O delator, o grande lobo

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3124 palavras 2026-02-09 14:07:47

Bum, bum, bum...

Naquele momento, do lado de fora, ressoou o som de grandes tambores sendo batidos. Era um som familiar, comum nas zonas rurais de vez em quando, aquele tipo de tambor que se toca quando alguém morre.

À medida que o som se intensificava, pude ver pela janela que todo o exterior do edifício estava iluminado, embora dentro do apartamento nenhuma luz estivesse acesa, mas a claridade bastava para revelar toda a mobília do interior.

O quarto de Xiao Die estava impecavelmente arrumado. Casacos escarlates pendiam em ordem no armário, feito de pele humana esticada. A mesa era toda composta de ossos, e sobre ela repousava uma grande garrafa de líquido vermelho como sangue.

— Eles chegaram!

Enquanto eu ainda estava atônito, a voz de Xiao Fang soou.

Chegaram? Será que o fantasma maligno do crematório, mencionado anteriormente por Xiao Fang, finalmente apareceu?

Não ousei levantar a cabeça, agachei-me num canto junto à parede, esforçando-me para manter a calma. Aquilo era um duelo entre fantasmas, e eu, simples mortal, não passava de bucha de canhão.

Mas parecia que aquele fantasma já estava ciente do plano de Xiao Die. Quando estava prestes a prender a respiração e me esconder no armário de pele humana, a voz apressada de Xiao Fang ressoou.

— Sen, fuja rápido!

Levantei-me, mas antes mesmo de dar um passo, uma rajada de vento frio entrou pela janela. Minhas pernas ficaram bambas, incapazes de se mover, enquanto Xiao Fang gritava em desespero.

Parecia um misto de choro e pedido de socorro, um som desagradável.

Senti um peso forte sobre meu ombro, não tive coragem de olhar para trás, meu corpo tremia descontroladamente, pois vi claramente uma mão decepada, ensanguentada, com ossos expostos, pousando sobre meu ombro.

BAM!

Quando meu coração quase pulava pela boca, a porta à minha frente foi escancarada, e uma mulher vestida de vermelho, dos pés à cabeça, surgiu no portal. Seus olhos eram rubros, e ao estender a mão, as unhas começaram a crescer, afiadas e ameaçadoras.

— Solte-o agora, assim talvez ainda tenha uma chance de reencarnar. Caso contrário, morrerá!

A voz de Xiao Die não era mais doce e suave como antes. Transformara-se em pura autoridade, um tom tão feroz que até os fantasmas se aterrorizariam.

Senti nitidamente o braço ensanguentado sobre meu ombro tremer, mas não se moveu!

Quando tentei aproveitar para fugir, uma sensação mortal de perigo me atingiu; percebi uma enorme boca ensanguentada avançando em direção à minha cabeça.

— Está pedindo para morrer!

Fiquei paralisado de medo, não vi o movimento de Xiao Die, mas de repente, lá estava ela ao meu lado, pousando delicadamente a mão sobre meu ombro.

Não me atrevi a mexer, pois o fantasma que antes queria devorar minha cabeça já estava sendo despedaçado, enquanto a família de Xiao Fang devorava-o com ferocidade.

Fantasmas devorando fantasmas.

Naquele momento, eu não sabia, mas depois compreendi: uma das formas mais rápidas de fantasmas como Xiao Die aumentarem seu poder era devorando outros espíritos, absorvendo mais rancor e tornando-se mais fortes.

Por ora, deixemos isso de lado. Após Xiao Die salvar-me, seu semblante não se aliviou. Percebia-se algo assustador nela, mas diferente de outros fantasmas, havia certa beleza artística em seu terror.

— Isso não é bom!

No momento em que Xiao Fang engoliu o último dedo do outro fantasma, o rosto de Zhang Xiao Die escureceu, mostrando uma expressão feroz. Ela me tomou nos braços e saltou para fora.

Senti o vento gélido atravessar meu corpo. Quando o ar parou, já estávamos na entrada do edifício. Diante de mim, só restava destruição. Como tinha passado folhas de salgueiro nos olhos, ainda era capaz de enxergar tudo claramente.

Por todo lado, pedaços de carne, membros amputados, alguns fantasmas caídos ao chão sem as pernas, as mãos esmagadas, tentando apanhar globos oculares dispersos e recolocá-los nas órbitas vazias.

Lutei para controlar meu pavor. Atrás de Xiao Die, eu era claramente um estranho naquele cenário.

Uma multidão estava diante de nós. Ou melhor, uma multidão de fantasmas.

Na dianteira, um homem alto, coberto de sangue, com ossos salientes, visivelmente careca, metade da cabeça esmagada, massa encefálica escorrendo ao chão. Uma visão assustadora.

— Xiao Die, você quebrou as regras deste lugar! — rosnou Zeng Da Niu, o corpo quase espremido até virar uma pasta.

