O caixão ensanguentado

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3043 palavras 2026-02-09 14:08:25

Na manhã seguinte, logo ao amanhecer, Zé Meio-Santo mandou que Lótus Vermelha e sua família reunissem todos os moradores do vilarejo para que derrubassem cada uma das bananeiras da floresta e arrancassem suas raízes. Durante o dia, sob o sol, essas bananeiras não ousavam se mover, escondendo-se nos próprios troncos. Quando os aldeões começaram a cortá-las, em mais de cinquenta delas o sangue jorrou abundantemente, assustando os que manejavam os machados, obrigando-os a recuar. Zé Meio-Santo, então, lançou um punhado de arroz e, com um grito, exclamou: "Demônio, ousa ainda causar transtornos? Morra de uma vez!" E logo ordenou que todos continuassem o trabalho.

Quando enfim queimaram todas as bananeiras, já era quase meio-dia. Os aldeões, agradecidos, demonstraram um profundo respeito por mim e por Zé Meio-Santo, insistindo para que ficássemos para o almoço, trazendo à tona todo tipo de problemas: porcos doentes, pesadelos recorrentes, crianças choronas durante a noite. Zé Meio-Santo, porém, despistou todos dizendo que havia ainda uma questão importante a resolver, e, arrastando-me pela mão, apressou-se a deixar o vilarejo sem nome.

Eu ainda estava impressionado com o modo como Zé Meio-Santo havia enfrentado o espírito da bananeira com arroz, mas ele me confidenciou que tudo aquilo não passava de uma encenação para tranquilizar os aldeões; a situação ali era muito mais complexa do que parecia.

Meu coração ficou apreensivo. Quando atravessamos o bosque dos túmulos, aquela sensação de ser chamado tornou-se ainda mais intensa, e passei a acreditar piamente nas palavras de Zé Meio-Santo, não ousando vacilar e seguindo-o às pressas, como se fugíssemos para salvar a vida.

Somente ao chegar à estrada e entrar na caminhonete, nossos corações começaram a se acalmar um pouco.

"Zé, me conta o que está acontecendo, senão não vou sossegar", pedi.

"Inquieto está você? Inquieto estou eu, que estou morrendo de medo!" Ele tirou do bolso um copo, bebeu um gole grande e enxugou a boca, parecendo um camponês rude acostumado ao cigarro.

Fiquei ainda mais preocupado com sua resposta.

"Você sabe com o que sonhei enquanto cochilava hoje de manhã?"

Como eu poderia saber?

Zé Meio-Santo quis acender um cigarro, mas eu o impedi, lembrando que estávamos no carro.

O cheiro forte de gasolina me incomodava, enquanto ele permanecia calado, a testa franzida, como se pensasse na melhor maneira de me contar.

"Vi um caixão. Um caixão vermelho, que não devia ter mais de um metro, mas havia um ar de morte ao redor, e tive a sensação de que dentro dele havia algo vivo."

Achei tudo muito estranho. Desde que me mudei para o apartamento, aprendi muita coisa nova, inclusive sobre sonhos; mas o relato de Zé Meio-Santo era bizarro demais.

Costumava consultar livros de interpretação de sonhos, então brinquei: "Zé, isso é sinal de que vai ganhar uma promoção e enriquecer!"

"Enriquecer coisa nenhuma! Se eu sonhasse com caixão em casa, durante a noite, e fosse de cor normal, sem aura ruim, talvez fosse sinal de um bom negócio. Mas eu estava cochilando ao lado da floresta de bananeiras e tive esse pesadelo! E sabe onde fui no sonho?"

"No bosque dos túmulos, justamente onde corremos agora há pouco!"

Levei um susto, lembrando subitamente daquele homem, das hordas de almas penadas subindo dos túmulos, daquele chamado intenso.

"No sonho, eu estava com uma pá de ferro, cavando um túmulo. Cavei, cavei, até que encontrei um caixão completamente vermelho, de apenas um metro, mas com uma presença assustadora. Foi tanto medo que acordei suando frio."

Só então entendi porque, naquela manhã, ao acordar Zé Meio-Santo, ele estava coberto de suor. Na hora, pensei que era cansaço do trabalho, mas agora sabia o real motivo.

"O que isso significa?", perguntei, o nervosismo crescendo em mim. O chamado que sentira desde a noite anterior ficara mais forte pela manhã; será que tinha relação com o sonho de Zé Meio-Santo?

Ele balançou a cabeça e sorriu amargamente.

"Acredito que ali há um feitiço lançado por alguém poderoso. Sem querer, acabaram criando um espírito na bananeira, que, ao absorver energia negativa, não apenas não destruiu a armadilha, como prolongou seu efeito. Agora que destruímos o espírito, reequilibramos a trama, e o feitiço começará a mostrar sua verdadeira força."

Eu, totalmente leigo em feng shui, fiquei ainda mais confuso. Decidi que, ao voltar para a escola, estudaria o Livro das Mutações.

