Dez não pode ser resolvido.
O som agudo das unhas arranhando os ossos ecoou pela sala, seguido por um silvo inquietante e contínuo. No instante seguinte, o velho Boi Zeng soltou um urro ensurdecedor, seu lamento tão feroz que parecia a agonia de uma fera selvagem.
— Borboleta, você não pode me matar! Minha alma já está guardada com o Monge de Madeira. Mesmo que me elimine, posso ressurgir em outro corpo, hahahaha...
Sua voz não carregava dor, mas sim um entusiasmo estranho, uma alegria que prenunciava transformação.
Ao ouvir isso, Borboleta parou, estendeu a mão e arrancou do peito de Boi Zeng o coração, já gélido e sem vida. No crematório, sob luzes amareladas, vi o corpo de Boi Zeng cair, seus olhos vazios, antes saltados das órbitas, perderam todo brilho e rolaram junto aos pedaços espalhados de carne.
Borboleta virou-se, segurando o coração de Boi Zeng, e veio em minha direção.
— Marido, abra a boca!
Estremeci, perplexo. Seria possível que ela quisesse que eu devorasse aquele coração?
Sem tempo para reagir, Borboleta já estava ao meu lado; num gesto violento, esmagou o coração pútrido, e o líquido negro e viscoso escorreu por suas unhas afiadas, penetrando minha boca.
Todo meu corpo se arrepiou; caí sentado no chão, incapaz de mover um músculo. Apesar do cheiro repulsivo, o líquido não era difícil de engolir. Tinha um sabor que lembrava carne defumada.
Ao beber aquele líquido escuro, senti uma força renovada, como se todo meu vigor retornasse de repente, e me pus de pé, revigorado.
— Marido, vamos embora. Voltemos ao apartamento!
Assenti, levantando-me e seguindo Borboleta, tal como na primeira noite: ela à frente com seus saltos estalando pelo corredor, eu logo atrás.
Desta vez, contudo, não havia alegria em meu peito. Percebi, vagamente, que estava mudando, que tudo isso invadia minha vida como uma tempestade, sem me dar tempo para respirar ou pensar, obrigando-me a aceitar os acontecimentos.
Ao chegarmos ao décimo quarto andar, não ousei sentar-me na cama, pois agora compreendia o que realmente era: eu dormira sobre cadáveres, coberto por peles mortas.
Assim que Borboleta entrou, vomitou uma golfada de sangue rubro. Corri para ampará-la, preocupado.
Naquele momento, estávamos a sós. Por um acaso do destino, eu já conseguia ver os mortos, como se tivesse olhos de salgueiro, enxergando o invisível.
— Marido, me desculpe... — murmurou Borboleta, chorosa.
Eu não entendia a razão de suas palavras, mas sentia que algo havia mudado em mim. Desde que bebi o líquido extraído do coração de Boi Zeng, uma excitação inexplicável tomou conta de mim, como se tivesse ingerido uma bebida energética.
— Marido, minha avó dizia que, ao beber teu sangue, minha força se duplicaria, mas nossas vidas ficariam ligadas. Por isso perguntei se tinhas medo da morte.
— Borboleta, seja mais clara. Não compreendo!
De fato, não compreendia. Sempre ouvi histórias sobre fantasmas, assisti filmes, mas era a primeira vez que via um de verdade — e logo em meio ao que Zé Místico chamava de provação fatal.
Agora, percebia que essa provação não era tão simples.
— Quando minha avó partiu, recomendou que eu jamais bebesse sangue humano, a menos que não houvesse alternativa. Quebrando esse voto há dois anos, quando o Monge de Madeira me perseguia, comecei a notar fenômenos estranhos em mim. Ela disse que, ao beber teu sangue, nossas vidas se entrelaçariam e nosso filho nasceria em breve.
— O quê? Nosso filho?
Fiquei aturdido. Filho? Eu ainda era virgem! Como poderia surgir um filho assim? Será que meu sangue tinha o mesmo efeito que minha essência?
Borboleta assentiu, contando-me toda a história.
