Arranjo Trigésimo Oitavo

Apartamento do Além O jovem senhor da família Yang 3281 palavras 2026-02-09 14:10:25

Caminhando por aquela rua tão familiar, alcancei a entrada do beco. Imediatamente, recordei-me da primeira vez em que adentrei aquele lugar, quando ainda era a Pequena Borboleta quem me guiava à frente.

— Vamos! — Zé, o Meio-Santo, deu-me uma palmada no ombro.

Seguimos juntos, nós três, pelo longo beco até seu fim e, ao sairmos, fiquei completamente estupefato. Não havia nenhum edifício diante de mim; o lugar onde antes se erguia um imponente prédio de apartamentos era agora apenas um terreno vazio, cheio de montanhas de lixo.

— O quê... — balbuciei.

Tonho Oito Moedas aproximou-se, pousou a mão no meu ombro e disse: — Eu te disse antes, aqui nunca houve apartamento algum. Sei que você não mentiria para mim, mas simplesmente não conseguimos enxergá-lo. Melhor cuidarmos logo da cremação do corpo de Ruowei antes de pensar em outra coisa.

Atônito, segui Tonho Oito Moedas até o crematório do outro lado da rua. O local, como sempre, abrigava muitos corpos e, à noite, era ainda mais carregado de uma aura sinistra. Porém, ao entrarmos, não notamos nada de estranho.

Voltei-me várias vezes para olhar aquele terreno coberto de lixo, sem sinal algum do antigo edifício. Lembrei-me de quando Tonho Oito Moedas já havia me dito algo semelhante, e embora na época eu não desse importância, agora meu coração se agitava como um mar revolto.

Para onde teria ido o apartamento? E a Pequena Borboleta, Dotinha, Li Bing, o Cachorrão... Onde estariam eles?

Enquanto eu me perdia nesses pensamentos, Tonho Oito Moedas e Zé, o Meio-Santo, já haviam realizado os ritos de passagem para Ruowei e, em seguida, cremado seu corpo. Zé cuidadosamente colocou as cinzas num caixote.

— Tio Zé, deixe-me levar as cinzas de Ruowei. Prometi que as lançaria ao mar.

Tonho Oito Moedas colocou-se à minha frente, recebeu o caixote e, com expressão impenetrável, virou-se para mim:

— Deixe isso comigo.

Nada respondi, pois já sabia, por Zé, o Meio-Santo, que Tonho Oito Moedas era o pai adotivo de Ruowei, conhecendo-a melhor do que eu.

Após concluirmos tudo, não demoramos a deixar o crematório. Tonho Oito Moedas explicou que aquele era o maior ninho de espíritos de toda a cidade, e que, à meia-noite, os fantasmas saíam em bandos — por isso, precisávamos sair antes da hora fatal.

Assenti. Eu já vira fantasmas antes, mas as palavras de Tonho só reforçaram minha convicção: Pequena Borboleta e os demais estavam lá, assim como o apartamento. Só não entendia por que não se manifestavam. Estariam em perigo?

Uma inquietação crescente invadiu-me. Quando deixamos o Caminho dos Mortos, eram onze e quarenta da noite. Zé e Tonho pareciam também desanimados, nada perguntaram e logo se despediram.

Assim que se foram, corri de volta. Já não havia temor em meu coração: eu sabia que só me restavam dois dias. Precisava ver Pequena Borboleta esta noite, antes de retornar ao interior — talvez fosse nossa última despedida.

Três dias... Agora, apenas dois.

Cheguei ao beco, detive-me diante daquele terreno de lixo. O vento frio cortava como navalha, e sombras pareciam dançar incertas ao longe.

— Dotinha! Pequena Borboleta! — gritei com força.

No instante em que bradei, uma estranha ondulação, como a superfície da água, surgiu diante de mim, destacando-se sob o brilho amarelado das chamas fantasmas. O crematório atrás de mim já fervilhava de atividade, e uma nuvem amarelada cobria o céu.

O vento gelado fez-me estremecer.

Estendi a mão e toquei a ondulação: havia ali uma espécie de barreira invisível. De súbito, lembrei-me do que Pequena Borboleta me dissera certa noite. Sem hesitar, mordi o dedo médio até sangrar, e tracei um risco firme sobre a ondulação diante de mim.

— Venho do apartamento, o apartamento me protege; Apartamento do Além, abre-te!

No exato momento em que pronunciei a palavra final, o monte de lixo desapareceu sem deixar vestígios, revelando um prédio antigo e austero — o mesmo apartamento no qual eu entrara há algumas noites.

Pela primeira vez eu chamava pelo nome do lugar: Apartamento do Além.

No instante em que ele apareceu, vi incontáveis sombras fantasmas espreitarem pelas janelas. Não senti medo algum — apenas uma imensa excitação e alegria.

Aproximei-me da porta principal; ela se abriu lentamente para mim. Ao entrar, surpreendi-me: o interior não era mais o mesmo. Tudo se tornara luxuoso, o térreo parecia um imenso saguão de cinema, maior que vários campos de futebol. Não me demorei e segui diretamente ao elevador.