"Talvez você não compreenda, então vou simplificar: algum mestre em artes ocultas montou um padrão de feng shui nesse vilarejo, usando a sorte do lugar para suprimir as distorções causadas pela energia negativa. Mudar um padrão de feng shui é muito difícil; só se pode transformar um bom padrão em ruim, nunca o contrário, a não ser que seja alguém realmente hábil. Quem armou isso aqui sabia o que fazia. Primeiro, prendeu as almas dos mortos com um feitiço, depois, usando o relevo das montanhas, criou uma entrada para a energia negativa, de onde ela só pode entrar, nunca sair. Por isso, tanta coisa estranha acontece neste vilarejo."

"Destruímos o espírito da bananeira, mas isso só acelerou a concentração da energia negativa. As bananeiras, por serem plantas do mundo das sombras, atraíram essa energia, formando aquela floresta em poucos anos, um verdadeiro redemoinho sugando toda a energia negativa dos arredores. Antes, essa energia ficava presa às árvores, mas, ao destruí-las, liberamos tudo para o bosque dos túmulos."

"E aposto que o feiticeiro escondeu algo sob o cemitério. Quem sabe, justamente aquele caixão vermelho?"

Ouvi as palavras de Zé Meio-Santo com crescente terror. Aquele caixão vermelho, teria alguma ligação com o chamado que eu sentia? E se tivesse, o que significaria um caixão vermelho chamando por mim?

"O que é afinal esse caixão vermelho? Será que foi usado para enterrar alguém do vilarejo?"

Zé Meio-Santo revirou os olhos.

"Quem seria tolo de enterrar um antepassado num caixão vermelho? Se alguém fez isso, só pode ser um mestre das artes ocultas querendo mudar o próprio destino. Não dá, quanto mais penso, mais assustado fico. E esse carro não pega de jeito nenhum!"

Ele parecia ansioso para voltar logo a Chengdu e se esconder em seu cantinho seguro.

Às treze horas, chegamos à funerária de Zé Meio-Santo.

Assim que subimos, encontramos Oito-Tálias já esperando na porta havia muito tempo.

Seu rosto estava sombrio e senti um aperto no peito. Será que algo aconteceu com Pequena Borboleta?

"Oito-Tálias, o que houve?", perguntei.

Ele balançou a cabeça e entrou na sala.

"Irmão, acho que arrumei encrenca desta vez!"

Assim que entrou, Zé Meio-Santo revelou, com ar assustado.

Oito-Tálias assentiu e disse em voz baixa: "Já sei de tudo. O lugar que vocês visitaram se chama Vila do Laureado. Há trinta anos, aconteceu lá uma grande tragédia, e meu avô teve parte nisso."

"O quê? Irmão, você me meteu numa roubada! Não disse nada, e eu já vinha sentindo que minha sorte não andava boa. Não imaginei que fosse tão sério!"

"O que você viu?", perguntou Oito-Tálias, agora severo.

"Um caixão vermelho, vermelho como sangue, e um medo profundo, um terror que vem da alma, medo da morte." Zé Meio-Santo acendeu um cigarro. Notei que suas mãos tremiam muito. Na época, eu ainda não entendia o significado disso, por isso achei estranho o comportamento dos dois irmãos.

"Meu avô dizia que isso tem a ver com a sucessão dos mestres do yin-yang. Não é nada simples. O que você viu provavelmente não era um caixão pintado de vermelho, mas um caixão de sangue!"

"Caixão de sangue?", eu e Zé Meio-Santo exclamamos ao mesmo tempo. Não sei o que se passava na cabeça dele, mas vi o suor escorrendo em sua testa.

Ao ouvir essas palavras, um medo súbito me invadiu, como se algo invisível me levasse a pensar naquele caixão de sangue.

"Exatamente. Quando percebi que vocês ainda não tinham voltado, imaginei que algo estranho havia acontecido. Então usei o método dos nove metros para investigar e confirmei que havia problema."

"Irmão, você disse que nosso mestre também esteve envolvido nisso. O que foi? Nunca ouvi o mestre falar sobre essa história!" O suor de Zé Meio-Santo molhava o cigarro em suas mãos.

Oito-Tálias passou o cigarro, já úmido, para Zé Meio-Santo e disse calmamente: "Meio-Santo, não se preocupe. O mais importante agora é cuidar da sua saúde. Parece que você perdeu muitos anos de vida desta vez. Depois, venha comigo: vou tentar conseguir para você mais algumas décadas de sorte!"

Zé Meio-Santo assentiu, tragando o cigarro com avidez.

Minha curiosidade agora misturava-se à inquietação. Queria saber tudo sobre essa história.

"Oito-Tálias, conte-nos a história desse caixão de sangue, por favor."

(Aviso: preciso de um figurante que seja colega de quarto do protagonista na universidade. Se algum leitor quiser participar, deixe um comentário no post até o meio-dia. O nome será usado nos capítulos da noite. Muito obrigado!)