Vinte e quatro anos atrás, no Festival dos Fantasmas de 1991, as portas do mundo dos mortos se abriram. Nesse dia, minha mãe me deu à luz, mas o horário era impróprio, provocando uma perturbação no feng shui de toda a aldeia de Porta de Terra.
Segundo Borboleta, ela e minha avó estavam no alto da montanha, observando a energia sombria de centenas de quilômetros convergir para o ventre de minha mãe, formando um enorme redemoinho de vento espectral.
No dia de meu nascimento, inúmeros espíritos atormentados tentaram escapar da roda do destino, buscando atalho no corpo de minha mãe. O desejo coletivo desses espíritos ativou o ponto focal do feng shui, tornando minha mãe o centro de um ritual, e eu, o cristal desse centro.
Borboleta contou que, naquela noite, minha avó disse que era hora de retribuir a dívida. Então, desfez o selo do avental vermelho que prendia Borboleta, utilizou um cadáver do cemitério para desenterrar meu corpo e selou o avental na tumba da família.
Guiada por minha avó, Borboleta entrou no corpo de minha mãe, acalmando os espíritos e permitindo meu nascimento seguro. Ela disse que, por sorte, nasci à noite; se fosse de dia, a aldeia mergulharia em trevas. Naquela noite, os animais da aldeia adoeceram subitamente, pois os espíritos sem força suficiente para possuir humanos acabaram tomando os corpos dos animais.
Borboleta não sabia o que ocorreu depois. Disse que, ao despertar, era o nono dia após meu nascimento, exatamente à meia-noite.
Minha avó advertiu: jamais beba sangue humano ou consuma carne, ou uma grande calamidade cairá sobre ti.
Mas Borboleta não sabia que tipo de desastre seria. Ela recordou que, se não pudesse evitar, deveria beber meu sangue e unir sua vida à minha, na esperança de escapar do destino.
— Tua avó não deixou pistas sobre o tipo de calamidade?
Borboleta balançou a cabeça, apontando para meu braço, que ela havia envolto cuidadosamente.
Ao olhar, meu rosto empalideceu. A pele branca de Borboleta fundira-se à minha, formando um círculo claro, como uma pulseira em torno do pulso.
— Isso é...
— Marido, é a prova de que nossas vidas agora estão ligadas. Significa que, mesmo durante o dia, posso aparecer, desde que me chames em um lugar sombreado.
Sentia-me estranhamente inquieto.
— Borboleta, por que vomitou sangue? Está gravemente ferida?
Ignorei outros assuntos; o dia estava prestes a nascer, eu poderia sair dali e buscar Zé Místico para entender tudo. Eu confiava que ele sabia muito mais.
Borboleta negou com a cabeça.
— Nem sabes o que está acontecendo contigo?
Ela assentiu, lançando um olhar para o céu, que escurecia lentamente.
— Marido, o dia vai nascer. Preciso voltar ao quarto. E Boi Zeng não está morto; o Monge de Madeira já deve saber o que se passa aqui, e também conhece tua existência. Se chegaste até aqui, é porque alguém te guiou. Quando o sol nascer, parte imediatamente e encontra esse mentor, peça-lhe que enfrente o Monge de Madeira!
— Quem é o Monge de Madeira?
Borboleta balançou a cabeça e falou suavemente:
— Marido, ao beber teu sangue, sinto-me estranha. Lembra-te do que te digo: procura quem te orientou e pede-lhe que enfrente o Monge de Madeira. Só assim poderemos destruir Boi Zeng de vez. Ele é um espírito repleto de rancor; hoje arranquei-lhe o coração para ti, agora não há volta. Só se o destruirmos completamente, alma e essência, tudo estará resolvido. Senão, se ele ressurgir, será muito difícil enfrentá-lo.
Assenti, vendo Borboleta desaparecer pela porta.
Após sua partida, soltei um longo suspiro e sentei-me no chão. O frio me despertou um pouco, mas minha mente permanecia confusa, cada pensamento trazendo mais dor de cabeça.
Nenhum outro espírito bateu à minha porta; permaneci ali, encolhido, até adormecer.