e quatro anos, minha missão estaria cumprida e eu seria livre.”
Mal ouvi isso, minha mente deu um nó.
Seria um casamento sobrenatural ou fui criado por um fantasma? Vovó morreu há pelo menos trinta ou quarenta anos, e agora aparece uma esposa fantasma que ela arranjou para mim?!
Preciso contar sobre minha avó. Nos anos 60, ela era a mulher mais respeitada do vilarejo. Com dezoito anos, um monge errante passou por lá, encantou-se por ela e ficou na aldeia. Com o tempo, vovó e vovô tornaram-se os médiuns mais famosos da região. Dizem que vovó enfrentou até perigosos espíritos das águas, tornando-se famosa até fora da aldeia.
Depois, vovó e vovô foram chamados por um alto funcionário, e sumiram por dez anos. Um dia, vovó voltou sozinha, grávida, e ali nasceu meu pai. Três dias após o parto, vovó faleceu. Meu pai cresceu alimentado por vizinhos, até ser acolhido por meu terceiro tio.
Desde pequeno, esse tio me contava histórias de vovó para me inspirar a estudar. Por isso fiquei curioso ao ouvir Borboletinha falar dela.
Vendo minha descrença, Borboletinha sorriu e disse: “Marido, não tenha medo, vou lhe mostrar a certidão de casamento.”
Dizendo isso, presenciei uma cena que jamais esquecerei.
Borboletinha, de repente, arrancou o vestido. Ela usava uma peça única, e, ao puxá-la, seu corpo escultural se revelou por completo. A pele era lisa como jade, não lembrava em nada um fantasma.
Por um instante, duvidei dos meus próprios olhos. Não fosse o vestido vermelho flutuando lá fora, eu pensaria estar em um bordel de luxo.
De repente, Borboletinha, com dedos finos como brotos de bambu, tocou o próprio peito e cravou as unhas ali.
Fiquei horrorizado, o suor gelando meu corpo.
Vi claramente: suas unhas cresceram subitamente e rasgaram o peito, sem uma gota de sangue, só os ossos brancos aparecendo. Não havia cheiro de carne podre; pelo contrário, o aroma era de flores de osmanthus, como na minha terra natal. Fiquei paralisado enquanto ela abria o próprio peito, deixando o seio volumoso pender de lado. O coração, vermelho e frio, estava nas mãos dela.
Com um golpe, abriu o coração e de lá retirou um pedaço de papel de couro.
Desdobrou-o: tinha metade do tamanho de uma folha A4.
Estava coberto de sangue seco, cor de carmim.
“Marido, tome, esta é nossa certidão de casamento!”
Tremendo, peguei o papel que Borboletinha me entregava. Bastou um olhar para ver meu nome destacado ali, junto ao dela.
“Agora você acredita, marido?”
Enquanto falava, ela recolocava o seio no lugar...