Apertei o botão do décimo quarto andar. Outros entraram no elevador, mas ninguém falou — todos eram fantasmas, eu sabia disso. E como minha vida estava por um fio, não quis mais me envolver com seus destinos.

Cheguei ao décimo quarto andar, não entrei em meu quarto, mas bati à porta de Pequena Borboleta.

Quem abriu foi Xiaofang.

Ao me ver, Xiaofang sorriu de alegria e eu a abracei com força. Então vi Dotinha, pálida como cera, e Pequena Borboleta, deitada na cama. Dakang e Cachorrão estavam ao lado dela.

— Cachorrão, Dakang, Pequena Borboleta e Dotinha...

— Pequena Borboleta ficará bem. Ontem à noite perdeu muita energia vital, o que abalou a gestação. Já Dotinha... Bem, ela se sacrificou para te salvar, esgotou sua essência e, agora, está praticamente morta.

— Morta? — Senti o rosto empalidecer, corri até Dotinha e a tomei nos braços. Seu rosto parecia entalhado em gelo, sem sinal de vida, e os olhos eram brancos e prateados, sem nenhum traço de sangue.

Foi então que Pequena Borboleta tossiu e despertou.

— Pequena Borboleta! — Agarrei sua mão.

— Querido, é mesmo você? — Em seu rosto, por um instante, vi surpresa e alívio.

— Sou eu, Pequena Borboleta. Não morri. Você ficará bem. Vou te salvar agora!

Sem hesitar, mordi meu próprio braço, rompendo a veia, e o sangue escorreu em fio grosso. Levei-o à boca de Pequena Borboleta.

— Querido...

— Beba! — ordenei, impaciente.

Pequena Borboleta abriu a boca gelada, cravou os dentes em meu braço e sugou com força. Vi um leve rubor fantasmagórico retornar ao seu rosto, e finalmente respirei aliviado.

Dois minutos depois, ela se afastou, sentou-se, rasgou um pedaço de pele do próprio braço e o amarrou sobre o ferimento, uma sensação de frio cortante percorreu-me o corpo, despertando-me.

— Obrigada, querido.

Sorri, mas logo lancei um olhar preocupado para Dotinha.

— Pequena Borboleta, e Dotinha?

Ela suspirou, tomou Dotinha nas mãos e respondeu suavemente:

— Ainda há salvação para Dotinha, mas será complicado.

— Não importa, temos que salvá-la!

Dotinha convivera comigo por poucos dias, mas já era como uma irmã. Eu não sabia bem o que ocorrera após eu abrir o túmulo amaldiçoado, mas Zé, o Meio-Santo, contou que quando chegaram ao crematório durante a noite, eu já estava desacordado nos braços de Pequena Borboleta, e o Monge de Madeira havia sumido.

— Querido, você tomou emprestada a vida de outro fantasma? — Pequena Borboleta olhou-me surpresa.

Assenti, então narrei tudo o que acontecera naquele dia.

— Três dias? — Pequena Borboleta franziu o cenho. Todos os fantasmas presentes ficaram abatidos, tomados pela tristeza.

Diante do semblante deles, forcei um sorriso e bati no ombro de Cachorrão:

— O que foi, gente? Em dois dias poderemos viver juntos, de verdade. Não há motivo para tristeza!

No fundo, um inexplicável sentimento de ternura me assaltou. Cachorrão e Xiaofang foram meus companheiros de infância. Tantos anos se passaram e todos mudaram; não eram mais os garotos de outrora.

— Querido, talvez eu tenha uma maneira de prolongar sua vida — disse Pequena Borboleta, hesitante, com preocupação nos traços delicados.

— Sério, irmã Pequena Borboleta? Eu sabia que você encontraria um jeito de salvar o irmão Sen! — exclamou Xiaofang.

Olhei para Pequena Borboleta, que se sentou, tomada de dúvidas.

— Não sei se é possível, mas lembro que a vovó dizia que dentro do caixão de sangue do enterro fantasma está selado um espírito aterrador. Como você sempre viveu de vida emprestada, qualquer fantasma que te ceda a própria essência será destruído para sempre, sem chance de reencarnação. Mas vovó dizia que aquele espírito, selado no caixão, possui energia suficiente para te emprestar vida.

— Ela disse mesmo isso? — estremeci. Se vovó dissera isso, será que tudo estava planejado desde o princípio?

Pequena Borboleta assentiu e, depois, negou com a cabeça, deixando-me confuso.

— Vovó dizia que, ao completar vinte e quatro anos, só o espírito do caixão de sangue poderia desfazer sua maldição. Mas também avisou que, mesmo assim, dependeria da sorte. E agora tudo aconteceu antes do tempo: faltavam três meses para seu aniversário de vinte e quatro anos. O ciclo foi quebrado e não sabemos mais se ainda haverá chance.

Assenti. Ao pensar no caixão citado por Pequena Borboleta, logo veio-me à mente aquela terrível tumba de sangue...