Só conseguia fixar o olhar na massa encefálica pulsante, os olhos presos por fios de sangue nas órbitas ocas.

— Regras?

Zhang Xiao Die, protegendo-me, estava ainda mais pálida, os olhos rubros exalando uma sede de sangue.

Percebi que os aldeões mortos estremeceram de medo ao seu redor.

A família Yang Xue, então, tremia e arfava, línguas longas para fora.

Até o açougueiro Da Kang se afastou, flutuando para trás.

— Claro, você não sabe onde está? Como ousa trazer um humano para cá? — disse Zeng Da Niu, pegando os próprios olhos nas mãos e mostrando-os em minha direção, os globos oculares saltando na palma ensanguentada.

Parecia que aquela noite reunia todos os horrores possíveis, subvertendo totalmente meus conceitos de vida, valores e realidade.

A mão gelada de Xiao Fang apertava a minha, também tomada pelo medo.

— Este é o meu território, Zhang Xiao Die. Ou você quer começar uma guerra comigo?

Enquanto falava, senti a mão de Xiao Die, que me segurava, começar a se transformar, as unhas crescendo velozes, afiadas como lâminas.

Àquela altura, não sabia mais o que era medo. Comparado ao grupo de Zeng Da Niu, Xiao Die me parecia muito mais segura.

Mesmo sendo todos fantasmas, pelo menos eram pessoas que eu conhecia em vida.

— Seu território? Ha! Xiao Die, não se esqueça, esta área sempre foi minha. Além disso, já tenho interesse em você faz tempo. Por que não vem comigo? Nesta cidade, só comigo estará segura. Ninguém ousará tocar em você além de mim, Zeng Da Niu!

Enquanto falava, ele fez um gesto para alguém próximo.

De repente, um uivo feroz ecoou. Desta vez, consegui ver: um enorme cão-lobo, todo ensanguentado, carregando metade do cadáver de uma mulher na boca, espalhando sangue por todo lado.

— Então, dou-lhe alguns segundos para pensar. Meu lobo ainda vai demorar um pouco para terminar esse banquete.

O lobo olhou para mim, e senti um perigo mortal. Sua boca era tão grande quanto uma cabeça, dentes ensanguentados dilacerando a metade da mulher cujo intestino e vísceras eram puxados para fora, espalhando um fedor nauseabundo.

Franzi o cenho, mas os que estavam ao redor pareciam desfrutar da cena, até mesmo o bebê que havia encontrado antes roía os próprios dentes.

— Nem pense! Quem você pensa que é, Xiao Die é nossa dona…

Uma criança magra mal havia avançado quando Xiao Die a segurou e, fria, disse:

— Zeng Da Niu, vejo que está decidido a lutar comigo esta noite!

— Hahaha, Zhang Xiao Die, é disso que gosto em você! Ouvi dizer que anos atrás andou com uns mediadores de espíritos, mas se vier à luta, sabe bem o resultado. Com esse bando de fracos, como protegerá seu namorado? Vou ser direto: hoje vim por causa dele, quero devorá-lo!

Ao ser apontado pelo dedo esquelético de Zeng Da Niu, um arrepio percorreu meu corpo, os pelos se eriçaram.

Agora entendi por que os pequenos fantasmas me importunaram ao entrar; Mestre Zhao disse que havia um grande fantasma por trás, mas só agora percebi que era esse Zeng Da Niu. Se esses dois grupos de fantasmas começassem a lutar, eu certamente não teria salvação.

Mestre Zhao, Mestre Zhao, venha me salvar!

Em meu desespero, baixei os olhos para ver as horas. Eram apenas três da manhã. O dia ainda estava longe de amanhecer.

Por que essa noite era tão interminável?

— Traidor, só pode ter sido você!

De repente, Zhang Xiao Die estendeu a mão e agarrou um fantasma magricela num canto, vestindo roupas pretas abertas, calças amarelas, um chapéu de couro e óculos de aro redondo, com um buraco sangrento do tamanho de um polegar na testa.

— Não fui eu, Xiao Die, não fui…

— Se não foi você, quem mais seria? Traidor, nunca deveria ter poupado você!

Fiquei atônito, sem entender nada do que diziam. Logo vi Xiao Die transformar os dedos em lâminas e despedaçar o fantasma magro, que foi devorado pelos outros espíritos ao redor.

— Sen, não tenha medo. Esse fantasma já não prestava em vida, era um grande traidor que matou muita gente. Xiao Die só o acolheu por pena, mas mesmo morto continuava servindo a outros como cão de aluguel!

Assenti. Naquele momento, o que eu poderia dizer?

Antes desta noite, tudo isso parecia fantasia, um sonho impossível.

Uivos ensurdecedores ecoaram. O grande lobo parecia satisfeito, abriu a boca e cuspiu uma cabeça humana, sangrenta, sem um fio de carne.